Gareth Bale, he plays on the left

Tudo começou em um enevoado dia londrino – tenho certeza disso porque todos os dias londrinos são enevoados. Tudo ia bem em White Hart Lane, ninguém mais contestava o absoluto fato de que o Tottenham seria o terceiro colocado na Premier League neste ano, se classificaria para a fase de grupos da Champions League e, mais importante, ficaria à frente do Arsenal na tabela pela primeira vez desde… muito tempo (desculpe, eu ia olhar no Google, não é nada que você não possa fazer também). Então um italiano picareta pediu demissão. E algum gênio em um terno de cashmere resolveu que o cara certo para ficar em seu lugar chamava-se Harry Redknapp. Ele mesmo, o cara que quebrou alguns times, rebaixou outros tantos e, em 60 anos de carreira, ganhou um título. E o tal Harry acreditou nisso. E foi aí que tudo degringolou.
Poderíamos ter definido o momento da virada em outra cena, também londrina. Em que Robin van Persie marca o segundo gol do Arsenal na virada de 5 a 2 sobre o arquirrival no Emirates. O problema é que a própria virada – assim como provavelmente os 2 a 0 que o Tottenham abriu – é sintoma do fenômeno anteriormente descrito. Harry acreditou que era bom. Que o time jogava bem porque ele fazia isso acontecer. Que ele, que só não mandou Gareth Bale embora porque ninguém quis e que não foi responsável por contratar nenhum dos melhores jogadores da equipe, é que tinha descoberto o galês. E Modric. E que ele, portanto, podia escalar um time sem volantes para pegar o Arsenal no Emirates, e que, ao dar tudo errado, podia simplesmente mudar tudo para ver se funcionava. Ah, claro: Harry Redknapp acreditou, sobretudo, que era tão bom que poderia ganhar jogos colocando Gareth Bale para jogar no meio. Ou na direita.
No final de semana passado, o Tottenham perdeu o terceiro jogo seguido. No final da derrota contra o Everton, a torcida tentou explicar a Redknapp: “Gareth Bale, he plays on the left”, cantaram. Mas Harry sabe mais. Ou pensa que sabe. Não sei se Harry sabe, mas, enquanto seu time perdia três jogos, o rival ganhou seus três. Não só o Arsenal, que tinha 10 pontos de desvantagem, agora tem só um ponto a menos que os Spurs, o Chelsea está a quatro. E, desde que o vestiário dispensou Villas-Boas, voltou a jogar bem. E um cenário em que o time de Redknapp fique fora do Top 4 já não parece impensável.
A sorte do Tottenham é que seu calendário é mais fácil que o do Arsenal, e bastante mais fácil que o do Chelsea. Nas dez rodadas que faltam, os Spurs têm apenas um jogo contra um dos sete primeiros, o próprio Chelsea, daqui a duas rodadas em Stamford Bridge. Além disso, dos outros adversários só Swansea e Sunderland estão entre os dez primeiros. O Arsenal, por sua vez, Joga com Chelsea e Manchester City, enquanto os Blues, além dos dois rivais pela vaga, pegam ainda Newcastle, Man City e Liverpool.
Não importam os eventuais atenuantes: se ficar atrás do Arsenal nesta temporada, o Tottenham terá fracassado. E se ficar fora da Liga dos Campeões será um desastre épico. Que Redknapp aproveite a vida fácil. E que depois aceite rapidinho o convite da FA.
Temos um líder?
A pergunta acima me foi feita pelo Felipe Lobo na segunda passada, depois que o United passou o City na tabela. Depois daquilo, o City não jogou, enquanto os Red Devils ganharam fácil dos Wolves com um a menos. Façamos a mesma análise feita acima nos calendários: nas próximas seis rodadas, o United não pega nenhum time da parte de cima da tabela. Nas útlimas três, além do City fora de casa, pega Swansea e Sunderland. Ou seja: dos “grandes”, só o rival. O City, por outro lado, como observado acima, além do United joga com Arsenal e Chelsea, e ainda pega o Newcastle fora – jogo que dá para ganhar, mas que está longe de ser fácil.
Outro problema para o City, além da tabela mais difícil, é que a equipe não está rendendo fora de casa como rende em casa. O “antídoto” pode ser a volta de Tevez, mas não ajuda o fato de que, assim como o City, o United não disputa mais nenhuma competição européia. O mistério era esse: se o City aguentaria a pegada de segurar uma corrida pelo título. Agora que não é mais o líder, cabe ao United segurar o rojão. A diferença é que os vermelhos têm bastante mais experiência nisso, e têm conseguido ser bem sucedidos na tarefa.



