E foi assim

Começamos hoje a retrospectiva da temporada da Premier League. O torneio acabou tendo alguns blocos bem definidos: os dois primeiros se isolaram cedo, embora o Chelsea nunca tenha deixado o Liverpool escapar; o Arsenal fez um grupo à parte desde que ultrapassou o Aston Villa e deixou claro que a quarta vaga na LC era sua; e Villa e Everton nunca tiveram suas vagas na Liga Europa ameaçada. Fulham, Tottenham, West Hem e Manchester City brigaram pela terceira vaga na LE, enquanto Wigan, Stoke, Bolton, Portsmouth e Blackburn não brigaram por nada bom nem por nada ruim. Por fim, os cinco que puderam cair até a última rodada, sobre os quais falaremos hoje – começando pelo último colocado.
West Bromwich Albion
Colocação final: 20º
Técnico: Tony Mowbray
Maior vitória: WBA 3×0 Middlesbrough (17/1); West Brom 3×0 Sunderland (25/4)
Maior derrota: West Brom 0x5 Man Utd (27/1)
Principal jogador: James Morrison (meio-campo, Escócia)
Decepção: Luke Moore
Artilheiro: Chris Brunt (9 gols)
Nota da temporada: 4
O West Brom começou a cair para o Championship no dia em que subiu para a Premier League. A decisão da equipe de não cometer loucuras para ficar na primeira divisão tem até de ser elogiada, já que, no médio e longo prazos, evita que o clube arrisque seu futuro. Entretanto, no curto prazo acaba ocorrendo uma sinalização de que é “tudo bem” cair. De que a ambição do clube é pequena. E isto acaba contaminando o grupo. O West Brom começou o campeonato com duas derrotas, mas depois obteve três vitórias e um empate em cinco jogos, chegando a ocupar na sétima rodada a oitava posição. E foi tudo: a partir daí o time ficou dez jogos sem ganhar – nos quais perdeu oito, e, na décima-terceira rodada caiu para a última posição, que só deixou de ser sua brevemente por uma rodada, a 22ª.
O sentimento de que a queda era inevitável é de tal ordem que o Celtic foi atrás de Tony Mowbray mesmo depois de seu time ter sido o último do campeonato. Agora que caiu, o time pode até louvar sua decisão de não gastar, já que tem uma folha que lhe permite viver bem no Champioship. De que adiante, entretanto, subir de novo no próximo ano para cair no seguinte? Ter os pés no chão é recomendável, como mostram alguns dos grandes ingleses, mas um pouco de ambição não faz mal a ninguém.
Middlesbrough
Colocação final: 19º
Técnico: Gareth Southgate
Maior vitória: Middlesbrough 3×1 Hull (11/4)
Maior derrota: Middlesbrough 0x5 Chelsea (18/10)
Principal jogador: Stewart Downing
Decepção: Afonso Alves
Artilheiro: Tuncay Sanli (7 gols)
Nota da temporada: 4
Desde a saída de Steve McLaren o Boro perdeu a consistência que tinha atingido com o ex-treinador, e a indicação de Southgate, em seu primeiro trabalho como treinador, não ajudou. E gastar o pouco dinheiro disponível em jogadores como Afonso Alves certamente não ajudou. Ao contrário da temporada passada, quando a partir do meio o time se acertou e se fixou no meio da tabela, a equipe começou bem o ano, batendo o Tottenham, mas já na sexta rodada uma derrota em casa diante do West Brom prenunciava o desastre. Na 12ª rodada o melhor resultado do ano: 2 a 1 no Aston Villa em Birmingham, e o início da queda livre: 14 jogos sem vitória, que acabaram no último suspiro da temporada, a vitória por 2 a 0 sobre o Liverpool. Neste momento o Boro já era o penúltimo, e, a partir da 24ª rodada, só esteve fora da zona da morte na 27ª.
A partir do momento em que ficou claro que o time cairia, surgiram os primeiros chamados pela demissão de Southgate, prontamente rejeitada pela direção do clube. Um bom sinal, já que o ex-jogador do English Team, embora inexperiente, se mostrou capaz de aprender, e manteve a equipe na briga para não cair até a última rodada. Além disso, contratações como a de Afonso mostram que o clube está disposto a correr riscos para permanecer na elite. Nesta temporada, apostou e perdeu, mas a direção em que o clube vai indica um futuro estável e mais feliz.
Newcastle United
Colocação final: 18º
Técnico: Alan Shearer
Maior vitória: Portsmouth 0x3 Newcastle (14/12)
Maior derrota: Newcastle 1 x 5 Liverpool (28/12)
Principal jogador: Sebastien Bassong (zagueiro, França)
Decepção: Fabrizio Coloccini
Artilheiro: Martins e Owen (8 gols)
Nota da temporada: 1
Até que se consumasse a tragédia, poucos acreditavam que o Newcastle pudesse cair para o Chamiponship. Para começar, a equipe só entrou na zona da morte na 30ª rodada. Além disso, na 36ª, chegou a dormir fora dela. E, o principal, os jogadores estavam lá, a torcida estava lá, a camisa estava lá. O merecimento, entretanto, não estava, e o Newcastle, que podia ter escapado da degola se tivesse feito um ponto em seus dois últimos jogos, não teve competência nem para empatar com o Fulham em casa – quanto mais para tirar pontos do Aston Villa em Birmingham.
A história da queda repete muitas histórias parecidas: dono novo cheio de idéias, brigas com o comando da equipe, demissões em série e, finalmente, o rebaixamento. Em setembro, com três jogos na temporada, Kevin Keegan renunciou depois de se desentender com Mike Ahsley, dono do time, por causa das decisões sobre tranferências. Duas semanas depois, irritado com os protestos da torcida, Ashley pôs o clube à venda por 400 milhões de libras – para se ter uma idéia da irrealidade da cifra, o mesmo Ashley agora pede 100 mi.
Keegan foi substituído pelo ex-jogador do Tottenham Joe Kinnear, cujo currículo ostentava péssimos resultados em Wimbledon e Nottingham Forest – ambos rebaixados logo após sua saída. Na 25ª rodada os Magpies venceram o West Brom na casa do adversário, e, após a partida, Kinnear foi hospitalizado com problemas cardíacos. O Newcastle era o 13º. Foi a última vitória da equipe até a antepenúltima rodada, quando a equipe venceu o Middlesbrough em casa. Até que Alan Shearer fosse indicado para sucedê-lo, entretanto, cinco rodadas se passaram, com apenas dois empates – e derrotas em casa para Arsenal e United, e, quando o ídolo chegou, o time já estava entre os últimos. E o carisma de Shearer não foi suficiente para salvá-lo.
Hull City
Colocação final: 17º
Técnico: Phil Brown
Maior vitória: West Brom 0x3 Hull
Maior derrota: Hull 0x5 Wigan
Principal jogador: Michael Turner (zagueiro, Inglaterra)
Decepção: Jimmy Bullard
Artilheiro: Geovanni (8 gols)
Nota da temporada: 6
O Hull City era o favorito da maioria dos analistas da Premier League para cair. O começo de temporada, portanto, com sete vitórias nos primeiros dezoito jogos e uma improbabilíssima terceira colocação durante cinco rodadas (até a nona) pareciam indicar, pelo menos, que a permanência seria mais fácil do que parecia. Ledo engano: depois de bater o West Brom fora por 3 a 0, acabou a boa fase – que também havia visto vitórias fora contra Newcastle, Arsenal e Tottenham. A partir daí o Hull só ganhou mais duas vezes e nas dez últimas rodadas acabou fazendo nada mais do que três pontos, e só não caiu porque a incompetência do Newcastle foi ainda maior.
De um lado, a trajetória de primeiro turno sensacional e segundo turno lamentável deve preocupar os torcedores – ainda mais porque o clube só se salvou com a ajuda dos adversários. A queda de rendimento de Geovanni, idêntica à da equipe, também preocupa – dos oito gols que marcou na temporada, seis foram até a 13ª rodada. O próximo ano, entretanto, será o segundo na Premier League, o que pode diminuir a pressão, e a experiência da primeira temporada pode ajudar na permanência. A se ressaltar, ainda, o desempenho do jovem zagueiro Michael Turner, um dos dois jogadores da Premier League a atuar em absolutamente todos os minutos em que sua equipe esteve em campo.
Sunderland
Colocação final: 16º
Técnico: Ricky Sbragia
Maior vitória: Sunderland 4×0 West Brom (13/12)
Maior derrota: Chelsea 5×0 Sunderland (01/10)
Principal jogador: Kieran Richardson
Decepção: David Healy
Artilheiro: Kenwyne Jones (10 gols)
Nota da temporada: 3
A temporada do Sunderland começou como acabou a anterior: com Roy Keane no banco, e gastando dinheiro. Em dezembro, porém, depois de uma série de resultados decepcionantes, o ex-meio-campo do Manchester United alegou diferenças com o novo dono da equipe, renunciou ao cargo, e foi substituído por Ricky Sbragia, um dos treinadores da equipe. Sbragia começou bem, vencendo suas duas primeiras partidas no comando, e, na 26ª rodada, no meio de fevereiro, bateu na 10ª posição. E foi tudo: desde então o Sunderland ganhou uma vez só, do Hull, em casa, e, assim como o Hull, só evitou a queda devido à incompetência maior dos concorrentes.
Pelo dinheiro que gastou em suas duas últimas temporadas, não se justifica que o clube se mantenha como mero participante da luta para não cair. A equipe, porém, conseguiu garantir uma terceira temporada na elite, e, com isso, novo investimento de Ellis Short, milionário americano que detinha 30% do time e agora tem 100%. Ellis já garantiu que o chairman Niall Quinn fica, e abriu o bolso mais uma vez – desta vez para contratar Steve Bruce para o lugar de Sbragia. Só por isso o torcedor dos Black Cats não deve lamentar 2008/9 porque, de resto, mais um ano se passou sem que o clube ameaçasse retomar as antigas glórias. Bom, pelo menos o Sunderland ganhou do Newcastle. E o Newcastle foi rebaixado! Pensando bem, para o torcedor foi um ótimo ano.



