Caso Manchester City: Os bastidores da descoberta e da culpa nas 114 acusações da Premier League
Depois de oito anos tratando as acusações da Premier League, City se vê diante de um veredito que pode transformar seu futuro
Durante anos, o Manchester City se comportou como se o processo que ameaçava seu passado não tivesse poder para determinar seu futuro. O clube continuou contratando jogadores, renovando contratos e acumulando troféus enquanto a Premier League investigava 115 acusações de violações financeiras.
Mesmo quando a audiência terminou, em dezembro de 2024, a vida seguiu praticamente como sempre. A sexta-feira, 25 de setembro de 2026, mudou isso.
Segundo informações de David Ornstein, do “The Athletic”, um painel independente considerou o Manchester City culpado em 114 das 115 acusações analisadas pela Premier League. O veredito ainda não representa a punição final: a sanção não foi determinada, o processo ainda possui etapas a cumprir e o City deve recorrer. Mas a dimensão da decisão, caso ela se mantenha, é muito diferente daquela que o clube imaginava quando começou a se defender.
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Manchester City construiu oito anos de história acreditando que o processo não mudaria nada
Em comunicado, afirmou que o procedimento da Premier League continua em andamento, que existem elementos importantes ainda por concluir e que sua posição permanece a mesma desde fevereiro de 2023. O City também questionou a independência e a imparcialidade da Premier League.
A história começou muito antes da acusação formal da Premier League. Em 2018, documentos publicados colocaram sob suspeita a maneira como o Manchester City financiava determinadas operações. O clube negou irregularidades e, ao longo dos anos seguintes, construiu uma estratégia baseada em contestar as acusações e questionar a forma como seus adversários e autoridades interpretavam as informações.
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O precedente mais importante para alimentar a confiança do City veio em 2020. A Uefa havia imposto uma suspensão de duas temporadas das competições europeias ao clube por violações relacionadas às regras de fair play financeiro, mas o Tribunal Arbitral do Esporte anulou a exclusão. A multa também foi reduzida.
Naquele momento, a sensação dentro do City era de que uma grande batalha jurídica havia sido vencida. Mas o caso da Uefa e o processo da Premier League não são a mesma coisa. O primeiro envolvia as regras e os procedimentos da entidade europeia; o segundo envolve um processo conduzido pela própria liga inglesa sobre um período muito maior e um conjunto muito mais amplo de acusações.
Quando a liga apresentou as 115 acusações, em fevereiro de 2023, o clube respondeu que recebia a oportunidade de apresentar “um conjunto abrangente de provas para limpar seu nome”. A audiência independente durou 12 semanas e terminou em dezembro de 2024. Desde então, passaram-se quase dois anos sem que o resultado fosse conhecido publicamente. Nesse intervalo, o comportamento do City não foi o de um clube se preparando para o pior.
Renovação de Haaland até 2034 é o símbolo de uma confiança do Manchester City
Nenhum movimento representa melhor essa sensação de segurança do que a renovação de Erling Haaland. Em janeiro de 2025, o norueguês assinou um contrato de nove anos e meio, válido até 2034, o mais longo da história da Premier League. O acordo foi anunciado enquanto o City aguardava justamente o resultado do processo sobre as acusações financeiras.
Haaland afirmou na época que não havia considerado as possíveis consequências de uma derrota judicial antes de assinar. Disse estar confiante de que o clube sabia o que estava fazendo. Guardiola também interpretou o contrato como um sinal da confiança do atacante no projeto.
Isso não significa que agora Haaland deixará o Manchester City, tampouco que exista uma cláusula automaticamente acionada por uma eventual punição. O ponto é que um jogador que assinou para permanecer até 2034 agora está vinculado a um clube diante de uma ameaça esportiva e financeira que, até sexta-feira, parecia muito mais abstrata.
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Haaland não é um caso isolado. O City passou os últimos anos construindo um elenco e uma estrutura empresarial como se a discussão jurídica fosse uma questão paralela. O clube continuou competindo, contratando e renovando seus principais jogadores. A consequência da notícia desta sexta-feira é justamente obrigar todos esses planos a serem revisitados.
Se a punição for pesada, a pergunta deixa de ser apenas quanto o City terá de pagar. Passa a ser como o clube continuará existindo no mesmo nível esportivo em que se estabeleceu nos últimos 15 anos.
O painel decidiu sobre as acusações, mas a punição é outra etapa. O The Athletic informou que todas as possibilidades estão sobre a mesa, desde uma enorme dedução de pontos até perda dos títulos conquistados no período. A Premier League, por sua vez, não confirmou publicamente o conteúdo do veredito.
E existe ainda uma camada adicional: possíveis disputas judiciais movidas por outros clubes que entendam ter sofrido perdas em razão das supostas irregularidades. O City também terá de lidar com o recurso. O clube já demonstrou no passado que está disposto a levar suas disputas até o limite das instâncias disponíveis, e a derrota diante do painel independente não encerra automaticamente sua capacidade de contestação. O processo pode continuar por bastante tempo.
O Manchester City nunca imaginou que precisaria pensar neste cenário
A notícia não encontrou um clube preparado para uma punição iminente, mas uma estrutura que, segundo o site inglês, foi surpreendida pelo resultado e que precisou reunir seus principais executivos poucas horas depois da publicação da reportagem.
Não se trata apenas de descobrir que uma acusação antiga pode resultar em uma multa ou perda de pontos. O Manchester City construiu seu planejamento esportivo e comercial durante anos sob a premissa de que conseguiria atravessar o processo sem que sua existência cotidiana fosse interrompida.
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Agora, pela primeira vez, precisa considerar o contrário. A punição ainda não foi definida e o processo ainda não terminou. Portanto, qualquer previsão sobre rebaixamento, perda de títulos ou desmanche do elenco seria prematura.
O Manchester City passou oito anos dizendo, em essência, que tinha argumentos suficientes para vencer a batalha. Agora, o painel independente responsável por analisar o caso rejeitou quase todos eles.
É por isso que o dia 25 de setembro de 2026 pode ser lembrado como um divisor de águas. Pela primeira vez em oito anos, o Manchester City precisa planejar o futuro sem poder assumir que tudo continuará exatamente como antes.