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King Kenny, Villas-Boas e a alma do futebol

Kenny Dalglish e André Villas-Boas são treinadores diametralmente diferentes. O escocês tem 60 anos, é ex-jogador – e que jogador – e seu último trabalho como treinador antes dos Reds tinha sido o Celtic em 2000. O português, por seu lado, tem 34 anos, nunca chutou uma bola na vida e, antes de chegar ao Chelsea, em transferênciaque custou € 15 mi, não tinha duas temporadas completas como técnico principal de nenhuma equipe.

Ainda assim, as expectativas para Villas-Boas eram muito maiores do que as para Dalglish. Mesmo sem ter contratado quase ninguém, poucos duvidaram antes do início da temporada que os Blues fossem donos naturais do 3o lugar na liga. Ao Liverpool restaria uma briga pela quarta vaga da LC, mesmo com contratações mais expressivas. E quando começou a temporada, foi mais ou menos assim, mesmo.

O Liverpool começou a temporada empatando em casa com o Sunderland, venceu as duas seguintes mas depois perdeu duas. Está há sete jogos sem perder, mas nessa conta há três empates em casa, dois deles contra Norwich e Swansea. O Chelsea também empatou na estréias, mas depois venceu seis das sete seguintes. O problema é que o time perdeu três dos quatro últimos jogos, sendo dois em casa para rivais diretos – a primeira vez na era Abramovich que os Blues perdem duas seguidas em casa.

Se fosse Claudio Ranieri ou Felipe Scolari, André Villas-Boas já teria sido demitido. Ou talvez tivesse mais um ou dois jogos, quem sabe o mesmo que o português terá. A pressão é grande em Stamford Bridge, e deve crescer imensamente com a derrota para o Liverpool, e pela forma como ela  ocorreu. Neste momento, Blues e Reds – e Arsenal e Spurs, que têm dois jogos a menos – têm os mesmos 22 pontos. Mas King Kenny não sofre a mesma pressão que Villas-Boas.

São em tudo diferentes, assim como os donos de seus clubes são. Os do Liverpool, aliás, por perfil, têm muito mais a ver com o do português, ligado em estatísticas e esquemas. King Kenny não tem nada disso, nem prancheta carrega, mas seu time vibra. Ele vibra. E sabe o que acontece dentro de campo. Sabe como pensa um jogador de futebol. E isso, a realidade está mostrando, faz toda a diferença.

Como técnico no Liverpool na década de 80, o escocês conquistou três títulos ingleses. Quando se mudou pra Blackburn, na esteira da tragédia de Hillsborough, pegou os Rovers na Segundona e levou-os ao título da Primeira em três anos. Um histórico como o de poucos. Tudo, porém, no século XX. Século em que Villas-Boas ainda fazia cursos e tabelas de Excel, provavelmente.

Não é que Dalglish não tenha enfrentado problemas ou críticas, nem que seu trabalho não pudesse ser melhor. O Liverpool, porém, é um time depois de sua chegada. Os jogadores correm por si, por ele, pela torcida. Entendem o que significa vestir a camisa vermelha. Os do Chelsea, ao contrário, há muito não têm qualquer relação com isso, e Villas-Boas não parece ser o cara que vai mudar isso.

Futebol, apesar do que pensa a nova geração de jornalistas e torcedores, tem apenas uma leve relação com a lógica e os números. Se não fosse assim, PC Gusmão ganharia tudo, e Muricy Ramalho, nada. Alex Ferguson até hoje estaria na Escócia e moleques com notebooks como André Villas-Boas treinariam todos os times do mundo. Mas o futebol tem uma “alma” que os números não explicam, que Kenny Dalglish entende como poucos, e com a qual André Villas-Boas, pelo jeito, não está familiarizado.

Sim, o elenco do Chelsea é velho, cheio e cobra criada, mas teve boas adições, principalmente Mata. Além disso, se Alex joga bem e David Luiz joga mal, por que o primeiro não é nem banco, e o segundo é titular – hem, Mano?

Não interessa o que digam os programas de computador, Kenny Dalglish é um senhor técnico. E André Villas Boas ainda é um estagiário. A temporada do Chelsea depende de entender isso o quanto antes.

CURTAS

Como era de se esperar, o Newcastle finalmente perdeu. E para o agora único invicto, o líder Manchester City.
O destaque da vitória dos Ciizens foi Balotelli, que assume protagonismo cada vez maior na equipe. A questão é: durará?
E o Arsenal continua ganhando: 2 a 1 no Norwich em Norwich, quinta vitória seguida, sexta em sete jogos. E o mesmo número de pontos que o 4o colocado Chelsea.
Quem perdeu e se deu mal foram os Wolves, que depois de começar a temporada com duas vitórias e um empate, perdeu sete das últimas nove, e tem agora só dois pontos a mais que o Bolton, último que cairia hoje.
Verdade que Fulham e Sunderland, que empataram no final de semana, teIem os mesmos 11 pontos que os Wolves.
Enquanto isso, o QPR bateu o Stoke fora de casa e é o nono colocado, com o mesmo número de pontos do oitavo Aston Villa.
O Stoke, aliás, está a merecer uma coluna só para si: o Britannia, antiga fortaleza inexpugnável, está virando sala das mais acolhedoras aos visitantes.
Fala agora o torcedor: se vencer as duas partidas que tem a menos, a segunda delas nesta segunda, o Tottenham terá apenas um ponto a menos que o United. Não seria maluquice pensar em vice-campeonato neste ano, embora ele ainda seja altamente improvável.
No Championship, o Southampton ganhou mais uma, e manteve a vantagem de cinco pontos para o West Ham, que também venceu na rodada.
Com o empate do Middlesbrough, os líderes têm oito pontos de vantagem para a zona dos playoffs.
O Leeds ganhou mais uma e é o quinto, enquanto o Nottingham Forest venceu o Ipswich e abriu quatro pontos para a zona de rebaixamento.
Na League One, o Charlton voltou a vencer, e ainda lidera com cinco pontos de vantagem, mas a notícia do final de semana foi a vitória do Huddersfield.
A tradicional equipe, tricampeã inglesa na década de 1920, chegou a 42 jogos sem derrota, quebrando o recorde da Football League que pertencia ao Nottingham Forest desde 1979.
 

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Equipe Trivela

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