Inglaterra

É justo?

Na última sexta-feira, o Manchester City anunciou a venda dos “naming rights” de seu estádio para a Etihad Airlines pelo estratosférico valor de 400 milhões de libras. Sim, seria uma notícia relevante por si só: é o maior acordo da história, mais do que duas vezes o acordo do banco JP Morgan com o Madison Square Garden. Que fica em Nova York, e não em Manchester, e que recebe sohws e partidas de times muito mais rentáveis do que o Manchester City.

É evidente que, como diria minha avó, “tem boi na linha”. O contrato de patrocínio da arena tem apenas um objetivo: aumentar o faturamento dos Azuis de Manchester para que, sob a regra do Fair Play, eles possam gastar mais.

Para quem não está por dentro: há alguns anos a Uefa resolveu que a antrada de dinheiro “estranho” no futebol estava passando dos limites, e resolveu colocar um limite para isso. Em linhas gerais, o limite é o seguinte: a partir da temporada 2013/14, os times só vão poder gastar o que faturarem. Ou seja: milionários que comprarem clubes de futebol vão ter que investir seu dinheiro para aumentar seu faturamento antes de começarem a comprar Pelé e Maradona.

O primeiro ponto da discussão é sobre o quanto isso é justo. Esse sistema, afinal, não servirá para perpetuar os atuais milionários? É justo que o Manchester United e o Chelsea tenham podido gastar o que quisessem para montar esquadrões no passado que permitiram aumentar a visibilidade de seus clubes e, com isso, aumentar seu faturamento, e que qualquer outro time que venha a ser comprado pelo Eike Batista (já imaginou? WesHameX!) não possa? Parece evidente que não.

Por outro lado, a Uefa pode assistir quieta a esse monte de dinheiro entrando no jogo, muitas vezes sem que se saiba se e quando ele vai sair? Imaginemos que o dono do Málaga seja bem sucedido em seu projeto de levar o time à Liga dos Campeões. E que, quando isso acontecer, contrate Ganso, Neymar, Thiago Silva, Julio Cesar, Maicon e Pastore. Aí o time é eliminado na primeira fase depois de várias falhas de Lúcio – sim, ele contratou o Lúcio junto. E o milionário “cansa” e se manda do clube. Quem vai pagar a conta que ficou para trás?

Para além disso, se estamos falando de justiça, qual é a justiça de um time médio, um Sevilla, por exemplo, ser bem administrado por 20 anos, conseguir galgar degrau por degrau para, do dia para a noite, chegar um milionário e “comprar” uma colocação na LC? Por outro lado, qual é a justiça de Real Madrid, Barcelona, Liverpool e Man Utd possam gastar 10, 20, 50 vezes mais que os outros clubes porque faturam mais do que eles?

Também parece evidente que não. A Uefa viu o problema, sabe que para resolvê-lo teria que dividir de maneira mais equânime o dinheiro que entra, mas também sabe que não tem poder para peitar os grandes. Estabeleceu, portanto, um sistema meia-boca, que não resolve nada e ainda pode acentuar a diferença entre ricos e pobres.

O que o caso do Man City prova, entretanto, não é só que o sistema é injusto. É que é impossível de ser implementado. A confederação já avisou que vai monitorar o caso do estádio para ver se os valores fazem sentido. Pis bem: por que não monitoram o patrocínio do Barcelona, valor inacreditável, e que será pago por uma fundação que, em tese, não visa lucro? Por que só o Man City pode ser suspeito de “lavar dinheiro”?

Para além disso, suponhamos que a Uefa diga que o estádio do City não pode receber esse dinheiro. O que impedirá o xeque árabe que é dono do clube de mandar comprar 5 bilhões de camisetas azuis para distribuir para a polulação do mundo? Ou ainda, de pagar somas estratosféricas para ter amistosos com o time B do City? Quem é que vai apura se todas as receitas dos clubes são justas? Vão apurar também as receitas do Real Madrid, ou só do Man City?

Não é justo como é hoje, não ficará justo enquanto não houver um limite de gastos igual para todos, que é o que garante que em uma NFL ou NBA times pequenos tenham chance de chegar ao título. As regras, porém, dessas ligas, não permitiriam a formação de esquadrões como o Real Madrid. Trariam competitividade, mas fariam bem ao espetáculo?

O debate é amplo, e não parece que a Uefa tenha esgotado todos os seus pontos. O que definitivamente não é justo é que só o Man City mereça a atenção dos cartolas europeus.

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