Dura escolha

Apesar da insistência do Arsenal em superar os limites da soberba em um jogo de futebol, o assuto do final de semana no futebol inglês foi estreia de Fernando Torres pelo Liverpool. Antes de falar do jogo, entretanto, a própria transação em si merece uma análise. Aliás, a transação, não, mas as transações.
Sim, o cara que resolveu pagar 36 milhões de libras deveria ser enforcado em praça pública, e não pode haver qualquer dúvida com relação a isso. Ou pode? Para começar, o lado negativo: Carroll é apenas uma promessa, e não é daquelas que tem cara de que vai se cumprir. Um jogador alto, de não muita habilidade e pouca versatilidade. E que não é exatamente um garoto.
Carroll tem 22 anos. Até esta temporada o máximo que conseguiu foi se destacar na seunda divisão no ano passado, quando marcou 17 gols pelo Newcastle. Quem se destacou com ele, porém, foi Peter Lovenkrands. Carroll foi apenas o sexto maior goleador do torneio, tendo à sua frente estrelas como Peter Whittingham, Nicky Maynard e Gary Hooper. A contratação é, portanto, no mínimo um grande risco para quem hesitou tanto em gastar.
A história, entretanto, tem dois outros lados. Um é o do bolso cheio causado por uma contratação que não causou tanta comoção, mas que é quase tã escandalosa, a de Fernando Torres pelo Chelsea. Não se discute a qualidade do “Niño”, jogador que tem habilidade para mudar um jogo em poucos lances. O que se discute é o fato de ele quase nunca fazer isso. E de se contundir com uma frequência enorme.
Vale lembrar que Torres e Fábregas eram quase universalmente comemorados há alguns anos como os grandes nomes da geração espanhola de futebolistas. Coincidência ou não, ambos não foram mais que coadjuvantes das grandes conquistas recentes do país. Como dizia uma faixa da torcida do Liverpool na partida de ontem, Torres nunca ganhou nada no Atlético de Madrid, assim como nunca ganhou nada no Liverpool. Mesmo assim, custou quase duas vezes o que custou David Villa.
O outro lado a ser analisado na transferência de Carroll é o lado Tottenham Hotspur. Sim, o lado do time que tentou até o último segundo da janela de transferência contratar algum atacante, e acabou ficando só com os que tinha. Porque o que se tem que analisar basicamente é isso: dava para contratar Carroll, ou outro atacante de nível, por menos? A lógica diz que sim, mas os Spurs demonstraram que não.
As duas últimas colunas de Inglaterra foram dedicadas a esse tema: os clubes ingleses gastam muito. O problema é que os outros clubes sabem disso, sabem que há dinheiro disponível, portanto só vendem para a Inglaterra quando rola muito dinheiro. Se vender Fernando Torres extremamente bem não justifica comprar Carroll extremamente mal, a perspectiva de ficar com apenas um atacante de nível, o ainda não testado na inglaterra Luis Suárez, pode ajudar a justificar.
O Tottenham não é o maior exempolo de austeridade de gastos, assim como não o é seu treinador. Na atual temporada, entretanto, assim como na passada, tem se recusado a pagar valores estratosféricos por jogadores. Perdeu, assim, Suárez para o Liverpool, e viu rejeitadas ofertas por jogadores tão diversos como Luis Fabiano e Giuseppe Rossi.
O caixa ficou cheio, mas a equipe vai depender de gols de Peter Crouch e Roman Pavlyuchenko. Valerá a pena? Esta é a grande questão a ser respondida hoje por um manager da Premier League com algum dinheiro no bolso.



