Dois bichos diferentes
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O derbi entre West Ham e Millwall, há duas semanas, chamou a atenção da Inglaterra e do mundo por causa dos assuntos não futebolísticos. Com as confusões, é claro, não faltaram vuvuzelas dizendo: “Tá vendo? Se fosse no Brasil já estariam criticando”. E, claro misturando duas situações que, embora tenham acontecido em torno da mesma partida, não tiveram relação entre si: o esfaqueamento de um torcedor do West Ham, que aconteceu antes do jogo, e a invasão de campo entre o final do tempo regulamentar e a prorrogação, na qual os únicos feridos foram os que quiseram brigar com a polícia.
É bom contextualizar, tanto a rivalidade, considerada a mais violenta da Inglaterra, quanto o estado atual do hooliganismo inglês. O chamado derbi do leste de Londres (e não oeste, como eu havia escrito) aconteceu pela primeira vez em 1930. Ambos os clubes foram fundados no século XIX, o Millwall em 1885, como Millwall Rovers, e o West Ham em 1895, como Thames Ironworks, mas só chegaram à Football League em 1919 e 1920.
Reza a lenda, entretanto, que a rivalidade entre ambos começou antes mesmo de se enfrentarem pela primeira vez, por causa de um greve no porto: os trabalhadores ligados ao West Ham entraram em greve, enquanto os ligados ao Millwall a furaram. Apesar de todo o ódio existente, ambas as equipes se enfrentaram poucas vezes, 25 no total, contra, por exemplo, 161 encontros entre Tottenham e Arsenal, o dérbi mais importante da capital londrina. Entre 1947 e 1978, por exemplo, as duas equipes não jogaram entre si, e ambas não se enfrentavam desde 2005, quando ambas estavam na segunda divisão.
É bom contextualizar também o “fim” do hooliganismo inglês. O chamado “Taylor Report”, de 1989, um relatório preparado por Lord Taylor of Gosforth, membro da Câmara dos Lordes britânica, surgiu por causa do desastre de Hillsborough, uma tragédia lamentável, mas que não teve como causa o hooliganismo. A morte de 96 torcedores do Liverpool no estádio do Sheffield Wednesday aconteceu por causa das grades do estádio, na qual os torcedores foram esmagados depois de um princípio de pânico.
Ainda que o hooliganismo não tenha sido seu causador imediato, o relatório foi um dos principais fatores para reduzi-lo quase a ponto de eliminá-lo. É bom lembrar que, quatro anos antes, os ingleses haviam sido banidos das competições européias por causa do comportamento de seus torcedores em outra catástrofe, a de Heysel, na Bélgica, na final da Copa dos Campeões daquele ano, na qual morreram 39 pessoas, mas cerca de 600 ficaram feridas.
Em resumo, como resultado do relatório, foram estabelecidas algumas medidas que acabaram por alterar a maneira do inglês torcer. Se, de um lado, há quem reclame que o fato de todos os lugares nos estádios agora serem para torcedores sentados, ao contrário do que acontecia, acaba com o “clima” da partida, não há como negar que as restrições à venda de álcool e a obrigatoriedade dos clubes de controlarem seus torcedores acabaram levando à diminuição radical da violência.
Mais, entretanto, do que estabelecer medidas, os ingleses costumam ser bons em se fazer cumpri-las – e é precisamente aí que está a diferença para o Brasil. No Brasil e na Inglaterra acontecem invasões de campo. No Brasil, entretanto, prende-se o sujeito e depois ele é liberado, e, ainda que seja fichado e proibido de comparecer a partidas de futebol, não há qualquer controle sobre isso. Na Inglaterra, os invasores são banidos dos estádios por toda a vida, e isso é controlado. Por mais que os invasores do citado dérbi parecessem mais interessados em “festar”: as fotos não mostram violência entre os torcedores, mas um monte de gente correndo e sorrindo dentro do campo.
Outra questão completamente diferente é a morte do torcedor, e aí se vê que, se foi drasticamente reduzido dentro dos estádios, fora deles o hooliganismo continua tendo seguidores. Além do torcedor ferido, aconteceram diversos confrontos entre torcedores, e entre torcida e polícia, além de vandalismo na região próxima ao estádio. Neste caso, o problema inglês é mais parecido com o brasileiro. Não se pode punir o clube, já que, a rigor, ele não tem como influir no comportamento de seu torcedor fora do estádio. E a punição a quem é pego desestimula pouca gente, porque poucos são pegos.
Há uma diferença cultural enorme entre Inglaterra e Brasil, independente de juízo de valores. Por lá, a regra é o cumprimento da lei. É inimaginável ter por lá um congressista como José Sarney acobertado pelo presidente, até porque o citado jamais seria congressista. Por lá, um jogador que simula um pênalti é considerado desprezível, enquanto por aqui é comemorado, e protegido por juízes ruins. Por isso é que é impossível comparar uma coisa com a outra. A situação acontecida em Upton Park certamente receberá tratamento adequado – e se não receber, certamente “cairemos de pau” nos caras. Aqui, o mesmo acontecimento poderia render uma punição exemplar – ou uma multa convertida em cestas básicas a serem doadas em 2014. É por isso que lá se teme invadir o campo, e por aqui, nem sempre.
Os acontecimentos de fora de campo, porém, são de muito mais difícil controle, não só na Inglaterra e no Brasil como em todo o mundo. Bandos organizados tendem a atrair todo tipo de refugo social, e o fato de o futebol ser a desculpa usada para se reunirem é, no caso, apenas uma coincidência. O que, é evidente, não torna o problema menos grave, nem exime o futebol de participar de sua solução.