Futebol inglês

Mourinho se perdeu nos principais aspectos que o tornaram um gigante

Pior do que a eliminação nas oitavas de final da Champions foi a maneira como ela aconteceu. Ao longo de 180 minutos, o Manchester United ameaçou muito pouco o Sevilla. O momento mais perigoso foi depois do segundo gol espanhol em Old Trafford, quando os jogadores, absorvidos pelo desespero, abandonaram a tática e tentaram abafar de qualquer maneira. E isso diz muito sobre o trabalho de José Mourinho em Old Trafford.

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O treinador português tem seus méritos neste ano e meio à frente do United. Conquistou a Liga Europa na temporada passada, além da Copa da Liga Inglesa. Foi a primeira temporada com dois títulos desde 2008 (tirando a Supercopa da equação), ainda bem antes de Alex Ferguson se aposentar. Atualmente, tem grandes chances de ser o vice-campeão inglês, a melhor colocação da equipe na Premier League desde a aposentadoria do lendário treinador que Mourinho tanto respeitava.

Colocado lado a lado com os anos de transição de David Moyes e Louis van Gaal, terríveis anos, o trabalho de Mourinho é sem dúvida um passo à frente. Mas e em relação ao que foi investido no time? Foram € 340 milhões em duas janelas de transferências, sem contar Ibrahimovic e Alexis Sánchez, donos de salários polpudos. E existe uma distância muito grande entre o talento que Mourinho tem em mãos e o futebol pobre que a sua equipe apresenta.

Esta é a armadilha do pragmatismo. Quando os resultados são bons, há sempre uma justificativa, ou uma explicação, para jogos enfadonhos e sub-rendimentos. Quando os resultados não aparecem, nada mais sobra, além de declarações como a de Mourinho cutucando o clube que lhe paga o salário todos os meses.

E este é mais um sintoma de que o português perdeu a direção. Taticamente, não consegue fazer seu time funcionar. Nas declarações públicas, os famosos jogos mentais, está apenas dando tiros nos próprios pés. Também não se identifica no Manchester United a devoção e o respeito que elencos anteriores nutriam por Mourinho. O que aconteceu?

Tática
Os jogos do United parecem muito mais longos do que realmente são (Foto: Getty Images)

É mentira que José Mourinho sempre foi um treinador retranqueiro. Suas equipes se destacaram por um forte sistema defensivo, mas eram equilibradas. Os números de gols marcados em campeonatos nacionais, os palcos das médias e da regularidade, são um bom indicativo. O Porto foi campeão português com ele duas vezes. Marcou 73 e 63 gols, respectivamente o segundo e o primeiro melhores ataques de todo o torneio. Mesma coisa no Chelsea: campeão com 72 tentos nas duas primeiras edições da Premier League que ele conquistou. Também representa o segundo e o primeiro melhores ataques da competição.

Na Internazionale, quando esta fama de retranqueiro começou a ganhar força por aquela atuação defensiva brilhante contra o Barcelona no Camp Nou, Mourinho foi campeão italiano duas vezes, sempre com o melhor ataque (70 e 75 gols marcados). Em todos esses torneios, com exceção de um pelo Porto, seus times colocaram entre 70 e 75 bolas nas redes por liga nacional, o que é uma média razoável de dois gols por partida.

Na Espanha, os números decolaram. O Real Madrid marcou mais de 100 vezes em todas as edições do Campeonato Espanhol em que foi comandado por Mourinho, com direito a 121 na temporada do título nacional. Mas também foi ali que a maré começou a virar. Tentando encontrar uma maneira de frear o Barcelona de Guardiola e Lionel Messi, o português começou a adotar estratégias ultra-defensivas nos grandes jogos. Lembram-se de Pepe como volante tentando marcar o craque argentino?

Mourinho, em seguida, retornou à Inglaterra e tomou cada vez mais gosto pelo ônibus estacionado. Travou uma visita ao Emirates contra o Arsenal e ouviu da própria torcida do Chelsea que o time “era chato”. Arrancou um enfadonho 0 a 0 no Vicente Calderón contra o Atlético de Madrid, na semifinal da Champions League, e foi eliminado perdendo em Stamford Bridge. Ainda tinha a desculpa de estar no primeiro ano de trabalho, com um elenco que precisava de renovação. Marcou 71 gols na Premier League daquela temporada, em que ficou em terceiro lugar. Dentro da sua média, mas longe dos melhores ataques de Manchester City e Liverpool, acima dos 100 tentos. Foi campeão na edição seguinte, com 73 gols marcados e o segundo melhor sistema ofensivo.

A tendência, porém, se acentuou no Manchester United. Mourinho trava, ou tenta travar, praticamente todas as visitas para enfrentar os grandes rivais, como Liverpool, Manchester City, Tottenham, Arsenal e Chelsea. Sexto colocado na temporada passada, os Red Devils marcaram apenas 54 gols em 38 rodadas. Atualmente vice-líder, o United já superou essa marca e soma 58 tentos. Se mantiver a média, chega às 70 e poucas bolas na rede ao fim do torneio. Mas isso auxiliado por um começo de campeonato fora da curva, com quatro goleadas por 4 a 0 nas primeiras sete rodadas. Desde dezembro, marcou mais de duas vezes pela liga inglesa em apenas três partidas.

Em seus duelos contra Guardiola, desenvolveu-se dois estilos de jogos dominantes: o que controla a bola e o que controla os espaços. Mas o Manchester United não faz, na prática, nenhum dos dois. Ele não ataca os espaços, como os times de Jürgen Klopp, por exemplo. Ele fecha os espaços, trava o jogo e busca vencer os duelos individuais na velocidade e na força física. O resultado, além dos números, é um futebol muito pobre.

Administração de elenco
Mourinho e Materazzi comemoram (Foto: Getty Images)

A cena mais bonita da passagem de Mourinho pela Internazionale foi o abraço emotivo de Marco Materazzi ao português, no Santiago Bernabéu, horas depois da conquista do título europeu. São vários relatos de ex-jogadores do português que destacam o quanto ele é competente na administração do elenco. Protege os jogadores e aperta os botões certos, com elogios ou críticas, nas horas certas. Mourinho cultivou uma aura de campeão que os jogadores respeitavam. Acreditavam que, se seguissem à risca o que ele pedia, terminariam a temporada levantando troféus, e foi exatamente assim durante muitos anos.

Materazzi, em 2016, deu uma entrevista revelando os segredos de Mourinho. Eram cinco. Apenas um deles tem mais envolvimento com o chamado “campo e bola”, que é a análise detalhada do adversário. Os outros são menos tangíveis: a condução do elenco, esperteza, experiência e empatia.

“Poderia dar milhares de exemplos, mas um do ano da Tríplice Coroa se destaca: perdemos por 3 a 1 contra o Catania e, no dia seguinte, ele nos massacrou, do mais forte ao mais fraco. Olhamos nos olhos de cada um, engolimos e, quatro dias depois, fomos para Londres e vencemos o Chelsea. Mourinho consegue ler seus sentimentos, mesmo os escondidos e entrar na sua mente”, disse.

“Esperteza”, continuou. “Ele pressiona os botões certos, não apenas dos seus jogadores. Eu nunca vi alguém tão científico em provocar os adversários, tão bom em deixá-los nervosos. Mas ele vai além disso. Algumas vezes ele se alimenta da controvérsia, mas sempre tenta manter o time longe disso. Ele é o escudo perfeito”.

“Experiência: Mourinho sabe como vencer porque fez isso muitas vezes e, por sua vez, foi por isso que começou a vencer tão cedo”, explicou. “E empatia. Essa é a primeira coisa que ele busca em seu time, a condição que é absolutamente necessária para criar um grupo forte, unido, sem rachas. É isso que o leva a lutar contra tudo e contra todos”.

O problema é que os truques psicológicos que funcionaram tão bem com Mourinho estão fora de moda. O perfil do jogador de futebol mudou muito em pouco tempo. Os jogadores não se impressionam mais com grandes discursos ou broncas homéricas. Exigem mais refinamento tático do que estratégias de motivação. Para usar um exemplo mais simpático do que Mourinho (ou Vanderlei Luxemburgo, outro grande ex-treinador que sofre com essas mudanças), Carlo Ancelotti não conseguiu se dar bem no Bayern de Munique por causa disso, apesar de ser um notório gestor de jogadores.

Não significa que o elenco do Manchester United quer derrubar Mourinho, ou que não tenta fazer o que ele pede dentro de campo. Mas a resposta individual e coletiva não é mais como costumava ser. Broncas públicas, como as que ele deu em Luke Shaw e Anthony Martial, não surtiram efeito. Não se vê, no geral, um time preparado para morrer pelo português, não se vê um grupo “forte, unido e sem rachas” no nível de elencos anteriores do português. Acredito que existe comprometimento e vontade de vencer, mas também é possível identificar certa indiferença no ar, inclusive em jogos importantes.

Manipulação da imprensa
Os jogos mentais de Mourinho não surtem mais o mesmo efeito (Foto: Getty Images)

Como disse Materazzi, Mourinho adorava se alimentar da controvérsia. Criava polêmicas calculadas e bem pensadas, sempre no controle dos discursos que dava à imprensa, de maneira a motivar seus jogadores e desestabilizar o adversário. Basta perguntar a Arsène Wenger o quanto isso funcionava. Mas ultimamente o tiro anda saindo pela culatra.

Nesses dois anos de Manchester United, Mourinho já criticou seus próprios jogadores, como citamos acima, especificamente e em geral, depois de partidas ruins. Bateu várias vezes na própria torcida, que, na opinião dele, não consegue criar uma atmosfera digna em Old Trafford. Tem trocado farpas constantes com Gary Neville, e não se pode ignorar que, por mais que o ex-lateral esteja sujeito a discordâncias na sua nova profissão, acima de comentarista de futebol ele é um dos grandes ídolos do clube inglês.

Mesmo as rixas com treinadores adversários andam parecendo mais picuinha do que manipulação. Mourinho cruzou limites na discussão pública com Antonio Conte e deu uma patada um pouco exagerada em Frank De Boer, chamando-o de “pior técnico da história da Premier League” – o que não deixa de ser um pouco verdade, depois de quatro jogos, quatro derrotas e nenhum gol no seu curto período pelo Crystal Palace. Mas o que ele tem a ganhar com isso?

Ao contrário da sua primeira passagem pelo Chelsea, quando conseguia entrar na cabeça de técnicos importantes como Rafa Benítez e Wenger, isso não funciona mais tão bem. As declarações de que o Manchester United ainda precisa gastar mais para alcançar o Manchester City, por exemplo, encontraram apenas indiferença em Guardiola e não influenciaram nada a campanha do líder. A cobrança pública à hipocrisia de Jürgen Klopp, que criticou o United pelo preço pago por Pogba e, um ano depois, contratou um zagueiro por preço parecido, também não ressoou em Anfield.

O resultado disso é a absurda declaração depois da eliminação para o Sevilla. O que ele espera ganhar dizendo que “não é novidade para o Manchester United ser eliminado em casa”, além de antipatia? Mourinho já foi um carrancudo carismático, responsável por grandes e interessantes entrevistas, mas ultimamente soa apenas como um mal-humorado, tão chato quanto os jogos do seu time.

Por quê?
Mourinho com seu mentor Alex Ferguson (Foto: Getty Images)

Buscar os motivos pela decadência de Mourinho é entrar um pouco no campo da especulação. Mas uma coisa é verdade: poucos técnicos conseguem se manter no primeiro nível do futebol mundial durante mais de uma década, e o português está na estrada desde que saiu da comissão técnica de Louis Van Gaal, em 2000, para treinar o Benfica. Seu primeiro título europeu foi em 2004, quase quinze anos atrás.

A longevidade para o treinador de futebol é rara porque o futebol está em constante mutação. E uma das coisas mais difíceis que existem é um profissional da qualidade de Mourinho aceitar que precisa mudar boa parte dos métodos que o tornaram um gigante da profissão. Ainda mais se tratando de um homem orgulhoso e confiante (ok, arrogante) como ele. A reciclagem é, antes de tudo, um exercício de humildade.

Além disso, é uma profissão exaustiva. Preparar 60 jogos e centenas de sessões de treinamento por temporada, lidar com a imprensa, com diretores, com empresários, com grupos de 30 jogadores de personalidades diferentes, com a pressão da torcida, tudo isso cobra um preço. Não quer dizer que ele esteja trabalhando nas coxas, ou sem comprometimento, mas a motivação é diferente. Acredito que ele esteja dando o melhor que pode no comando do Manchester United. Mas esse melhor não é mais o mesmo de dez anos atrás.

Quando foi o clique? Difícil precisar. Parece ter sido no Real Madrid. Talvez o surgimento de Guardiola, que reivindicou a coroa de melhor técnico do mundo que estava na cabeça de Mourinho, o tenha deixado um pouco perdido. Naquela época, começaram a surgir problemas mais fortes de relacionamento com jogadores e diretores. Diego Torres, jornalista do El País, escreveu um livro sobre aquele período e contou que o português chorou quando descobriu que o sucessor de Ferguson seria David Moyes, o que potencialmente pode ter sido outro abalo.

“A notícia de que Sir Alex Ferguson havia nomeado a David Moyes como seu sucessor no cargo de técnico do Manchester United provocou um terremoto. “Mourinho, alentado por seu abnegado agente, acreditou que Ferguson era, mais que um aliado, seu amigo e padrinho. Convenceu-se que eram unidos por uma relação de genuína confiança. Pensou que sua fabulosa coleção de títulos, suas duas Ligas dos Campeões, suas sete ligas nacionais e suas quatro copas em quatro países distintos, constituíam um aval inacessível a todos os demais pretendentes. Quando soube que Ferguson havia eleito Moyes, o técnico do Everton, o assaltou uma espantosa incredulidade. Moyes não havia ganhado absolutamente nada!”, escreveu Torres, em seu livro.

Mourinho também perdeu o pai, no meio do ano passado, um dos homens mais influentes na sua carreira no futebol. Pode ser que a resposta seja tudo isso, nada disso, apenas um ou dois desses aspectos, ou outros que não sabemos. O objetivo deste texto não é dar uma resposta para ele, mas refletir sobre o que está acontecendo com o português. Porque o que sabemos é que José Mourinho não está conseguindo ser um treinador de excelência como foi durante a década passada, o que é uma pena. Em forma, era um personagem maravilhoso, capaz de montar grandes equipes, com estilos diferentes dos predominantes, o que faz bem para o futebol. Nada é definitivo e, ainda com 55 anos, ele tem tempo para dar a volta por cima. Mas conseguirá?

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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