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Derrota merecida para Ferguson

Pela primeira vez na história da Premier League, um time começa a temporada com os dois maiores artilheiros da última edição. Wayne Rooney e Robin van Persie marcaram juntos 57 gols e agora vestirão a mesma camisa. Foi com a expectativa de vê-los do mesmo lado pela primeira vez que torcedores do Manchester United viajaram a Liverpool para a estreia contra o Everton, em Goodison Park.

Sir Alex Ferguson, que na temporada passada insistiu no 4-4-1-1, apresentou uma nova cara de time, talvez uma mudança já prevendo a entrada dos reforços da temporada. Kagawa começou no time, van Persie no banco.

Formação tática do Manchester United contra o Everton, na abertura da Premier League

A formação foi uma variação entre o 4-3-3 e o 4-2-3-1, com Kagawa atuando como centralizador do jogo e Welbeck aberto na esquerda. Na defesa, Valencia improvisado na lateral e Carrick na zaga, devido às lesões de Smalling, Evans, Ferdinand e Jones. Scholes e Cleverley foram escolhidos para fazer a dupla de volantes, enquanto Rooney começou como atacante mais agudo.

No lado do Everton, David Moyes optou pelo seguro. Levou a campo um time entrosado, onde todos os titulares já estavam no clube ao final da competição passada. Pienaar, que esteve emprestado, foi comprado em definitivo. O versátil Fellaini foi empregado como o trequartista do 4-4-1-1.

Formação do Everton contra o Manchester United, no 4-4-1-1

Jogando em casa, o Everton tomou iniciativa e começou marcando com a linha de defesa bastante alta e pressão no campo adversário. Apesar de estar acostumado a jogar no contra-ataque, o United praticamente não conseguia trocar passes devido à eficiente marcação dos Toffees.

Curioso mas não surpreendente, o articulador do Everton é o lateral Leighton Baines. A transição ofensiva passa quase sempre por ele. Com excelente técnica e passe, Baines aciona com bolas longas os jogadores de frente Jelavic e Fellaini. Com o lado direito da defesa enfraquecido, o United deu espaços e as melhores chances do primeiro tempo vieram por ali, incluindo uma bola na trave de Fellaini. As bolas paradas, de falta e escanteio, também cobrados por Baines, foram a outra fonte de perigo.

A imagem abaixo flagra o posicionamento do United e ainda mostra com clareza as duas linhas compactas do Everton.

Insistência pelo meio

A partir dos 10 minutos de jogo, o United se assentou em campo e começou a conseguir manter mais a posse da bola. Scholes e Cleverley são meio-campistas muito mais afeitos à articulação do que ao desarme, fazendo com que o time tenha uma capacidade maior de reter a bola do que de recuperá-la.

A criação das jogadas foi, no entanto, o principal problema dos Red Devils. O time centraliza demais o jogo e busca sempre Wayne Rooney. Quando ele não está no seu melhor dia, a equipe sente. Sabendo disso, até porque foi Moyes quem lançou Rooney para os profissionais, o treinador do Everton tratou de dificultar ao máximo a vida do atacante. Sem a bola, o time azul se fechava na área com pelo menos oito jogadores e foco em congestionar a infiltração pelo meio.

Com oito jogadores atrás da linha da bola e todos eles dentro de um raio de aproximadamente 30 metros, o espaço ideal para o ataque do United deveria ser o flanco. Na imagem acima, Scholes recebe combate de Fellaini enquanto Osman e Pienaar cuidam de longe os laterais Evra e Valencia (fora da imagem). A maior troca de passes do jogo foi de Kagawa para Rooney. No entanto, nenhum dos 22 passes do japonês para o centroavante gerou chance de gol.

Nani apagado

Sendo o atacante mais capaz de fazer a jogada de profundidade, e acompanhado por Valencia, Nani deveria ter assumido um papel mais importante na partida. Mais acionado do que Welbeck, o português pouco criou e nada concluiu. O aplicativo Stats Zone, parceria da revista FourFourTwo com a Opta, mostra um comparativo dos passes recebidos pelos companheiros de Rooney na partida.

Enquanto Nani recebeu quase o dobro de passes, nenhum deles foi dentro da área. Já Welbeck, com a função de estar presente nas cercanias do gol, fazendo companhia a Rooney, teve a principal oportunidade do primeiro tempo, em assistência de Kagawa.

Vantagem merecida

Insistindo nas bolas longas, o Everton concluiu mais a gol que o Manchester United e aos 11 minutos do segundo tempo, tirou o zero do placar. Escanteio da direita bem cobrado e finalizado por Fellaini, que venceu disputa com Carrick. O belga de 1,94m foi o melhor jogador em campo, vencendo quase todas as disputas pelo altos, criando lances de perigo e incansável na pressão aos volantes do adversário.

Logo após ter sofrido o gol, Ferguson mandou van Persie para o aquecimento e o United assumiu comando do jogo. O Everton se retraiu, preparado sempre para o contra-ataque e a partida tornou-se de mão única. A melhor chance de empate do United foi ainda antes da entrada do principal reforço e foi criada pro uma simples inversão de posições na movimentação ofensiva.

Nani e Rooney trocaram de lugar, causando indecisão momentânea da marcação do Everton. Valencia se aproveitou do espaço e cruzou na área, onde estavam entrando cinco companheiros. Em uma sobra, Cleverley foi impedido de empatar por Jagielka que afastou em cima da linha.

O enigma van Persie

Eram 22 minutos da segunda etapa quando van Persie estreou pelo United. Entrou na vaga de Welbeck e de cara, mudou a maneira de jogar do time. O holandês passou a revezar com Rooney como homem de referência, com Nani atacando ora pela direita, ora pela esquerda.

A utilização de Robin van Persie daqui pra frente será algo interessante de ser observado. Se mantiver a ideia que começou o jogo, o holandês vai atuar longe de sua melhor posição já que é improvável que Ferguson decida utilizar Rooney pelo lado. O ideal seria voltar ao 4-4-1-1 da temporada passada, com Rooney jogando logo atrás de van Persie. No entanto, como encaixar o também recém contratado Kagawa? Me surge outra pergunta ainda sem resposta: a vinda de van Persie foi planejada ou foi um negócio de ocasião? Meu palpite é a segunda opção, até porque o United ainda tem Welbeck, Chicharito e Berbatov para função, mesmo que com menos qualidade.

Nos últimos 15 minutos de jogo, Ferguson partiu com tudo pro ataque e praticamente liberou Valencia das funções defensivas. A equipe terminou o jogo com Rooney e van Persie dentro da área, Valencia e Young pelos lados e Kagawa, Anderson e Scholes vindo de trás pelo meio.

Não foi suficiente. O Everton foi merecido vencedor do jogo, principalmente pela atuação do jogo e pela estratégia de David Moyes. No final, o United ficou com 69% da posse da bola devido à pressão em quase todo segundo tempo. O time de Sir Alex vai evoluir e tem qualidade pra isso, mas já ficou provado que está longe de ser um amplo favorito ao título. Ter jogadores que sabem fazer muitos gols de pouco vale se a equipe não souber criar as oportunidades.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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