Futebol inglês

De quem é?

 Na década de 80, o campeonato italiano foi o melhor do mundo. Com a possibilidade de contratar estrangeiros e enorme quantidade de dinheiro fluindo, foram montados esquadrões sensacionais, e até clubes como o Verona viveram momentos de glória. A euforia, entretanto, acabou em ressaca brava: parte do dinheiro da festa tinha origem obscura, possivelmente mafiosa, e sumiu rapidinho. Os clubes, entretanto, continuaram com os “papagaios” no caixa.

A situação do futebol inglês de hoje lembra um pouco aquele momento da Itália. Clubes milionários, os maiores craques do mundo, dominância continental. E dinheiro de origem obscura. Uma rápida olhada na home de esportes do Guardian da última quarta-feira trazia nada menos que quatro histórias problemáticas de donos de clubes de variada importância e tradição. Em três dos casos, simplesmente não se sabe quem é o dono do time, e no outro não se sabe se o dono é mesmo o dono, e o que pretende fazer com a equipe.

O caso mais emblemático, mais uma vez, é o do Leeds. O time viveu a glória de jogar uma semifinal de LC em 2001, e, depois disso, foi ladeira abaixo em alta velocidade. Em 2007, chegou à terceira divisão inglesa, em grande parte por causa de dívidas. No meio da história, Ken Bates, ex-dono do Chelsea, assumiu o clube mais de uma vez, de maneiras pouco claras.

Bates chegou ao clube em 2005, como “chairman”. O Leeds fora adquirido por uma empresa chamada Forward Sports Fund, com sede nas ilhas Jersey, aquele mesmo paraíso frequentemente visitado por Paulo Maluf. Em 2007, Bates decretou a falência do Leeds, e, com isso, conseguiu renegociar a dívida. O clube, que passara para a mão de administradores de falências, incrivelmente aceitou uma proposta do mesmo Forward Sports Fund, mecanismo pelo qual o fundo acabou ficando com o clube que quebrou, mas com uma dívida muito menor.

Calma que a história não acabou! Em janeiro de 2009, Bates informou a Justiça britânica que ele era um dos controladores do fundo. Pois bem: em maio, o mesmo Bates informou que, embora dirija a empresa, não é dono dela. E, mais, que não sabe quem é. Sério. O cara disse isso mesmo, e nem foi em uma comissão do Senado brasileiro. Ele dirige uma empresa que declarara pertencer a ele mesmo, mas agora diz que não é o dono dela, e que não sabe quem é.

Além do surreal da situação, o problema é que, para ser dono de um time da Football League, o sujeito tem que ser aprovado por ela. E, se ninguém sabe quem é o dono, que foi aprovado pela liga? Ao que parece, ou não foi ninguém ou quem foi aprovado não é o dono. O assunto é chato, e pode parecer uma tecnicalidade, e no Brasil provavelmente seria, mas, na Inglaterra, isso representa. um problema grave de quebra de regra.

Então vamos lá: além do Leeds, não se sabe direito quem são os donos do Notts County, embora o clube tenha anunciado recentemente o nome de dois de seus investidores. E embora a face pública dos novos donos do Birmingham City seja o empresário chimês Carson Yeung, este só detém 16% do capital da empresa que está fazendo o investimento. Que, por sua vez, tem valor total menor do que o dinheiro que será pago pelos Blues. Ou seja: mais rolo.

No meio da confusão, o Portsmouth acha que sabe quem é seu dono, Sulaiman Al-Fahim. Só que o clube não pagou os salários dos jogadores na última semana, e seu executivo-chefe diz que não tem como pagá-los. Que todo o dinheiro que entra vai para pagar o banco. E que Al-Fahim está refinanciando a dívida. Ninguém, entretanto, sabe exatamente quem é Al-Fahim, e quem está por trás de sua compra do Pompey. Isso quer dizer que tanto é possível que a dívida seja refinanciada e o clube ganhe um pouco de tranqüilidade, como bem pode ser que se decrete sua falência, com sua decorrente perda de pontos, o rebaixamento certo e, com isso, os donos possam renegociar com os credores e pagar menos do que devem.

É claro que eu também preferia falar dos grandes jogos da rodada, dos gols impedidos do Arsenal ou de outros assuntos futebolísticos. O problema da propriedade dos clubes ingleses, porém, volta ao noticiário toda hora, seja porque os donos estão endividados, caso de Liverpool e Man Utd, seja porque têm dinheiro demais (Chelsea e Man City) seja porque não se sabe quem são.

Embora haja diferenças econômicas importantes entre o futebol inglês e o italiano, a lição do sul da Europa não deve ser esquecida pelas ilhas: falta de transparência em qualquer negócio nunca é prenúncio de boa coisa. A ressaca costuma ser poderosa.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo