O chefe vem da Itália
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Depois de falhar miseravelmente ao escolher Steve McClaren, a Football Association fez um bom trabalho e contratou Fabio Capello para dirigir a seleção inglesa. Os dirigentes deixaram o populismo de lado e perceberam que não havia a menor condição de contratar um técnico inglês para o cargo. Como não podiam repetir o fiasco das eliminatórias para a Euro-2008, foram atrás de um nome experiente e vencedor.
Certamente, não havia disponível no mercado nenhum nome melhor do que Capello. Quem poderia, talvez, ser uma escolha mais apropriada era José Mourinho, que já conhece bem o futebol inglês, mas o português não aceitou o cargo. Felipão seria uma boa opção, mas seria uma contratação arriscada e, de qualquer maneira, só poderia negociar depois de julho. Martin O’Neill, outro bom nome, ainda não tem no currículo um trabalho num time de ponta que o coloque no mesmo patamar de Capello.
Tudo isso considerado, o italiano foi mesmo uma excelente escolha. Primeiro, porque Capello é um vencedor. Em 15 temporadas como técnico, ganhou sete campeonatos nacionais e uma Liga dos Campeões – e ainda foi duas vezes vice do Italiano, da Liga dos Campeões e da Copa da Itália. Tem enorme conhecimento tático, experiência e tato para lidar com os jogadores – tanto estrelas quanto desconhecidos. Capello foi uma escolha tão boa que até a imprensa inglesa aprovou, o que é quase um milagre, tratando-se de um estrangeiro. As únicas vozes dissonantes foram de (ex-)técnicos ingleses e de alguns colunistas ultrapassados.
Então isso quer dizer que Capello é sucesso garantido? Não. É melhor ir com calma, até porque o excesso de afobação é um erro comum na Inglaterra. O italiano foi a escolha certa, mas não faltam dificuldades para ele superar.
A primeira é o fato de que ele nunca treinou uma seleção. Isso faz grande diferença no trato com os jogadores. Capello sempre fez questão de impor sua autoridade sobre seus comandados, combinando conversa com punições. Numa seleção, no entanto, a parte das punições não é tão eficaz, já que o ganha-pão dos jogadores são os clubes. Outro problema claro é o fato de Capello não falar inglês. O italiano não é bobo e já está correndo para aprender o idioma, pois sabe que, num ambiente como o do futebol, comunicar-se por intérpretes não é o mesmo que conversar pessoalmente com os jogadores.
Mas, talvez, a maior dificuldade que Capello enfrentará na Inglaterra é sua mentalidade tática. O italiano não chega a ser um retranqueiro, mas é adepto do futebol de resultados. Só que o torcedor inglês espera de sua seleção um futebol gostoso de se ver. É claro que, enquanto os resultados forem bons, qualquer reclamação sobre o estilo de jogo será secundária. Mas bastarão uns poucos tropeços para descarregarem a artilharia pesada sobre o treinador. Basta lembrar que essa sempre foi a maior crítica feita a Sven Goran Eriksson – tanto que a campanha inglesa na última Copa é considerada ruim mais pelo modorrento futebol apresentado do que pelo resultado final.
Outro alvo fácil para a imprensa sensacionalista será o gordíssimo salário do técnico. Capello receberá nada menos que € 9 milhões por ano, tornando-o, provavelmente, o treinador mais caro do mundo. Além disso, ele ainda exigiu que fosse montada uma comissão técnica quase toda italiana, que custará mais € 2 milhões ao ano. Não tem nada de errado com tudo isso, mas não deixa de ser munição para críticas mais rasteiras.
Deve-se dizer que, em vista dessas dificuldades, a primeira impressão passada por Capello foi muito boa. O técnico respondeu de maneira inteligente as perguntas mais espinhosas da imprensa. Na difícil questão da reformulação da seleção, Capello mostrou tato: disse que escolherá o time baseado no esforço e no desempenho atual dos jogadores, não na fama e no passado dos atletas, mas também fez questão de frisar que tem certeza de que os ‘medalhões’ mostrarão um bom futebol e justificarão sua permanência na seleção. Ou seja, impôs respeito e, ao mesmo tempo, ficou de bem com os astros. Depois de um ano e meio nas trevas, a seleção inglesa pode voltar a sonhar com um futuro brilhante.
O super domingo
Não faltaram superlativos para classificar a rodada do último domingo na Premier League. No mesmo dia, o Liverpool enfrentaria o Manchester United, e o Arsenal receberia o Chelsea. Infelizmente, como costuma acontecer, os adjetivos positivos foram usados apenas antes dos jogos. Dentro de campo, o que se viu foram duas partidas medianas – mas, ainda assim, muito reveladoras.
A primeira conclusão que se pode tirar dos jogos é que os quatro grandes realmente estão muito equilibrados. Manchester United e Arsenal foram vitoriosos, mas poderiam perfeitamente ter saído derrotados, em dois encontros muito parelhos. O que fez a diferença a favor dos vencedores foi a eficiência no ataque, mais que qualquer outra coisa.
O equilíbrio, no entanto, não impede que Red Devils e Gunners saiam da rodada como favoritos claros ao título inglês. Além da vitória no confronto direto e do aumento da vantagem na tabela (a diferença entre Manchester e Liverpool é de nove pontos, e entre Arsenal e Chelsea é seis), os jogos expuseram algumas importantes diferenças entre vencedores e derrotados.
O Liverpool, por exemplo, só teve três chances razoáveis de marcar – e duas delas graças a falhas de Van der Sar. Dado que o time passou todo o segundo tempo atrás no placar, é preocupante que não tenha conseguido criar praticamente nada. Tudo indica que, mais uma vez, o sucesso da temporada dos Reds vai depender da Liga dos Campeões.
Aliás, desde que Rafa Benítez assumiu o Liverpool, o time perdeu seis das sete partidas que fez contra o Manchester United no Campeonato Inglês (e empatou a outra). Para piorar, não fez nem um golzinho nos últimos seis encontros contra o rival. Foi a primeira derrota dos Reds em casa, na Premier League, desde março, quando perderam para o… Manchester United.
Já o Chelsea perdeu uma invencibilidade que durava 16 partidas. A derrota para o Arsenal trouxe os Blues de volta à terra e mostrou o quão limitado é o time quando enfrenta um adversário de nível. Pior ainda foi ver Terry contundido, sabendo que mais uma vez as opções de substitutos são escassas – assim como acontece no ataque, que se ressente muito da ausência de Drogba. Trata-se de uma situação no mínimo estranha, para um time que tem dinheiro infinito para contratações.
Do lado dos vencedores, o Manchester United mostrou mais uma vez que é um time maduro, que sabe se impor nos momentos decisivos. Sua defesa foi perfeita contra o Liverpool, e os outros setores mostraram-se sólidos – uma constante durante a temporada, independentemente de quem esteja em campo. Já o Arsenal mostrou que, quando a ocasião exige, sabe ganhar jogando feio e não foge do jogo duro.
Se não aparecer nenhuma surpresa nas próximas semanas, tudo indica que Manchester e Arsenal começarão a se distanciar, e a corrida pelo título passará a ter apenas dois times, em vez de quatro.
CURTAS
– A rodada da semana passada tinha sido a melhor da temporada para os times mandantes. Agora, a última foi a pior para os times da casa.
– As equipes locais ganharam apenas três jogos, contra dois empates e cinco vitórias dos visitantes.
– A situação interna do West Ham está estranha.
– Eggert Magnusson, que assumira a presidência do clube na temporada passada, vendeu suas ações e deixou o clube sem maiores explicações.
– O novo presidente é o acionista majoritário Bjorgolfur Gudmundsson, que até agora vinha mantendo o ‘low profile’ (a ponto de muita gente achar que Magnusson era o dono do clube).
– Campeonato Escocês: o Celtic perdeu para o Inverness e corre o risco de perder a liderança para o Rangers.
– Os Bhoys fizeram apenas cinco pontos em seus últimos quatro jogos.
– Agora, a equipe verde e branca tem dois pontos de vantagem para os Gers, mas o time azul disputou duas partidas a menos.
– O melhor entre os pequenos é o Motherwell, que venceu seus últimos cinco jogos e está a quatro pontos do Celtic.
– O novo técnico da Inglaterra já está definido, mas os de Escócia e Irlanda não.
– Em ambos os casos, os dois primeiros favoritos nas casas de apostas seguem sendo os mesmos, mas o terceiro mudou.
– Na Escócia, os principais nomes são: Mark McGhee (Motherwell), Graeme Souness (ex-Newcastle) e Craig Levein (Dundee United).
– Na Irlanda: Terry Venables (ex-assistente da Inglaterra), Liam Brady (ex-jogador da Irlanda) e Roy Hodgson (ex-Blackburn e Internazionale).