O mais desigual da história
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O Campeonato Inglês desta temporada apresentou a briga pelo título mais emocionante dos últimos tempos. Manchester United, Arsenal e Chelsea mantiveram-se parelhos a maior parte do tempo e, até as rodadas finais, não havia sequer um favorito claro.
Isso pode levar a crer que o futebol inglês está se tornando mais equilibrado. Infelizmente, não é verdade. Pelo contrário: quando levamos em consideração todos os 20 times da primeira divisão, descobrimos que o campeonato deste ano foi o mais desequilibrado de todos os tempos.
Mas como é possível chegar a essa conclusão? Para calcular numericamente o nível de equilíbrio do campeonato, adaptamos o Índice de Gini – cálculo usado para medir a desigualdade social dos países. Em vez de comparar a riqueza das pessoas, comparamos o número de pontos feito pelas equipes. Assim, um campeonato 100% equilibrado seria aquele em que todos os times terminam com o mesmo número de pontos (o 0% seria um torneio em que o time mais forte vence todos os jogos).
Pois bem, aplicando-se esse método de cálculo, descobrimos que o Campeonato Inglês 2007/8 teve índice de equilíbrio de 41,5%, o menor da história. E não é difícil entender por quê: no topo, Chelsea, Manchester United, Arsenal e Liverpool atingiram quantidades absurdas de pontos. No pé, seis times fizeram menos que 40 pontos – número que, antigamente, era considerado o mínimo necessário para escapar do rebaixamento. Isso para não falar do Derby, que fez patéticos 11 pontos.
Para ver como esse número é baixo, tomemos como parâmetro a edição mais equilibrada da história do Inglês, que teve 85,6% de equilíbrio. Mas isso aconteceu há muito tempo: na temporada 1927/8. Na era da Premier League, a temporada mais balanceada foi a primeira, em 1992/3, que teve índice de 72,8%.
A tendência histórica é preocupante. Depois de pouco equilíbrio nos anos iniciais, no século XIX, o Inglês se manteve em patamar altamente competitivo (por volta de 73%) até a II Guerra Mundial. Depois, foi caindo gradualmente: média de 71,5% nos anos 1950, 67,2% nos anos 1960, 65,0% no anos 1970, 62,2% nos anos 1980 e 61,3% nos anos 1990. Na década atual, a diminuição vem sendo radical: média de apenas 51,7% de equilíbrio desde a temporada 1999/2000.
Comparando-se com outros campeonatos relevantes do mundo nesta temporada, o Inglês aparece entre os menos equilibrados. Mas dois torneios conseguiram ser ainda piores: o Ucraniano (39,7%) e o Escocês (40,6%). No outro extremo, o europeu mais equilibrado foi o Espanhol, com 61,8%. Mas ele perde para o Clausura Argentino (64,4%) e para o Brasileirão-2007 (68,4%). Mais equilibrada, aliás, foi a Série B brasileira: 75,0%!
Só a título de curiosidade estatística: a tabela mais equilibrada que conseguimos encontrar foi a do Campeonato Marroquino de 1965/6 (sugerida na seção de trívia da RSSSF), que atinge impressionantes 92,8% de equilíbrio.
Mas o que aprendemos com esse monte de números? O mais importante é a constatação que, de fato, a diferença entre ganhadores e perdedores no futebol inglês está aumentando. Cada vez há menos zebras, menos emoção – especialmente nos duelos entre grandes e pequenos. A origem disso, evidentemente, é financeira, já que os pequenos têm cada vez menos condições de competir no que diz respeito a contratações.
Infelizmente, não é possível visualizar grandes soluções no futuro. No curto prazo, se poderia pensar em diminuir a Premier League para 18 equipes. Ao eliminar as duas mais fracas, o campeonato, na média, ficaria mais igual. Por outro lado, isso contribuiria para aumentar, ainda mais, o fosso que existe entre os clubes da primeira divisão e os outros. A solução verdadeira seria criar mecanismos que proporcionem uma melhor distribuição dos recursos financeiros entre todas as equipes. Mas isso não vai acontecer.
É hora de rever a temporada (parte 4)
Seguimos com o nosso balanço time a time da temporada 2007/8 na Inglaterra. Nesta semana, comentamos o ano de Middlesbrough, Newcastle e Portsmouth.
Middlesbrough
Destaque: Stewart Downing
Classificação final: 13º lugar (42 pontos)
FA Cup: eliminado nas quartas-de-final pelo Cardiff (2ª divisão)
League Cup: eliminado pela terceira fase pelo Tottenham
Mais uma vez, o Middlesbrough decepcionou. No segundo ano sob o comando de Gareth Southgate, a temporada da equipe foi tão medíocre quanto a anterior. Durante todo o campeonato, o Boro oscilou entre o 12º e o 18º lugar.
No meio desse marasmo todo, em que a única possibilidade de emoção seria uma eventual briga contra o rebaixamento, de repente caiu no colo do Boro uma chance incrível de ganhar a FA Cup: a equipe enfrentaria o Cardiff nas quartas-de-final, sendo que o único outro time da Premier League vivo na competição era o Portsmouth. E o que aconteceu? O Middlesbrough foi derrotado pelos galeses, por 2 a 0.
Assim, o único ponto positivo da temporada foi a incrível goleada por 8 a 1 sobre o Manchester City, na última rodada – além de um ou outro brilhareco no meio do caminho. É muito pouco. Até quando a paciência da diretoria com o técnico Southgate vai durar, não se sabe. Com ele no comando, não há perspectivas de melhora.
Nota da temporada: 4
Newcastle
Destaque: Michael Owen
Classificação final: 12º lugar (43 pontos)
FA Cup: eliminado na quarta fase pelo Arsenal
League Cup: eliminado na terceira fase pelo Arsenal
O Newcastle sonhou, entrou em crise, voltou a sonhar, entrou em crise outra vez e acabou o campeonato sonhando. Mas, no final das contas, fez os mesmos 43 pontos da temporada anterior – que havia sido um inegável fracasso.
No começo do campeonato, os Magpies estavam otimistas, graças à chegada do técnico Sam Allardyce. Só que ‘Big Sam’ não se deu bem no clube – em parte por sua falta de habilidade para se adaptar, em parte pelos numerosos problemas internos do Newcastle. Depois de 21 rodadas, com o time ocupando o 11º lugar, Allardyce foi demitido.
Como antídoto para a mediocridade da ‘era Allardyce’, a diretoria trouxe Kevin Keegan. E, de fato, o time saiu da mediocridade: ficou ruim mesmo. O Newcastle não ganhou nenhum dos oito primeiros jogos sob o comando do novo técnico. Mas aí, de repente, tudo começou a dar certo, e os Magpies entraram numa série de seis partidas invictos. Vai entender…
Mas, com boa fase e tudo, o time acabou a temporada em 12º lugar – uma posição abaixo da que ocupava quando Allardyce saiu. Pelo menos, a torcida volta a ter um pouco de esperança, dados os bons resultados alcançados por Keegan, na parte final do campeonato. Só que isso não é suficiente para disfarçar o fracasso da temporada dos Magpies. Outra vez.
Nota da temporada: 4
Portsmouth
Destaque: David James
Classificação final: 8º lugar (57 pontos – classificado para a Copa Uefa via FA Cup)
FA Cup: campeão
League Cup: eliminado nas oitavas-de-final pelo Blackburn
Com um pouco de sorte e alguns méritos, o Portsmouth conseguiu o feito mais importante desta temporada, entre os times ‘pequenos’: ganhou a FA Cup, quebrando o monopólio de 12 anos dos quatro ‘grandes’ na competição. É verdade que, para chegar ao título do torneio, Pompey só teve que ganhar de uma equipe da primeira divisão – mas esse time foi o Manchester United.
Mas a relativa facilidade do caminho não tira a importância da conquista do Portsmouth. Afinal, times como Everton, Newcastle ou Aston Villa matariam por um título como esse – só que não tiveram a competência (ou a inteligência de levar a FA Cup a sério neste ano) para fazer o que Pompey fez.
Vale dizer que, no Campeonato Inglês, o desempenho do Portsmouth também foi bom. A equipe manteve-se sempre perto da zona de classificação da Copa Uefa. Acabou em oitavo, uma posição melhor que no ano anterior, mas poderia ter conseguido mais se não estivesse com a cabeça na decisão da FA Cup, nas rodadas finais.
Contabilizando jogo a jogo, a temporada do time seria apenas boa. Mas o feito de ganhar a FA Cup – e, pela primeira vez em sua história, disputar uma competição internacional – deu um gosto especial para o time. Em 2007/8, poucas torcidas na Inglaterra tiveram mais motivos para comemorar que a do Portsmouth.
Nota da temporada: 8