Do goleiro que venceu o câncer à falência: o feito do Bradford
O Bradford conquistou uma façanha gigantesca ao assegurar uma vaga na decisão da Copa da Liga Inglesa. É o segundo clube da quarta divisão a chegar a uma final do torneio e o primeiro a eliminar três times da elite na mesma campanha, além de estabelecer o novo recorde inglês de vitórias consecutivas em disputas por pênaltis – são nove, incluindo duas no torneio. Tudo isso para um clube que, campeão da FA Cup em 1911 e presente na Premier League em 1999/00, beirou a falência duas vezes e sofreu três rebaixamentos ao longo da última década.
Além do feito coletivo alcançado pelos Bantams, há também vitórias pessoais na trajetória até Wembley. Em especial, a de Matt Duke, responsável por defesas importantíssimas nos dois jogos das semifinais contra o Aston Villa. Há exatos cinco anos, em janeiro de 2008, quando defendia o Hull City, o goleiro precisou passar por operação para retirar um câncer do testículo.
Embora a operação tenha sido bem-sucedida, Duke perdeu espaço na equipe e demorou a recuperar a forma, passando por empréstimo frustrado ao Derby County. Acabou dispensado em abril de 2011, quatro meses antes de firmar contrato com o Bradford City. E, depois de também defender o Northampton Town por curto período, somente nesta temporada se firmou como titular dos Bantams. Aos 35 anos, para provar a volta por cima.
“É assustador quando você ouve a palavra câncer. Eu me preocupava em nunca voltar a jogar futebol novamente. Mas, sendo honesto, quando você passa por isso, não pensa em estar em uma final em Wembley. Eu queria ver meu filho andar de bicicleta. Agora, tenho uma perspectiva diferente sobre a vida. Você pode ter maus resultados no trabalho, mas o importante é voltar para a sua família e saber que está saudável. Vencer é fantástico, mas sua família é mais importante”, disse Duke, em entrevista recente ao SunSport.
Outro jogador de história interessante é James Hanson, autor do gol da classificação. Quando tinha 15 anos, o atacante foi dispensado do Huddesfield Town por ser muito baixo. Passou a trabalhar arrumando prateleiras e a atuar por clubes de divisões menores. Acabou contratado pelo Bradford em 2009, por míseras £ 7,5 mil – 0,1% do que custou Christian Benteke, destaque do Aston Villa. E, sem dúvidas, seu 1,93 m de altura ajudou o time rumo à decisão.
Quem também merece um papel de destaque são os 6,5 mil torcedores que enfrentaram neve e 140 quilômetros de viagem para ver a equipe triunfar no Villa Park. Uma torcida que, em 1985, sofreu com a morte de 56 pessoas em incêndio nas arquibancadas do estádio Valley Parade.
“Para a cidade de Bradford, é um feito enorme e realmente sinto que deixamos a população empolgada. Nossos torcedores continuaram ao lado do clube durante alguns momentos realmente difíceis. Não foi um bom negócio torcer para o Bradford durante os últimos dez anos. Estou realmente contente por darmos a eles nesta noite algo para ir ao trabalho de cabeça erguida e ter orgulho do clube”, afirmou o técnico Phil Parkinson, após o jogo. “Penso que levará alguns anos até que outro clube repita o que fizemos”.
Entre o épico na Copa da Liga, o Bradford passa por uma realidade modesta na League Two, ocupando a nona colocação e vindo de quatro jogos sem vitória. Mas, se as perspectivas de acesso não são tão grandes assim, o sonho de disputar a Liga Europa segue bastante vivo, ainda mais depois de tanta superação. Que Swansea ou Chelsea não duvidem disso.



