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J. César tenta repetir Taffarel de 94 e superar desprestígio

O dilema de Luiz Felipe Scolari é atual, mas parece o mesmo vivido por Carlos Alberto Parreira há vinte anos. A seleção brasileira conta com um titular absoluto no gol, que vive um momento de contestação em sua carreira. Em 1993, Taffarel perdia espaço no Parma e era repassado à modesta Reggiana, que acabara de subir à elite do Campeonato Italiano. Em 2013, Júlio César enfrenta a mesma interrogação, rebaixado com o Queens Park Rangers no Campeonato Inglês.

A janela de transferência se sugeria como um momento de ascensão para Júlio César. O brasileiro foi o melhor goleiro da Copa das Confederações, com atuações impecáveis na semifinal e na decisão. Especulado por Arsenal, Napoli e Fiorentina, acabou permanecendo em Loftus Road. Disputará a Championship com o QPR, longe dos holofotes restando um ano para a Copa do Mundo. Um ostracismo que, ainda assim, não abala sua confiança.

“Eu não cogitei em momento algum a possibilidade de deixar o QPR. Logicamente, se nada chegou, como aconteceu, era o momento de sentar e de conversar com o presidente do clube. Mas, na minha cabeça, as coisas voltarão ao normal. Eu não penso diferente só porque estou na Championship. É um campeonato forte na Inglaterra, com clubes competitivos. Nós disputamos 46 partidas, oito a mais que na Premier League”, analisou o goleiro, durante coletiva de imprensa pela seleção brasileira.

Júlio César tem as condições necessárias para desfrutar de tanta certeza. O goleiro é um dos líderes do elenco, retomando um protagonismo que já tinha na época de Dunga. Apesar da queda, viveu uma boa temporada na Inglaterra, em que o alto nível se refletiu na Copa das Confederações. Manterá a forma física, mesmo longe da elite. Conta com a lealdade de Felipão, um dos traços mais marcantes do técnico nas equipes que dirige. E possui o exemplo do goleiro do tetra.

Taffarel desfrutava de moral no Parma, mas acabou pagando caro pelo regulamento vigente no futebol italiano. Na época, apenas três estrangeiros poderiam ser inscritos por partida em cada equipe. E, em 1992/93, Faustino Asprilla se juntou a Taffarel, Tomas Brolin e Georges Grün no elenco gialloblù. No fim das contas, quem acabou de lado foi o goleiro. Depois de amargar boa parte da temporada fora até mesmo do banco de reservas, o brasileiro foi dispensado.

Sem clube, Taffarel chegou a disputar um campeonato na Reggio Emilia para manter a forma. Campeão, o camisa 1 chamou a atenção da Reggiana e permaneceu por um ano na equipe. Não se destacou tanto, mas fez o suficiente para manter o time na Serie A – na rodada final, foi fundamental na vitória por 1 a 0 sobre o Milan, dono do Scudetto naquele ano.

1994 World Cup Final

A ameaça a Taffarel em 1993/94 era superior à que sofre Júlio César em 2013/14. Que se pese o fato de ambos não estarem em evidência, o gaúcho vivia um momento bem mais questionável. Além de ter cometido frangos notáveis nas Eliminatórias, tinha a forte concorrência de Zetti, que vivia excelente momento com o São Paulo. Júlio César não errou em suas últimas exibições na Seleção, enquanto Jefferson, Diego Cavalieri, Diego Alves ou qualquer outro goleiro selecionável na atualidade não tem tanta aclamação popular.

Tudo indica que Felipão fará em 2014 o mesmo que Parreira decidiu em 1994: manter o goleiro titular da seleção. E, bem mais criticado na questão do que o atual treinador, Parreira provou-se certo. Taffarel foi um dos líderes da defesa menos vazada entre os campeões do mundo até então e defendeu um pênalti na decisão, se consagrando como herói do tetra. Uma sorte que Júlio César espera ter igual.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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