O vírus Newcastle

Caiu o oitavo técnico no Campeonato Inglês 2007/8. A vítima da vez foi Sam Allardyce, demitido do Newcastle. O treinador durou apenas oito meses no cargo e deixou os Magpies em 11º lugar na Premier League.
Para um time do tamanho do Newcastle, que gastou € 34 milhões na pré-temporada para contratar nove reforços, realmente é inadmissível chegar à metade do campeonato na parte de baixo da tabela.
Mas tem algo errado nessa história. Em maio, quando acertou com o Newcastle, Allardyce era considerado o mais promissor técnico inglês e vinha de um período de sucesso consistente no Bolton. Será que de uma hora para outra ele desaprendeu a comandar um time?
É claro que não. O fracasso de Allardyce mostra como o Newcastle ainda é uma máquina de fritar técnicos – apesar de ter se livrado daquele que era considerado seu maior problema, o antipático dono Freddy Shepherd. Desde 1997, quando o time treinado por Kevin Keegan jogou fora um título que parecia ganho, o único técnico a alcançar certo sucesso com os Magpies foi Bobby Robson, entre 2002 e 2004. De resto, são oito anos de decepções em série.
A saída de Shepherd, embora seja boa no longo prazo, pode ser incluída entre os motivos para o fracasso do técnico. Afinal de contas, Allardyce foi contratado pelo antigo dono do Newcastle, poucas semanas antes de o clube ser vendido para Mike Ashley. O problema é que o novo proprietário nunca fez segredo de que preferiria outro nome para o cargo – mais especificamente, Alan Shearer.
O ex-atacante, aliás, é um dos maiores culpados pelos problemas que afetam o Newcastle na última década. Adorado pela torcida, nunca hesitou em usar sua popularidade para ganhar privilégios – o que era extremamente prejudicial nos últimos anos de sua carreira, quando forçava os técnicos a escalá-lo mesmo longe de seu auge físico e técnico (parecido com o que faz Romário no Vasco). Depois de aposentado, deixa vazar constantemente na imprensa histórias de que sonha em treinar os Magpies. Com isso, bastam três derrotas para começarem a dizer que o treinador da vez seria substituído por Shearer.
Some-se a isso um ambiente interno desordenado, em que os jogadores têm inúmeras regalias, formando um elenco dividido e desmotivado, e nota-se que dirigir o Newcastle não é tarefa das mais fáceis. Para completar, o clube conta com uma torcida apaixonada, mas muito exigente e com pouca paciência depois de anos de fracassos, o que contribui para aumentar ainda mais a pressão sobre os treinadores.
Tendo tudo isso em consideração, fica claro que Sam Allardyce não era o homem certo para o clube. Deu para perceber nos últimos meses que o técnico é da ‘escola Van Gaal’ (não no estilo de jogo, que é completamente diferente): ele tem um esquema de treinamento e de jogo, mas só um. Dadas as condições certas – como aconteceu no Bolton –, o ‘pacote’ funciona muito bem. No entanto, o treinador não sabe se adaptar, e isso muitas vezes é fatal.
No Newcastle, Allardyce deveria ter percebido que seu estilo de jogo feio e ‘sujo’ não ia dar certo. Não só ele não tem os atletas ideais para implantá-lo como também a própria torcida do time exige algo mais bonito de se assistir. Como os resultados não apareceram, não demorou para jogadores começarem a reclamar publicamente e a torcida pedir a cabeça do treinador. Com tudo isso, até que Allardyce demorou para cair.
Agora, começa a novela para escolher o novo técnico do Newcastle. O primeiro favorito para assumir o time foi Alan Shearer, mas o ex-jogador tirou o corpo fora da disputa (pelo menos oficialmente). Depois, apareceu com força o trambiqueiro Harry Redknapp, que mostrou interesse no cargo, mas não seria uma opção muito popular. Falou-se na volta de Kevin Keegan, em Mark Hughes, Didier Deschamps e, por último, Gerard Houllier. Até o fechamento desta coluna, nenhum deles demonstrou interesse no cargo. Então, não se surpreenda se o Newcastle fechar com um nome totalmente diferente ou mesmo decidir efetivar um interino até o fim da temporada.
Essa sucessão de nomes completamente díspares – e, em geral, não qualificados para o cargo – mostra como o clube está perdido e não tem uma linha de ação clara para o futuro. Ao que tudo indica, o clube está condenado a mais um longo período de decepções. Acabar com o jejum de 52 anos sem títulos, então, nem pensar.
CURTAS
– Com Sam Allardyce demitido, o novo técnico com o pescoço na forca é Rafa Benítez.
– O espanhol perdeu completamente o moral quando um dos donos do Liverpool admitiu ter conversado com Jürgen Klinsmann há alguns meses.
– Vale lembrar que no Tottenham a diretoria fez exatamente a mesma coisa, o que tornou a situação de Martin Jol insustentável.
– Como os resultados do Liverpool não são tão ruins, o mais provável é que Benítez fique até o fim da temporada e depois caia fora.
– Inacreditável: o Chelsea torrou € 20 milhões para contratar Nicolas Anelka.
– Isso menos de uma semana depois de dizer que não pagaria mais de € 13 milhões pelo jogador.
– A contratação tem motivo: afinal, Drogba e Kalou estão na Copa Africana de Nações, e Shevchenko está machucado.
– No entanto, não é razoável gastar toda essa grana para cobrir um problema temporário no ataque.
– A não ser que se considere que a saída de Drogba no fim da temporada já é certa…
– Para mostrar que dinheiro não é problema, os Blues também torraram € 12 milhões para tirar o zagueiro sérvio Branislav Ivanovic do Lokomotiv Moscou.
– E por falar em zagueiros caros do leste europeu, o Liverpool contratou o eslovaco Martin Skrtel, por € 8 milhões.
– E agora, uma atualização dos favoritos para assumir as seleções da Escócia e da Irlanda, segundo as casas de apostas britânicas.
– Na Escócia, os três nomes mais cotados, na ordem, são: Graeme Souness (ex-Newcastle), Mark McGhee (Motherwell) e Tommy Burns (ex-assistente da Escócia)
– Na Irlanda, os principais candidatos são: Terry Venables (ex-assistente da Inglaterra), John Giles (ex-técnico da Irlanda) e David O’Leary (ex-Leeds e Aston Villa).



