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O que a saída do Reino Unido da União Europeia significa para o futebol inglês

Atualizada às 12h41 de 24 de junho de 2016, depois da votação.

O povo britânico foi às urnas, na última quinta-feira, e decidiu, com 51,9% dos votos, sair da União Europeia, após meses de campanhas a favor e contra a permanência do Reino Unido no bloco comunitário. As repercussões serão relevantes em cenários como a política, a economia e a imigração. O futebol, como sabemos, nunca escapa dessas coisas. Sem um acordo de livre circulação de pessoas e de trabalho com os membros do bloco, a vitória do Brexit (astuto trocadilho que mistura “Britain” com “exit”) poderia ter sérias consequências à Premier League, uma liga com caráter internacional e alcance global.

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Ano passado, o futebol inglês deixou mais rígida a sua regra para conceder licença de trabalhos a jogadores estrangeiros. O objetivo era favorecer a formação de atletas ingleses, fortalecer a seleção e garantir que apenas os melhores de outros países viessem para a Grã-Bretanha. O atleta precisa ter disputado uma porcentagem de partidas pela sua seleção nos últimos dois anos, de acordo com a posição dela no ranking da Fifa. Por exemplo: para times entre a primeira e a décima posição, é exigida uma participação de 30% no time nacional; para equipes entre a 11ª e a 20ª posição, 45%. E assim por diante até as 50 primeiras colocadas da lista. Com a saída do Reino Unido, os jogadores dos 27 membros restantes da União Europeia ficam na mesma situação de atletas sul-americanos ou africanos, por exemplo, e precisam estar dentro desses parâmetros.

Segundo uma pesquisa da BBC, 332 jogadores europeus que atuam na Premier League, na segunda divisão inglesa e na elite da Escócia não cumpririam esses critérios. Entre eles, destaques da última temporada, como os franceses Kanté, Martial e Payet, entre muitos outros (Zouma, Bellerín, Coquelin, De Gea, Mata, Schneiderlin, Navas, Nasri, Azpilicueta). Mais de uma centena desse total atua na Premier League. Caso haja um efeito retroativo com a saída do Reino Unido, ou seja, quem já estiver no país não receber uma licença de trabalho e tiver que ir embora, Aston Villa, Newcastle e Watford perderiam 11 atletas de suas equipes. Apenas 23 dos 180 jogadores europeus e não britânicos da Championship receberiam a licença. Nenhum na primeira divisão escocesa.

Além disso, potenciais estrelas teriam mais facilidade para jogar na Espanha ou na Alemanha. Isso também afeta a capacidade de os ingleses contratarem jogadores entre 16 e 18 anos, porque as regras da Fifa impedem que menores de idade sejam contratados por clubes de outros países, mas a legislação da União Europeia libera a circulação de pessoas dessa faixa etária. Foi o que o Arsenal fez com Fàbregas e Bellerín, e o Manchester United, com Adan Januzaj. Pode ser prejudicada também a capacidade de a elite inglesa continuar pagando salários tão altos em comparação com seus rivais continentais. A conta é simples: menos estrelas e menos abrangência global, menos apelo, menos dinheiro de TV e de acordos comerciais. Sem falar que a economia britânica acordou pessimista no dia seguinte à eleição, com a libra em seu menor nível desde 1985.

“Perderíamos jogadores e treinadores, e os clubes teriam enormes obstáculos para manter seu nível”, afirma a advogada especialista em imigração esportiva, Maria Patsalos, ao site da revista Panenka, antes da votação. “Há quem argumente que seria uma magnífica oportunidade de desenvolvimento para contratar jogadores mais baratos e potenciar o talento local. No entanto, o argumento contrário é que é precisamente o talento estrangeiro que melhora o local”.

Como se ela tivesse adivinhado, a resposta de um porta-voz da campanha Vote Leave (Vote pela Saída, em tradução livre), Robert Oxley, foi justamente essa. Segundo ele, as regras da União Europeia prejudicam a habilidade de a Inglaterra desenvolver talento criado em casa. “Se retomarmos o controle, podemos gastar os £ 350 milhões por semana que enviamos a Bruxelas nas nossas prioridades, como o futebol de raiz”, afirmou, de acordo com a Sky Sports. Esse valor, que o país deixaria de contribuir ao sair da União Europeia, foi uma promessa de campanha do Brexit. Seria gasto prioritariamente em saúde. Mas um dos seus líderes, Nigel Farage, já disse que “foi um erro” falar isso e que é impossível garantir que esse dinheiro estará disponível.

O divórcio entre Reino Unido e União Europeia ainda deve demorar dois anos para entrar em vigor. As duas partes começarão a negociar os termos do acordo, e ainda é difícil saber exatamente o que vai acontecer. O bloco provavelmente fará jogo duro, para desestimular outros países a romperem seus laços. Uma das concessões que os britânicos poderiam ter que fazer para ganhar acesso ao mercado comum da União Europeia seria manter a livre circulação de produtos, pessoas e trabalhadores, como fazem nações da Área Econômica Europeia que não compõem a UE, como Islândia, Noruega e Liechtenstein. A Suíça paralelamente segue acordos parecidos. Mas isso anularia um dos principais argumentos do Brexit: retomar o controle das suas fronteiras e restringir a imigração.

Também pode haver uma exceção para o futebol e um flexibilização das regras da licença de trabalho para atuar no Reino Unido, mas, por enquanto, tanto a Premier League quanto a Federação Inglesa pisam em ovos sobre o assunto. “Dada a incerteza da natureza do cenário político e regulatório que virá depois da votação, não faz muito sentido questionar as implicações até termos mais claridade”, disse um porta-voz da liga. O presidente dela, Richard Scudamore, era contra a saída do país, alegando que “há uma abertura” na liga e seria incongruente tomar outra posição. “Ninguém carrega mais cicatrizes do que eu por ter que ir negociar em Bruxelas e tentar organizar nossos interesses em termos da máquina europeia. No final, você não pode rachar, simplesmente sair. Tem que negociar, influenciar, tentar organizar”, disse à BBC. Ele afirma que os 20 clubes da elite eram a favor da permanência.

O presidente da Federação Inglesa, Greg Dyke, seguiu a linha da incerteza otimista em entrevista à Press Association Sport. “Pode levar até dois anos para sabermos de verdade, mas pode ter um impacto no futebol inglês. Seria uma pena se alguns dos grandes jogadores europeus não puderem vir para cá, mas não acho que isso vai acontecer. Se o número total será reduzido depende dos termos da saída”, afirmou. Dyke foi responsável pelas novas regras para jogadores estrangeiros citadas acima e sempre advogou a favor de mais ingleses na elite do país. “Se isso aumentar o número de jogadores ingleses, será bem-vindo. Mas não queremos perder os melhores da Europa”, completou.

Saiba mais sobre o referendo

David Cameron, primeiro-ministro britânico, cumpriu promessa de campanha e convocou o referendo (Foto: AP)
David Cameron, primeiro-ministro britânico, cumpriu promessa de campanha e convocou o referendo (Foto: AP)

O referendo de quinta-feira, apenas o segundo que o Reino Unido realiza sobre essa questão desde que se tornou membro da União Europeia, em 1973, é uma promessa de campanha do primeiro-ministro David Cameron, que queria continuar no bloco comunitário e renunciará ao cargo por causa do resultado do pleito. Desde a época em que Margaret Thatcher dava as cartas aos britânicos, uma minoria do Partido Conservador, a afiliação tanto dela quanto de Cameron, advoga pela saída do país da UE.

Essa minoria cresceu. Hoje em dia, representa quase metade dos conservadores no parlamento e seis ministros de Cameron, inclusive o ministro da Justiça, Michael Gove, líder da campanha pela saída do Reino Unido. Cameron prometeu convocar o referendo para acalmá-los, ao mesmo tempo em que pretendia enfraquecer o Partido da Independência, com um capital político de quatro milhões de votos (13% do total) recebidos nas últimas eleições gerais.

O argumento, bastante razoável, era que a União Europeia mudou bastante nos últimos quarenta anos e o povo britânico merecia ter a chance de se manifestar sobre a relação do seu país com o bloco comunitário.

Além de Cameron e 16 de seus ministros, o Partido Trabalhista, o Partido Nacional Escocês (pró-independência da Escócia), o Plaid Cymru (pró-independência do País de Gales), os governos dos Estados Unidos, China, Alemanha e França queriam a permanência do Reino Unido.

A União Europeia surgiu em 1951, depois da Segunda Guerra Mundial, com a ideia de unir os países do continente, em uma tentativa de evitar futuras guerras. Cresceu para se tornar um mercado comum, com livre circulação de pessoas e mercadoria entre seus 28 membros.

Quem queria a saída do Reino Unido do bloco comunitário acredita que a União Europeia enfraquece a soberania dos britânicos e impõe muita regulação às suas empresas. Reclama da alta anuidade que precisam pagar – segundo a BBC, o Reino Unido é um dos dez países do bloco que recebem menos do que contribuem. Também quer recuperar o controle das fronteiras e restringir a imigração, no momento em que a Europa passa por uma séria crise de refugiados.

Quem queria a permanência do Reino Unido no bloco comunitário acredita que o Reino Unido não conseguirá ser uma nação relevante no tabuleiro mundial sem a companhia dos seus parceiros europeus. Sem um acordo de livre mercado com a União europeia, a economia passaria por sérios problemas, o que mesmo economistas a favor da saída reconhecem – embora eles digam que, no longo prazo, a economia britânica ficaria mais fortalecida até 2030. Haveria escassez de mão de obra porque restringir a imigração impediria a chegada de jovens com vontade de trabalhar.

O Reino Unido passará dois anos negociando seu divórcio com a União Europeia antes da saída definitiva.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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