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O Wigan caiu, mas não tem razão para ficar de cabeça baixa

Foram oito anos sustentando a mística. O Wigan estreou no Campeonato Inglês em 2005 e se sustentou firmemente como único clube a nunca sofrer um rebaixamento na competição. Os Latics protagonizaram três grandes milagres nesse período, fugindo da queda que parecia iminente.  Por ironia, na mesma semana em que viveu sua maior glória, a conquista da Copa da Inglaterra em um Wembley abarrotado e contra o favoritíssimo Manchester City, o clube amargou o retorno à segunda divisão.

O responsável por decretar o fim da escrita foi o Arsenal. O Wigan fez bom primeiro tempo e teve próximo de virar o placar dentro do Emirates, mas perdeu fôlego e acabou goleado por 4 a 1. Uma derrota que sela o rebaixamento, embora não seja a verdadeira pá de cal. O maior tropeço dos Latics foi perder para o Swansea em casa na última semana. Com os resultados da rodada, o time de Roberto Martínez ainda dependia somente de si, especialmente por pegar o ameaçado Aston Villa. Todavia, vencer os Gunners dependeria de um esforço tão grande ou até maior que as façanhas já registradas pelo clube.

Quem vai e quem fica
Roberto Martínez, técnico do Wigan
Roberto Martínez, técnico do Wigan

A maior questão para o Wigan a partir de agora será lidar com a possível saída de Roberto Martínez. Responsável por estruturar o projeto do Swansea, o técnico chegou aos Latics em 2009 e fez mágica desde então. O rótulo de “incaível” se deve muito ao trabalho do espanhol, capaz de estruturar a equipe de maneira excelente e extrair o máximo de um elenco limitado. Depois do banho tático na final da Copa da Inglaterra, a saída de Martínez parece ainda mais próxima e o Everton é apontado como seu provável destino.

Além disso, os principais jogadores do elenco também devem arrumar suas malas. O nome mais disputado deverá ser Callum McManaman, que vem em uma ascendente impressionante. Reserva até meados de março, o atacante de 22 anos não apenas se firmou na equipe, como também se tornou um dos destaques. Melhor em campo na final em Wembley, mereceu até mesmo a convocação para o Campeonato Europeu Sub-21 com a seleção inglesa.

Pela idade e pelo papel no time, James McCarthy também deve ser bastante cobiçado. Motor no meio-campo, o irlandês de 22 anos foi titular em todas as rodadas da Premier League. Entre os mais velhos, Shaun Maloney também vem jogando o fino e possivelmente receberá outras propostas, enquanto Franco Di Santo deverá procurar um clube que lhe dê mais visibilidade se quiser disputar a próxima Copa do Mundo pela seleção argentina.

David Whelan, o criador do mito
Dave Whelan é o dono do Wigan desde 1995
Dave Whelan é o dono do Wigan desde 1995

Já as maiores esperanças dos torcedores se concentrarão em Dave Whelan. Ex-jogador profissional e dono de uma loja de artigos esportivos, o empresário comprou o Wigan em 1995 e prometeu colocar o time da terceira divisão na Premier League. Em três anos, conquistou o primeiro acesso e cumpriu após mais sete anos.

Neste final de semana, Whelan viu passado e presente se cruzarem. Aos 24 anos de idade, lateral do Blackburn encerrou a carreira justamente na decisão da Copa da Inglaterra de 1960, ao quebrar a perna durante a partida. Sequer pôde comemorar o título, com a vitória do Wolverhampton na ocasião. Um grito guardado por 53 anos e que foi solto da melhor maneira possível, com o triunfo surpreendente.

Uma sensação que dificilmente Whelan viverá outra vez. E, talvez, também a grande maioria dos torcedores que testemunhou o título. Eles sabem que outra conquista na Copa da Inglaterra não acontecerá tão cedo. Diante dessa alegria, o rebaixamento não é tão devastador assim. Uma situação que iria acontecer uma hora ou outra e que os Latics têm totais condições de reverter.

Garantido na Liga Europa, o clube contará com alguns milhões de libras a mais em seus cofres na próxima temporada. Além disso, o regulamento da liga é bem afável com os recém-rebaixados, garantindo um ótimo reforço financeiro para lidar com a ausência de elite. Tendo em conta a boa gestão implementada nos Lactics nas últimas duas décadas, o retorno será questão de tempo. O “insubível” Wigan não deverá ser tão persistente quanto o “incaível”.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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