Inglaterra

Mão na massa

No início da década passada, o futebol passava por uma onda de revisionismo. O péssimo jogo apresentado na Copa de 1990 fez muita gente pensar em mudanças nas regras, adaptações que tornassem as partidas mais abertas e atraentes para o público. A proibição de os goleiros defenderem com as mãos as bolas recuadas por seus colegas saiu daí. Outra proposta era permitir a cobrança de lateral com os pés. Pelas palavras de João Havelange, presidente da Fifa à época, não passou “porque se desvirtuaria o jogo”. Claro, cobranças de lateral virariam chutões para a área.

Quase duas décadas depois, isso se tornou realidade, mesmo sem nenhuma mudança na regra do lateral. A diferença está em um razoavelmente obscuro jogador do Stoke City: Rory Delap. O meia irlandês desenvolveu uma técnica em que consegue atirar seus arremessos laterais até o meio da área adversária.

O meia pega impulso perto da placa de publicidade, corre e posiciona sua perna de modo que, na hora do arremesso, tenha sustentação para jogar a bola para bem longe sem precisar de um braço particularmente forte. A potência das cobranças é tamanha que mesmo jogadas a partir da intermediária podem se transformar em perigo iminente. Além disso, a bola voa de um modo pouco comum em cruzamentos com o pé. A trajetória é reta, sem fazer uma parábola no ar. Tony Pulis, técnico dos Potters, acredita que isso dificulta os defensores a imaginar onde a bola vai parar e fica difícil se antecipar aos atacantes.

O primeiro time a sentir isso foi o Everton. Os Toffees conseguiram vencer os Potters por 3 a 2, mas os dois gols do time alvirrubro saíram das mãos de Delap. No primeiro, um cruzamento na área que Olofinjana completou. No segundo, uma bola que foi direto para o gol, com um desvio do zagueiro azul Jagielka tirando o goleiro Howard da jogada e evitando o que seria um gol de lateral.

Neste sábado, a participação de Delap foi ainda mais importante. De seus arremessos saíram os dois gols do Stoke na vitória por 2 a 1 sobre o Arsenal, resultado que deixou os Potters temporariamente longe da zona de rebaixamento e colocou os londrinos em situação complicada no campeonato.

Depois da partida, Arsène Wenger deu a entender que não sabia como parar os laterais do irlandês. De acordo com o técnico, o Arsenal treinou muito as principais jogadas do Stoke, mas lidar com bolas aéreas como essas está longe de ser a maior virtude do elenco. Felipão já havia dado crédito parecido ao meia arremessador. Para o brasileiro, um dos fatores que facilitaram a vitória de seu Chelsea sobre os Potter foi o fato de Delap estar suspenso naquela partida.

Os números dão crédito a essas opiniões. Dos 13 gols marcados pelo Stoke City no atual Campeonato Inglês, oito vieram de cobranças de lateral, sendo quatro em bate-rebates na área e outros quatro em finalização diretamente após o arremesso. Assim, Delap é o quatro maior assistente da temporada, atrás apenas de Adebayor, Berbatov e Malouda. Além disso, o irlandês marcou um gol. Ou seja, participou de nove dos 13 gols do Stoke.

Ao mesmo tempo que tal estatística evidencia a importância de Delap, ela também expõe o resto do time do Stoke. O futebol apresentado pelos Potters na Premier League é bastante pobre, sem imaginação ou recursos técnicos. Não há nada errado em fazer gols de arremessos laterais, mas depender demais deles é perigoso. Até porque a jogada pode ficar manjada ou o braço de Delap sentir o esforço como se fosse um quarterback no futebol americano ou um pitcher no beisebol. Aí, o Stoke precisará jogar futebol.

Fora da briga

Ainda falta muito tempo para terminar a temporada, mas já há elementos para fazer um palpite: o Arsenal não brigará pelo título. O colunista pode até errar (o que seria legal, porque os Gunners merecem ir longe pela filosofia de jogo e política no mercado de transferências), mas os londrinos dão pinta de que se preocuparão mais em lutar com o Aston Villa (e talvez Portsmouth e Everton) por um lugar na próxima Liga dos Campeões.

Parte do diagnóstico não é inovadora: o time é muito jovem e ainda se ressente da falta de experiência. Isso fica evidente quando os Gunners precisam se impor em jogos que se mostram um pouco mais complicados pelo estilo de jogo ou de marcação do oponente. Sem conseguir imprimir seu futebol rápido, o time de Arsène Wenger se perde na falta de opções.

O Arsenal não é consistente, tampouco autoconfiante. Além disso, o modo como desperdiça pontos contra times pequenos chama a atenção. A derrota para o Stoke City confirmou esse problema, que já fora evidenciado nos tropeços diante de Fulham, Hull City e Sunderland.

É verdade que, na temporada passada, boa parte do time era um ano menos experiente e, mesmo assim, lutou pelo título até a antepenúltima rodada. Também é fato que a diretoria não investe tanto em reforços devido a uma predileção de Wenger por trabalhar com jovens de talento e pelas limitações financeiras de um clube que está pagando a construção do estádio Emirates. No entanto, houve pequenas mudanças do time da temporada passada para o atual.

Na armação, Rosicky permaneceu, mas suas constantes contusões sempre tornaram necessária a presença de um outro jogador de criação. Hleb – hoje no Barcelona – era uma opção aceitável, pois não era um gênio, mas sabia lidar com a intensidade da Premier League. Nasri é mais talentoso que o bielorrusso, mas não cosnegue esconder sua inexperiência e dificuldade de adaptação ao futebol inglês.

Um pouco atrás, Flamini havia feito uma temporada fabulosa em Ashburton Grove. No entanto, o francês trocou o Arsenal pelo Milan e não foi substituído à altura. Denílson ganhou mais oportunidades e mostra um bom futebol, mas o brasileiro ainda não tem a mesma capacidade de aliar marcação e apoio ao ataque.

Desse modo, o meio-campo do Arsenal perdeu consistência e deixou Fàbregas sobrecarregado. No geral, o time é muito leve e só consegue se soltar quando o adversário não encaixa a marcação e dá espaço para as jogadas rápidas dos londrinos. Caso contrário, os Gunners se vêm obrigados a trombar com oponentes mais duros e travados. Aí, a equipe de Wenger nem sempre sabe o que fazer.

Como é difícil imaginar que o técnico mudará sua filosofia de trabalho, é mais fácil imaginar que o Arsenal pode procurar algum reforço na reabertura do mercado. Algum jogador que faça o trabalho sujo no meio-campo e deixe o time um pouco mais forte fisicamente. Até lá, o time sofrerá com altos e baixos. O que deve deixá-lo longe demais de Manchester United, Chelsea e Liverpool.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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