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[Entrevista] L. Leiva: “Me adaptei para jogar mais recuado”

Quando Lucas Leiva deixou o Grêmio rumo ao Liverpool, em 2007, era o vencedor da Bola de Ouro da revista Placar no ano anterior, pelo excelente Campeonato Brasileiro que fez. No início do ano, foi capitão da seleção sub-20 campeã sul-americano. Com 20 anos, foi vendido logo depois da excelente campanha do Grêmio na Libertadores de 2007, quando foi vice-campeão. Lucas chegou ao Liverpool para ser reserva de um meio-campo que tinha Xabi Alonso e Gerrard e que tinha acabado de contratar Mascherano.

Seis anos depois, o brasileiro é titular do time ao lado do agora veterano Gerrard e foi o campeão em desarmes na Premier League da temporada 2012/13. Em um time reformulado do Liverpool, Lucas já é um dos jogadores experientes aos 26 anos e é candidato a ocupar o post de vice-capitão – algo que na Inglaterra é bastante valorizado. Além dele, Skrtel, Glen Johnson e Daniel Agger também são candidatos. Lucas falou com exclusividade à Trivela sobre a parceria com Gerrard, sobre a adaptação ao futebol inglês, a participação na contratação de Philippe Coutinho e as expectativas do time nesta temporada. Confira:

Trivela: Gerrard renovou com o Liverpool por mais dois anos. Além de um dos maiores ídolos do clube, ele é seu amigo, não é? Como é o convívio com Gerrard? O que é possível aprender com ele?

Lucas Leiva: Quando você lembra do Gerrard, você automaticamente lembra do Liverpool. Ele realmente é o símbolo do clube. Há mais de 15 anos representando um clube, o único que ele jogou durante toda a sua carreira e tenho certeza que vai ser o único. Isso mostra muita coisa, que é um jogador que sempre valorizou muito o clube. O clube de alguma forma também retribuiu.

Eu nunca joguei com um jogador tão completo como ele. Tenho essa experiência de jogar há seis anos com o Gerrard. Ele tem sido uma referência desde que iniciou a sua carreira no Liverpool e ele mostrou sua paixão e seu lado torcedor mesmo do time, o único clube que ele vestiu a camisa e provavelmente ele vai encerrar aqui também. Eu sou um cara que valoriza muito isso. Hoje em dia os jogadores trocam muito de clube, que é uma coisa normal do futebol, mas quando você encontra um jogador que toda a sua carreira permaneceu no mesmo clube é realmente algo para se valorizar.

Gerrard é um jogador que serve de exemplo para as pessoas, não só pela pessoa, mas pelo futebol que ele joga, que é impressionante. Eu peguei provavelmente a melhor época dele, quando ele tava no melhor da sua forma física, forma técnica e ele continua o mesmo jogador. Lógico, executa funções diferente no campo, mas ainda é um jogador muito importante para a equipe, mesmo com a idade já avançada.

Lucas com Gerrard, capitão do Liverpool
Lucas com Gerrard, capitão do Liverpool

O que mais te impressionou quando você treinou e jogou com ele? O que é diferente do que você estava acostumado a ver?

O que acho diferente nele é que ele tem aquilo que o grande jogador sempre precisa ter: ele tem a jogada na cabeça antes de receber a bola. Eu vejo isso nele, a qualidade do passe então nem se fala, principalmente os passes longos, é uma característica forte dele, chute de fora da área. Eu jogo em uma posição bem mais defensiva que ele, mas muita coisa eu olho e continuo aprendendo, que é algo que eu posso colocar no meu jogo para me tornar um jogador melhor.

Quando você virou titular do time, você substituiu o Mascherano. E muita gente achou que você não tinha a mesma característica, porque no Brasil você era conhecido pela qualidade de chegar na frente,mas você se tornou o jogador que mais fez desarmes na Premier League pela segunda vez na temporada passada (também conseguiu isso na temporada 2010/11). Você se adaptou ao que o time precisava ou todo jogador da sua posição precisa se adaptar por que esse é o jogo da Premier League?

Eu tive que me adaptar não ao que o time precisava, mas em uma posição que eu me sentia mais confortável para jogar na Premier League. Eu realmente no Brasil era um jogador que chegava muito na área e eu encontrei dificuldades aqui na Inglaterra. É um jogo muito rápido, mais veloz, então de início eu não consegui me adaptar da forma como eu jogava no Grêmio. Acabei jogando algumas partidas em uma função mais defensiva, principalmente porque quando eu cheguei o jogador que mais atacava era o Gerrard. Então, fui plantando a minha semente ali em uma função mais defensiva, uma posição que eu me senti mais confortável também, e depois acabei permanecendo nessa função até hoje. As minhas características não mudaram em relação ao passe, tentar uma jogada, mas com menos liberdade para chegar na área. Hoje me tornei um jogador mais completo, consigo ler muito melhor o jogo e ser um jogador que a equipe precisa. Talvez não apareça tanto para quem está de fora, mas sempre importante para a equipe.

É muito diferente jogar de primeiro volante no Brasil, na seleção ou na Inglaterra?

Bom, eu joguei pouquíssimas vezes no Brasil como primeiro volante. Acredito que a função é mais ou menos parecida, não tem mistério. O primeiro volante é o jogador que dá a saída de bola, junto com os zagueiros, e que tenta municiar os meias ou atacantes para que eles façam a jogada, o último passe. Quando eu atuei pela seleção, a função era a mesma do Liverpool. Às vezes muda alguma coisa de sistema, mas a função é basicamente a mesma.

Nessa época que o Neymar estava para ser vendido para a Europa, algumas pessoas defendiam que ele deveria ir para a Europa porque o jogador brasileiro aprende na parte tática. Existem diferenças que fazem o brasileiro aprender?

Eu acho que sim. O treinamento eu acho difícil nos dois países, mas se joga com sistemas diferentes. No Brasil se joga com dois volantes, dois meias, dois atacantes. Na Europa, a maioria dos times joga com pontas. O próprio Neymar é um jogador que provavelmente no Barcelona vai jogar como ponta esquerda. Era parecido com o que ele jogava no Santos, mas lá ele se movimentava por todos os lugares do campo. No Barcelona, ele vai ter que cumprir mais funções, como voltar para acompanhar o lateral e a gente não vê muito isso no Brasil. Com isso, ele vai acabar evoluindo. São culturas diferentes, não tem certo e errado. São maneiras de jogar diferentes e acho que é por isso que o jogador brasileiro quando vem para a Europa fica mais completo. É uma outra forma de jogar, que se junta ao que já aprendeu no Brasil, onde se aprende muito principalmente na parte técnica. Tenho certeza que o Neymar vai fazer a diferença no Barcelona.

A sua posição é uma das que ainda estão indefinidas pelo Felipão. O que você pode acrescentar para a seleção? Você pensa em seleção?

Eu continuo pensando, obviamente. Ainda não tive nenhuma oportunidade com o Felipão, joguei na seleção com o Dunga e com o Mano [Menezes]. O que eu posso acrescentar é o que eu venho fazendo aqui no Liverpool, dar segurança para os zagueiros, para a parte defensiva e iniciar as jogadas. Essa é a minha função e que eu poderia fazer na seleção e que fiz quando atuei, principalmente com o Mano, com quem eu tive uma sequência maior.

Obviamente, cada jogo que passa, cada convocação que passa, as chances ficam menores, porque infelizmente falta pouco tempo para a Copa do Mundo, então o grupo vai se fechando. Mas eu continuo pensando e tenho esperança que eu possa ter uma oportunidade e que eu possa conquistar o meu espaço dentro da seleção, algo que eu tinha conquistado com o Mano. Infelizmente para mim veio uma lesão, nesse meio tempo teve a troca de treinadores e acabei ficando um pouco de fora e fui prejudicado nisso. Mas eu já mostrei que estou recuperado, estou atuando em um bom nível. Agora é continuar fazendo uma boa temporada, ir bem, chamar a atenção e quem sabe receber uma oportunidade.

Lucas Leiva com o compatriota Philippe Coutinho
Lucas Leiva com o compatriota Philippe Coutinho

O Liverpool tem apostado muito em jogadores jovens como o Philippe Coutinho, Sturridge, agora chegaram Iago Aspas, Luis Alberto. Com tantos elencos milionários, o Liverpool dessa temporada, com esse elenco, pode voltar a brigar pela vaga na Liga dos Campeões e pelo título? O time está forte o suficiente para isso?

Acho que sim. Acho que teremos mais algumas contratações para melhorar o nosso elenco. O clube está passando por um processo de reestruturação, com jogadores jovens, mas com experiência. No caso do Coutinho, ele entrou muito bem na equipe. Fez uma grande temporada desde que ele chegou, em janeiro. Mostra que os jogadores jovens todos os anos vão evoluindo e acrescentando para a equipe. O Liverpool tem apostado nisso, tem dado certo. Às vezes o processo é um pouco mais lento, mas o nosso time é forte o suficiente para voltar a jogar a Liga dos Campeões, que é algo que o clube quer atingir nos próximos anos.

Quando o Philippe Coutinho chegou por aí, você o ajudou a se adaptar? Ele já fala inglês?

Não, ele ainda não fala a língua. Bom, na verdade, eu conversei muito com o Philippe antes de ele acertar com o Liverpool, o treinador comentou comigo e pediu para falar com ele, se eu podia dar uma força. Eu já tinha contato com o Philippe da época da seleção, então acabei conversamos e ele resolveu vir para cá, onde ele teria mais oportunidades de jogar, ia ser um jogador importante dentro da equipe, algo que infelizmente ele não teve muitas chances na Internazionale. Ele já mostrou o seu valor. O meu papel foi ajudá-lo a se adaptar à cidade, principalmente com pequenas coisas, encontrar casa, porque é um jogador jovem, que não domina a língua. Eu também vim muito jovem, então eu sei que é necessário esse tipo de ajuda, porque vem de outro país, não domina a língua, acaba demorando um pouco mais para se adaptar.

Lucas Leiva é um dos candidatos a ser o vice-capitão do Liverpool
Lucas Leiva é um dos candidatos a ser o vice-capitão do Liverpool

Você com 26 anos já é um dos jogadores mais experientes do time, até por tempo de casa. Já são seis anos de Liverpool, então você tem um papel, ao lado de uma lenda como o Gerrard, de ajudar a dar liga para o time, não é?

Eu já vou para a minha sétima temporada aqui. Ainda me considero jovem, mas pensando no tempo que eu tenho de clube, já sou considerado um “senior player”, como eles falam aqui, um jogador mais experiente, vamos dizer assim. Realmente, esse é o papel dos jogadores mais velhos, especialmente entre os mais velhos de casa, dar força aos jogadores jovens que estão chegando. Porque a gente sabe que eles rendendo, a gente vai ter mais chance de lutar por algo melhor dentro da temporada.

Brendan Rodgers chegou ao Liverpool na temporada passada e mudou o estilo do time, trouxe algo que ele já tinha feito no Swansea, com mais toque de bola e trabalhando mais as jogadas. Você sentiu essa diferença no tipo de jogo que ele colocou no time?

Todo treinador tem a sua filosofia e a sua maneira de jogar. Obviamente o Brendan tentou implantar uma filosofia de toque de bola, com posse de bola, e com muita paciência para chegar ao gol. Então foi um processo que alguns jogadores tiveram que assimilar, principalmente por mudar um pouco a característica, como os jogadores mais agudos, que vão para o um contra um. A gente começou a colher mais frutos depois da janela de janeiro, quando nossas atuações foram bem melhores e somamos mais pontos também. Então a gente espera que nessa temporada, já conhecendo a maneira de jogar e a filosofia dele, a gente inicie bem a temporada, porque é importante. Foi o que nos prejudicou no ano passado.

O Paulinho está chegando na Inglaterra. Você acha que ele tem condições de se adaptar rapidamente na Inglaterra, até pelo estilo de jogo do Tottenham?

Acho que sim. Acho que o Paulinho tem mostrado que é um jogador de chegada na área, realmente um volante que faz muito bem isso, tem o tempo da jogada para chegar como elemento surpresa. É um jogador que vai ter que se adaptar à Premier League, que é algo bem diferente, mas acredito que com a qualidade dele, não vai sofrer tanto. E também é um jogador mais velho, eu vim com 20 anos [Paulinho acabou de completar 25 anos]. Ele já passou por um processo de amadurecimento no Corinthians, jogando competições internacionais, na própria seleção também, acabou de jogar a Copa das Confederações e foi um dos destaques, então acho que vai ser mais fácil para ele. O estilo de jogo do Tottenham vai ajudá-lo a se adaptar ainda mais rápido porque é um jogo parecido com o que ele gosta. Infelizmente não vou estar muito próximo, porque Liverpool e Londres não ficam tão próximas, mas quando jogar contra vou bater um papo com ele.

Lucas Leiva teve média de 4,7 desarmes por jogo, o melhor da Premier League
Lucas Leiva teve média de 4,7 desarmes por jogo, o melhor da Premier League

Ainda se fala muito sobre a transferência de Luis Suárez, que é um jogador que parece polêmico para quem vê de fora. O que você pode falar do Suárez?

Eu sou até suspeito para falar do Suárez, sou muito próximo dele mesmo. Minha família e a família dele convivem, a gente tem uma relação muito próxima. Realmente ele é uma pessoa fora de campo e outra dentro. Dentro de campo ele se transforma, bota aquela raça que ele tem para fora e acho que isso que faz dele o jogador que é. Alguns episódios ele mesmo se arrependeu, ele precisa controlar, tem que ter aqueles dez segundos de controle para não prejudicar ele mesmo e não criar essa imagem que ele é um jogador polêmico. Ele se arrepende de algumas coisas que faz. Acho que ele tem melhorado. Na Copa das Confederações não teve nenhum episódio ruim. Ele sabe que vai evoluir nisso, sem perder a agressividade, que é o grande ponto positivo dele. É um atacante muito forte, muito brigador, isso faz com que ele seja um grande jogador. Para mim, está entre os cinco melhores do mundo.

Acredito que ele tem um potencial muito grande de criar jogadas sozinho. E ele foi o jogador que mais criou jogadas individuais na temporada passada, o que faz dele muito importante. A gente espera que ele permaneça porque é um jogador que vai dar condição do Liverpool brigar por vaga na Liga dos Campeões.

Ele já falou alguma coisa sobre se ele quer ficar, se vai continuar?

Não, na verdade ele nem não se apresentou ainda, está de férias pela Copa das Confederações. A gente bateu um papo por telefone, a gente conversa às vezes, mas eu tento não me envolver muito nisso, porque é algo delicado, são decisões que as pessoas devem tomar junto à família, os representantes. Por enquanto são só rumores. Espero que ele tome a decisão correta. O bom seria que ele permanecesse, ele é um jogador importante.

Você jogou em um time que tem um ambiente no estádio muito forte, o Grêmio. E você está há seis anos no Liverpool que é conhecido pelo ambiente. O que é diferente de jogar em Anfield em relação aos outros campos ingleses?

Eu acho que é aquela pressão que a torcida coloca. Anfield é um estádio relativamente pequeno comparado com outros estádios. Eu acho que essa paixão da torcida, essa pressão que a torcida coloca realmente faz os adversários sentirem quando vêm jogar em Anfield. Eu tive a experiência positiva no Grêmio, que tem uma torcida parecida, embora seja uma cultura diferente, maneiras diferentes de torcer, mas o Olímpico era sempre um caldeirão. Eu tive a sorte de jogar em um clube que tinha uma torcida muito forte e agora estou em um clube é considerado um dos maiores do mundo e que tem uma das melhores torcidas do mundo.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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