Inglaterra

Crash à inglesa

Vários clubes organizados, estádios lotados, forte consolidação institucional e mercadológica das marcas, projeção internacional. Nos últimos anos, a Premier League se transformou em algo além de um grande campeonato de futebol. Virou um grande negócio, que atraiu milionários com interesses duvidosos (Abramovich, Gaydamak, Shinawatra) e investidores profissionais. O que pode ser o caminho para uma crise.

O principal símbolo disso é o Liverpool. O clube passou para as mãos de Tom Hicks e George Gillet, norte-americanos que não têm nenhuma ligação especial com o futebol (no máximo, a passagem de Hicks como um dos donos da HMTF que fez parceria com o Corinthians e criou a PSN). O objetivo é investir para lucrar, como se faz em qualquer franquia profissional norte-americana.

Parte do plano dos norte-americanos era construir um novo estádio para os Reds. A taxa e ocupação de Anfield na Premier League é altíssima e dá a clara sensação e que a média de público (e a arrecadação em bilheteria) só não é maior por falta de assentos.

Foi por esse processo que passou – com sucesso – o Arsenal ao construir o Emirates e o Manchester United ao ampliar Old Trafford (estádio em que havia espaço físico para ampliações). O próprio Manchester United é exemplo da invasão norte-americana. Malcolm Glazer comprou os Reds depois de uma boa experiência como dono de time no Tampa Bay Bucaneers da NFL.

Entre os pequenos e médios da Premier League, também há casos de pesados investimentos efetivados ou projetados, mesmo que não tenha dinheiro norte-americano na parada. Tudo isso se sustenta em engenharias financeiras elaboradas.

E aí é que aparece o risco. Com a crise imobiliária que se transformou em crise de crédito que se transformou em crise financeira, a economia norte-americana está em um momento de vulnerabilidade extrema. Um cenário desse tem reflexos óbvios na economia mundial, sobretudo no sistema financeiro.

As incertezas do mercado já motivaram Hicks e Gillet a adiarem o plano de construção de um novo estádio para o Liverpool. O momento atual não recomenda investimentos tão longos e altos. O Manchester United teve um problema menor, por enquanto. A AIG, sua patrocinadora de camisa, ficou à beira do colapso, mas foi salva pelo governo dos Estados Unidos.

Com clubes que se transformaram realmente em empresas e seguem as regras de mercado, a Premier League cresceu, mas se tornou dependente desse mesmo mercado. Imaginar quebras generalizadas é radical demais. O realista seria prever uma retração em certo investimentos até a economia se estabilizar. Talvez os clubes que tenham mecenas sejam menos vulneráveis, o que não torna o panorama menos preocupante para a liga como um todo.

Ramos em risco

Dois pontos em sete rodadas. Falta muito para o Campeonato Inglês acabar, mas o desempenho do Tottenham até agora parece daqueles times que vieram da segunda divisão com a única missão de não ser humilhado demais antes do rebaixamento. Claro que é impensável imaginar que os Spurs continuarão nesse ritmo até a 38ª rodada, mas fica evidente como o início de trabalho tem sido cheio de equívocos.

O segundo clube mais popular e tradicional de Londres sente a total falta de um planejamento para a temporada. As ações no mercado foram incompreensíveis, com as vendas de jogadores como Berbatov e Robbie Keane, a prolífica dupla de ataque, para apostar em nomes como Modric, Pvlyuchenko e Corluka.

Ainda que os europeus-orientais tenham talento, é arriscado estruturar o time em jogadores sem experiência no futebol inglês. Para piorar, há falta de opções para certas posições (comando de ataque) e excesso em outras. Até os reforços se adaptarem, a equipe não encontra um padrão tático e vai colecionando tropeços.

A culpa aí é, em boa parte, de Juande Ramos. Ele imaginou que conseguiria, em White Hart Lane, repetir a fórmula de sucesso do Sevilla. Ou seja, contratar jogadores baratos e talentosos, dar oportunidade para eles crescerem e vendê-los, arrecadando o suficiente para realizar novos investimentos.

O técnico ignorou diferenças profundas que existem entre os clubes. O Tottenham não pode se dar ao luxo de esperar até o time crescer. Além disso, o futebol inglês tem um ritmo muito particular, que dificulta a adaptação de jogadores que vêm de fora, ainda mais se forem inexperientes.

Enquanto o Tottenham não balancear seu elenco, vai continuar patinando. O tempo pode fazer que os Spurs se acertem gradualmente, mas seria, no máximo, para fugir do rebaixamento. Assim, o clube passaria mais uma temporada longe da zona de classificação para copas européias. Uma situação que já chamou a atenção de torcedores e dirigentes, e que pode custar a Ramos seu cargo.
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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