Inglaterra

Falta pouco

Uma semana depois da volta do futebol à Europa, começa no próximo sábado a Premier League. Por causa da morte de Bobby Robson, acabamos atrasando uma semana a segunda parte da nossa previsão para a temporada. Com isso, faremos na sexta-feira uma “edição especial” da coluna para termos todas as previsões antes do início do torneio.

Falamos nesta segunda etapa de mais sete equipes, tendo entre elas nada menos do que quatro candidatos (ou pretendentes a) ao título: Chelsea, Liverpool e os dois times de Manchester. Que ganham a companhia de dois vizinhos que não atrapalham muito e de um que provavelmente se despedirá neste ano.

CHELSEA
Estádio: (42;055 lugares)
Principal jogador: John Terry (zagueiro)
Fique de olho: Michael Mancienne (zagueiro)
Competição continental que disputa: Liga dos Campeões
Quem chegou: Daniel Sturridge (Man City), Ross Turnbull (Middlesbrough), Yuri Zhirkov (CSKA Moscou)
Quem saiu: Ben Sahar (Espanyol), Slobodan Rajkovic (FC Twente), Jimmy Smith (Leyton Orient), Frank Nouble (West Ham),
Técnico: Carlo Ancelotti
Objetivo na temporada: Título
Previsão: Liga dos Campeões

Por enquanto, a pré-temporada atual do Chelsea lembra muito mais a de Luis Felipe Scolari do que as de José Mourinho: altas expectativas em cima de um técnico (que, assim como o do ano passado era “o que Abramovich sempre quis”), poucas contratações e altas expectativas. Ao time do ano passado, só se juntou Yuri Zhirkov de relevante. E o russo vem para a mesma posição em que já (não) jogam Lampard, Ballack e Deco.

No ataque, os Blues continuam dependendo exclusivamente de Drogba e Anelka, enquanto, na defesa, rezam para Alex manter a boa forma do final da temporada passada. Além disso, os medalhões envelheceram, a não há ninguém na equipe sobre quem se pudesse dizer que “está um ano mais maduro portanto renderã mais”. Some-se a isso o pouco conhecimento do inglês por parte de Ancelotti, o que atrapalhou demais Scolari, e o quadro não é bonito.

Se há algo em que se fiar, além das boas expectativas com relação a Zhirkov, é a maneira como o time atuou na primeira metade deste ano. Ali, porém, havia a motivação de mostrar que o culpado era Scolari. Os Blues não parecem ter “de onde tirar” futebol pra enfrentar os outros grandes ingleses. Por outro lado, a base segue a mesma, o que permite supor que “o resto do bolo” ainda não terá condições de alcançá-los.

EVERTON
Estádio: Goodison Park (40.569 lugares)
Principal jogador: Marouane Fellaini (meia)
Fique de olho: James Vaughan (atacante)
Competição continental que disputa: Liga Europa
Quem chegou: Anton Peterlin (Ventura County Fusion), Cody Arnoux (Carolina Dynamo)
Quem saiu: Lars Jacobsen (Blackburn), Nuno Valente, Andy van der Meyde, John Paul Kissock
Técnico: David Moyes
Objetivo na temporada: Liga Europa
Previsão: Metade de cima da tabela com tranquilidade

Nas últimas cinco temporadas, o Everton só não acabou pelo menos na sexta posição em uma delas: a de 2005/06, ano em que jogou a preliminar da Liga dos Campeões. Nos dois últimos anos, o time foi quinto. Um retrospecto que, em qualquer liga do mundo, deveria apontar para cima. Não na inglesa, porém. E menos ainda na Premier League de 2009/10, do milionário Manchester City. Se o problema do Everton fossem só os Citizens, David Moyes poderia ficar um pouco mais tranqüilo.

Não que a realidade dos Toffees tenha mudado significativamente. Não é a primeira vez que o Aston Villa será dirigido por Martin O’Neill, com o dinheiro de seu dono americano. Nem será a primeira vez que o Tottenham gastará mais que o Everton. E o dinheiro árabe já havia chegado ao lado azul de Manchester no ano passado. Nada disso impediu o sucesso da equipe de Moyes, como em 2004, um ano depois de perder Wayne Rooney, seu melhor jogador em muitos anos, o time acabou se classificando para a LC. Supor que o Everton não acabará pior na tabela neste ano, porém, é imaginar que o raio cairá não duas, mas diversas vezes no mesmo lugar.

Para começar, o Aston Villa está um ano mais maduro. O projeto do Manchester City teve tempo para sedimentar. E até o Tottenham começa o ano com maior estabilidade. Do lado de dentro, o problema pode ser a falta de motivação. A equipe tem batido no muro nos últimos anos, e não parece capaz de superá-lo. Ssimiplesmente bater no muro de novo pode não ser desafio suficiente para um elenco que, a rigor, nada traz de novo com relação ao ano passado.

FULHAM
Estádio: Craven Cottage (25.500 lugares)
Principal jogador: Danny Murphy (meia)
Fique de olho: Bjorn Helge Riise (meia)
Competição continental que disputa: Liga Europa
Quem chegou: Stephen Kelly (Birmingham), (Lillestrom), Kagiso Dikgacoi (Golden Arrows), Bjorn Helge Riise (Lillestrom)
Quem saiu: Moritz Volz, Julian Gray, Troy Brown (Ipswich), Olivier Dacourt (Internazionale)
Técnico: Roy Hodgson
Objetivo na temporada: Liga Europa
Previsão: Metade de cima da tabela

O Fulham foi a grande surpresa da temporada inglesa passada. Depois de brigar para não cair, a equipe acabou se classificando para a Liga Europa depois de uma temporada estável, e sem grandes sustos. Méritos, ao que tudo indica, do experiente Roy Hodgson, que andava meio esquecido, mas acabou o ano futebolístico cheio de moral. Tudo baseado em um elenco modesto, sem estrelas, e no jogo coletivo. A classificação para a Liga Europa, porém, pode justamente ser a ameaça ao modelo que funcionou.

O Fulham da temporada passada foi a equipe que menos jogadores utilizou em toda a Premier League, além de ter repetido o mesmo time nada menos do que 20 vezes. Parece pouco provável que consiga fazer o mesmo no próximo ano tendo pela frente a competição continental. Em que parte a repetição do time foi responsável pelo sucesso obtido é o que saberemos em algumas semanas – e depende fundamentalmente disso o sucesso do Fulham no ano.

Outro problema para a equipe é a falta de gols: o ataque que marcou 39 gols em 38 jogos na última temporada não recebeu até aqui nenhum reforço. Por outro lado, é razoável esperar mais de jogadores como Bobby Zamora, longe, entretanto, dos dias em que era apontado como grande promessa do futebol inglês, e Andrew Johnson, não tão distante do mesmo status. Repetir o sucesso parece improvável, mas a confiança adquirida no ano passado pode ajudar.

HULL CITY
Estádio: KC Stadium (25.404 lugares)
Principal jogador: Michael Turner (zagueiro)
Fique de olho: Matthew Briggs (zagueiro)
Competição continental que disputa: nenhuma
Quem chegou: Steven Mouyokolo (Boulogne), Seyi Olofinjana (Stoke), Jozy Altidore (Villarreal)
Quem saiu: Sam Ricketts (Bolton), Wayne Brown (Leicester), Matt Plummer (Darlington), Dean Windass (Darlington), James Bennett (Darlington), John Welsh (Tranmere), Ryan France (Sheffield United), Tom Woodhead
Técnico: Phil Brown
Objetivo na temporada: Ficar na Premier League
Previsão: Rebaixamento

Não é nenhum exagero nenhum dizer que o Hull começa a temporada na primeira divisão, mais do que por sorte, por absoluta incompetência do Newcastle. Os comandados de Phil Brown, que começaram 2008/09 surpreendendo a Inglaterra, embicou pra baixo depois da fatídica derrota diante do Manchester City no 26 de dezembro, quando, perdendo por 4 a 0 no intervalo, Brown manteve sua equipe dentro de campo no intervalo. A “tática motivacional” ricocheteou, e a partir daí a equipe só caiu.

Não seria um problema tão grande, é claro, se a equipe tivesse algo em que se fiar que não fossem as táticas motivacionais. Mas não tem. Seu melhor jogador é um zagueiro de relevância pequena na própria Inglaterra. Sua maior promessa, também um zagueiro. Seu atacante mais promissor é americano, e vem por empréstimo do Villareal, onde ninguém achou que pudesse ser muito útil. Phil Brown, sempre elogiado por Alex Ferguson, já mostrou algumas vezes ser hábil taticamente, mas não parece ter as peças necessárias para manobrar.

A briga do Hull é para não cair, mas não há nada que indique que o clube tem mínimas condições de levá-la além de metade da temporada. Jimmy Bullard em forma pode fazer a diferença contra equipes menores, mas não o suficiente para garantir a permanência. Considerando que o Hull já está fazendo hora extra na Premier League, qualquer coisa diferente de um rebaixamento vergonhoso (na lanterna, ou muitas rodadas antes do final) já terá sido vantagem

LIVERPOOL
Estádio: Anfield Road (45.276 lugares)
Principal jogador: Steven Gerrard (meia)
Fique de olho: Kristian Nemeth (atacante)
Competição continental que disputa: Liga dos Campeões
Quem chegou: Glen Johnson (Portsmouth), Alberto Aquilani (Roma)
Quem saiu: Xabi Alonso (Real Madrid, £30m) Alvaro Arbeloa (Real Madrid, £3.5m), Sebastien Leto (Panathinaikos, £1.3m), Paul Anderson (Nottingham Forest, £250,000), Sami Hyypia (Bayer Leverkusen, free), Jermaine Pennant (Espanyol, free), Jack Hobbs (Leicester, free), Astrit Ajdarevic (Leicester, free), Shane O'Connor (Ipswich, free),
Técnico: Rafael Benítez
Objetivo na temporada: Título
Previsão: Campeão

Não há analista de futebol que não considere Rafael Benítez um dos melhores treinadores do planeta no que se refere a trabalhar elencos, tirar o melhor de seus jogadores. Em seus primeiros anos de Liverpool, o espanhol fez isso, mas insistia em ter que tirar o melhor de jogadores não tão bons – escolhidos por ele mesmo. A partir da contratação de Fernando Torres, entretanto, o quadro mudou, e os Reds mudaram de nível. Passaram do degrau “LC sem risco” para o de “concorrente ao título. O time passou a poder prescindir de Gerrard de vez em quando.

E passou a temporada passada inteira aprendendo a jogar com isso. Se não levou a briga pelo título até o final foi apenas por causa dos pontos perdidos à toa. O que faz com que uma boa parte dos analistas apostem no titulo dos Reds neste ano é que a equipe mantém um ritmo de crescimento na própria consistência que aponta para cima. Ou seja: pelo que vem fazendo, é bastante provável que o Liverpool deixe nesta temporada de empatar com times ruins em casa, ou de ceder empates em jogos ganhos. Ainda que não haja qualquer contratação de peso para fazer companhia a Gerrard e Torres, também não as havia em 2005, e as decisões saíram dos pés de jogadores de elenco como Luis Garcia.

O torcedor do Liverpool talvez esperasse um mercado melhor, com compras mais bombásticas, e sem perder um jogador da importância de Xabi Alonso. Vale lembrar, porém, que o jogador mais caro do mercado do ano passado foi Robbie Keane. E que, na ausência de Alonso, nomes como Mascherano e o próprio Lucas – para não citar o recém-chegado Aquilani – podem florescer. O futebol por estas bandas costuma ter alguma lógica, e a caminhada do Liverpool rumo a um ano melhor que o anterior vem sendo sólida. Somando a isso adversários enfraquecidos pela perda de jogadores ou simplesmente pelo envelhecimento de fórmulas e elencos e temos um favorito claro ao título inglês de 2009/10. E ele joga em Anfield Road.

MANCHESTER CITY
Estádio: ( lugares)
Principal jogador: Carlos Tevez (atacante)
Fique de olho: Michael Johnson (meia)
Competição continental que disputa: nenhuma
Quem chegou: Kolo Touré (Arsenal), Gareth Barry (Aston Villa), Roque Santa Cruz (Blackburn), Stuart Taylor (Aston Villa), Carlos Tevez (Manchester United), Emmanuel Adebayor (Arsenal), Nils Zander (Schalke)
Quem saiu: Elano (Galatasaray), Gelson Fernandes (St Etienne), Joe Hart (Birmingham), Daniel Sturridge (Chelsea), Felipe Caicedo (Sporting Lisbon), Ched Evans (Sheffield Utd), Darius Vassell (Ankaragucu), Danny Mills, Michael Ball, Dietmar Hamann
Técnico: Mark Hughes
Objetivo na temporada: Liga dos Campeões
Previsão: Briga pela LC

Quando a temporada 2003/04 começou, o Chelsea tinha em seu elenco simplesmente a imensa maioria dos talentos promissores do mundo naquele ano. Jogadores como Crespo, Verón, Duff, Joe Cole e Makelele, suficientes para montar um time sem nem aproveitar o elenco que já havia sido quarto colocado no ano anterior. Ainda assim, a mídia britânica não previu que os Blues seriam campeões. E eles não foram. E é assim também com o Manchester City, ainda que o processo por ali esteja em seu segundo ano. E que as compras por ali andem mais bem planejadas.

A primeira transferência da pré-temporada dos Citizens não poderia ser menos glamourosa: Gareth Barry, ótimo jogador, pretendido pelo Liverpool, mas longe de ser uma estrela, e nem um goleador. Uma peça fundamental, entretanto, para quem pretende formar um elenco forte e consistente. O recado foi claro: os 100 milhões por Kaká eram parte de outra estratégia. As chegadas de Touré e Tevez vão na mesma direção, ainda que a do argentino ainda tenha servido para pisar no calo do rival United. É verdade que Adebayor e Santa Cruz também são atacantes, e que o time já tinha Robinho no elenco, mas jogadores como Jô e Caicedo não estarão mais por aqui nesta temporada – e a qualidade tende a aumentar.

O que o City não conseguiu ainda encontrar é o seu Gerrard, o seu Terry. O zagueiro recebeu tentadora proposta, mas preferiu ficar “em casa”. Além disso, o time está sendo montado de novo, e não se monta um time do dia para a noite. Some-se a isso o fato de que na temporada passada o elenco não era dos piores, mas o time esteve perto disso. E que Mark Hughes não parece estar conseguindo tirar o melhor de jogadores como Elano e Jô, despachados para longe dali, mas que em outros cantos jogaram um futebol bem melhor – Jô, na própria Premier League. Dinheiro pode comprar títulos, mas precisa ser bem gasto. Da maneira como o Manchester City dispõe do seu, chegar à LC já será uma conquista e tanto.

MANCHESTER UNITED
Estádio: Old Trafford (76.212 lugares)
Principal jogador: Wayne Rooney (atacante)
Fique de olho: Federico Macheda (atacante)
Competição continental que disputa: Liga dos Campeões
Quem chegou: Gabriel Obertan (Bordeaux), Michael Owen (Newcastle), Antonio Valencia (Wigan), Mame Biram Diouf (Molde)
Quem saiu: Richard Eckersley (Burnley), Fraizer Campbell (Sunderland), Manucho (Valladolid), Lee Martin (Ipswich), Cristiano Ronaldo (Real Madrid), Carlos Tévez.
Técnico: Alex Ferguson
Objetivo na temporada: Título
Previsão: Briga pelo título

O que esperar de um time que tem dois anos praticamente perfeitos, mas, ao cabo destes, perde seu principal jogador? É esta pergunta que se quer responder em Old Trafford. E ela depende de uma série de fatores. A começar pela resposta a uma outra pergunta: perdeu-se apenas o melhor de todos ou Carlitos Tévez também fará muita falta? Além disso, sem sua principal estrela, o United terá de mudar o jeito de jogar? E quanto tempo demorará para fazê-lo?

Para quem esperava os Red Devils no Mercado, gastando o dinheiro de Florentino Pérez, a pré-temporada do United foi decepcionante. Michael Owen é tudo menos um jogador confiável – do ponto de vista da saúde e da consistência –, e Antonio Valencia pode ser ótimo para o Wigan, mas terá que mostrar que tem condições de vestir uma camisa mais pesada. Além disso, Sir Alex Ferguson não pareceu preocupado em encontrar um lateral-direito confiável, ou um substituto para Ryan Giggs.

Publicamente, o treinador diz que o talento já está em casa, e cita Federico Macheda, o homem que botou a briga pelo título do ano passado no rumo de novo. Ninguém, entretanto, pode perder jogadores do nível dos que saíram e imaginar substituí-los om um adolescente. O mais provável é que Ferguson use o ano para ver como evoluirão jogadores como Nani, Anderson, e os citados Valencia e Macheda. Como se sairá Rooney, agora de volta ao trono de dono do time. Qual será a melhor formação para acomodar os talentos que já estão em casa. Para aí, sim, ir ao mercado buscar o que precisar. O problema é que, salvo uma sorte muito grande, quando isto acontecer o título já estará em outras mãos.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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