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Depois de críticas até do prefeito de Liverpool, clube volta atrás e congela preço dos ingressos

O Liverpool anunciou na terça-feira da semana passada um amplo plano de reformulação nos preços dos ingressos a partir da temporada 2016/17, já levando em consideração os 8,5 mil novos assentos com que o Anfield contará a partir de agosto, quando concluir as reformas de expansão do estádio. Apesar de apresentar medidas para levar mais jovens e torcedores locais ao campo, a novidade do clube atraiu muito mais críticas do que elogios, por causa do considerável aumento no preço dos ingressos que acompanhou o novo plano. A reação da torcida foi tão negativa e sua voz, tão forte, que o clube não teve outra alternativa senão voltar atrás. Nesta quarta-feira, os donos do clube divulgaram uma carta aberta aos torcedores, anunciando o congelamento dos preços dos ingressos pelas próximas duas temporadas.

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O tom adotado pelos executivos da Fenway Sports Group, empresa proprietária do Liverpool, foi de se desculpar com os torcedores “pela aflição causada pelo plano de preços de ingressos para a temporada 2016/17”. Atualmente, o clube cobra £ 59 pelo ingresso individual mais caro e £ 869 pelo carnê de temporada mais caro. A ideia era aumentar o preço nessas duas categorias para £ 77 e £ 1000, respectivamente. Algo descartado nesta quarta-feira, após a publicação da carta.

“Ficamos particularmente preocupados com a percepção de que não ligamos para nossos torcedores, de que somos gananciosos e de que estamos tentando tirar lucro pessoal às custas do clube”, destaca trecho da mensagem publicada pela companhia. A FSG fez questão de reforçar como achava que o plano anunciado havia sido acertado e que as medidas mais amigáveis, como a destinação de certa carga de ingressos a jovens locais e crianças de escolas da cidade, não visavam enfraquecer possíveis descontentamentos com os preços. “A oposição generalizada a esse elemento do plano (preços dos ingressos mais caros) deixou claro que nos enganamos”.

Além de anunciar o congelamento desses ingressos mais caros pelas próximas duas temporadas, a FSG ainda garantiu algumas das boas medidas anunciadas na semana passada, como a carga de dez mil ingressos £ 9 distribuída ao longo de uma temporada, para torcedores locais; 20 mil ingressos pela metade do preço para jovens entre 17 e 21 anos ao longo da temporada; mil ingressos doados a escolas da cidade de Liverpool, ao longo da temporada, para que os professores distribuam às crianças que mais se destacarem em seu desempenho escolar.

Apesar de louvável e com poucos precedentes, a atitude da administração do Liverpool apenas aconteceu porque a mobilização dos torcedores do Liverpool nas redes sociais e no espaço público foi muito grande. Após muitas reclamações nas redes sociais no dia do anúncio do novo plano, a parte mais barulhenta da torcida dos Reds, a que confere ao Anfield sua famosa atmosfera, ainda abandonou o jogo da equipe de Jürgen Klopp contra o Sunderland no 77º minuto, em referência ao preço anunciado para o ingresso mais caro. A narrativa daquele confronto contribuiu com os torcedores, já que o time vencia por 2 a 0 e, após a debandada dos mais fanáticos, sofreu dois gols nos minutos finais e apenas empatou com o vice-lanterna da Premier League.

A repercussão foi tão negativa quanto poderia ser. Até mesmo o prefeito da cidade de Liverpool, Joe Anderson, publicou um texto no jornal The Times, criticando fortemente o aumento de preços anunciado e posicionando-se ao lado dos torcedores dos Reds. “Todos os clubes deveriam olhar para si próprios e pensar: ‘Realmente precisamos excluir mais torcedores a partir do preço? Precisamos de um aumento no preço dos ingressos quando os salários dos jogadores estão ultrapassando o telhando e nossa renda está mais forte a cada ano através o acordo da Sky com a Premier League?’”, dizia trecho do texto de Anderson.

A decisão pelo congelamento dos preços dos ingressos mais caros por parte da diretoria do Liverpool é uma enorme vitória para a fanática torcida do lado vermelho de Merseyside. Mais do que isso, na verdade, é um triunfo do torcedor inglês em geral. A elitização do futebol no país nas últimas décadas tornou de elite um esporte que, em especial na Inglaterra, era das massas, das classes operárias. O movimento de retorno às raízes começou há algum tempo, os protestos de diversos grupos de torcidas de diferentes times têm se intensificado, vitórias menores têm sido frequentemente conquistadas, e a alteração no novo plano de ingressos do Liverpool é o empurrão que faltava para que torcedores de outros clubes se fortalecessem também em suas demandas. O dia 10 de fevereiro pode ficar marcado como uma data importante neste período que, décadas depois, deverá ser lembrado como o tempo em que os torcedores de verdade cansaram de ser deixados de lado pelas instituições que ajudaram a construir.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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