Futebol inglês

‘Você não pode tirar as memórias’: Ídolo do City responde sobre impacto de escândalo financeiro

Paul Dickov cita o gol de Agüero, a virada contra o Aston Villa e a Champions de 2023 para defender que as memórias dos torcedores não podem ser reescritas

O Manchester City ainda tenta reverter, em recurso, a decisão que o considerou culpado por violações das regras financeiras da Premier League. Enquanto as possíveis consequências esportivas seguem indefinidas, outra discussão ganhou força: o que acontece com a memória das grandes conquistas do clube caso o veredito seja mantido?

Para Paul Dickov, ex-atacante e personagem histórico do City, existe uma parte dessa história que nenhuma eventual punição seria capaz de modificar. Troféus e legados podem entrar em debate, mas a emoção vivida pelos torcedores permanece.

Títulos ‘cancelados’? Até onde legado de Guardiola é anulado com veredito do caso City

Títulos ‘cancelados’? Até onde legado de Guardiola é anulado com veredito do caso City

Leia →

‘Você não pode tirar as memórias’, diz Dickov

Dickov, lembrado especialmente pelo gol decisivo na final dos playoffs da terceira divisão inglesa em 1999, foi questionado pelo “Sports Mole” sobre o peso que o processo poderia ter sobre a era mais vitoriosa da história do Manchester City. Sua resposta começou de forma direta.

“Você não pode tirar as memórias.”

O ex-atacante usou a final da Champions League de 2023, em Istambul, como exemplo. Ele estava no estádio com os dois filhos quando o City derrotou a Inter e conquistou pela primeira vez a principal competição europeia.

“Eu estava em Istambul com meus filhos. Quando eles nasceram, eu jogava no City, então cresceram como torcedores do Manchester City. A emoção daquele dia… Foi um dos melhores fins de semana da minha vida, estar com meus dois filhos e ver o City ganhar a Champions League.”

A conquista fez parte dos 20 troféus obtidos durante os dez anos de Pep Guardiola no comando. O próprio tamanho do legado construído pelo espanhol passou a ser reavaliado depois do veredito contra o City, ainda que isso não signifique automaticamente que todas as conquistas estejam sob a mesma situação.

Sergio Agüero, atacante do Manchester City, marca o gol do título nos acréscimos contra o Queens Park Rangers, no Etihad Stadium, em Manchester, em 13 de maio de 2012.
Sergio Agüero marca o gol do 3 a 2 sobre o QPR nos acréscimos, garantindo o primeiro título inglês do City em 44 anos. (Foto: IMAGO / Sportimage)

Agüero e Aston Villa viraram memórias de uma geração

Dickov também lembrou dois dos momentos mais emblemáticos da história recente da Premier League. O primeiro foi o gol de Sergio Agüero contra o Queens Park Rangers em 2012, nos acréscimos da última rodada, que deu ao Manchester City seu primeiro título da era Premier League.

O segundo aconteceu dez anos depois. Na rodada final de 2021/22, o City perdia por 2 a 0 para o Aston Villa antes de marcar três vezes e garantir outra conquista inglesa.

As Premier Leagues vencidas pelo City durante o período analisado passaram a alimentar discussões sobre possíveis consequências históricas do processo. Para Dickov, porém, existe uma dimensão desses títulos que nenhuma decisão posterior consegue reproduzir ou desfazer.

“A emoção pura daquele dia e ver o que aquilo fez com torcedores, famílias, homens adultos, avós e crianças… Independentemente do que acontecer, isso nunca, jamais será tirado.”

O discurso segue uma linha semelhante à adotada recentemente por outras figuras ligadas ao clube. Enzo Maresca afirmou que os títulos do City não foram manchados pelo veredito, enquanto Kyle Walker também declarou que a decisão não poderia apagar as lembranças acumuladas por jogadores e torcedores.

Paul Dickov, ídolo do City
Paul Dickov, ídolo do City. Foto: IMAGO / Pro Sports Images

Dickov também disse confiar na posição dos dirigentes enquanto o recurso estiver em andamento. Segundo ele, o clube acredita possuir argumentos sólidos para contestar a decisão.

Mas o ponto central de sua declaração está fora dos tribunais. Uma punição pode mudar registros, provocar debates sobre títulos ou alterar a maneira como uma era é contextualizada. Não pode recriar nem apagar aquilo que um torcedor sentiu no instante em que Agüero marcou contra o QPR, na virada sobre o Aston Villa ou na noite de Istambul.

Para Dickov, essa parte da história do Manchester City já não pertence a uma tabela ou a uma sala de julgamento. Pertence a quem estava lá para vivê-la.

Foto de Beneddra Naim

Beneddra NaimColaborador

Descobri o futebol de verdade nos anos 90, embalado pelas façanhas de Romário e Bebeto na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Desde então, o futebol nunca mais saiu do meu cotidiano. Com o tempo, consegui unir essa paixão a outra que sempre me acompanhou: a escrita. Transformar essas duas paixões em profissão é, sem dúvida, uma das maiores conquistas da minha vida.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo