Futebol inglês

Por que o Big 6 da Premier League vive conflito com rivais menores fora de campo?

Mais ricos temem perder capacidade de gerar receita, enquanto liga estima que venda coletiva poderia elevar faturamento

Os seis clubes mais ricos da Premier League estão em rota de colisão com os demais integrantes do campeonato, segundo o jornal inglês “Telegraph”. Isso se dá por conta de um plano da liga para ampliar a venda coletiva de direitos comerciais.

A proposta prevê centralizar uma quantidade maior de propriedades publicitárias, especialmente os painéis de LED no perímetro dos estádios, para oferecê-las em grandes pacotes a patrocinadores. A Premier League entende que a estratégia poderia aumentar significativamente o valor dos acordos comerciais.

A estimativa é de que a receita anual gerada pela liga com esse tipo de exploração possa saltar de cerca de 200 milhões de libras para até 750 milhões de libras caso mais direitos atualmente controlados individualmente pelos clubes sejam incorporados aos pacotes coletivos. O problema é que Manchester United, Manchester City, Liverpool, Arsenal, Chelsea e Tottenham não estão convencidos de que o modelo seja vantajoso para eles.

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Briga do Big 6 com o resto da Premier League ultrapassa o campo

Os integrantes do Big 6 preferem manter maior controle sobre seus próprios ativos comerciais. Eles argumentam que uma venda centralizada pode restringir a capacidade de cada clube de aumentar seu faturamento por conta própria.

A discussão coloca novamente em evidência uma questão recorrente na Premier League: até que ponto os clubes mais ricos devem abrir mão de parte de sua capacidade individual de gerar dinheiro em nome de uma distribuição mais ampla dos recursos produzidos pela competição.

Atualmente, a Premier League já negocia diversas propriedades comerciais em nome dos 20 clubes. São mais de dez grandes parcerias corporativas, com empresas como Guinness, Coca-Cola, EA Sports e Microsoft, além de contratos relacionados a dados e à bola oficial da competição. Parte da publicidade nos estádios também é comercializada coletivamente, mas os clubes ainda controlam a maior parte dos espaços de LED e placas em seus próprios campos.

Manchester City de Maresca foi um dos times que mais gastou na última janela. Foto: IMAGO / News Images

Os números mostram por que a liga acredita que existe margem para crescimento. Segundo o “Telegraph”, nos repasses referentes à temporada 2024/25, a receita comercial da Premier League foi de 158 milhões de libras, dentro de um total de aproximadamente 2,8 bilhões de libras distribuídos aos clubes. Como essa verba comercial é dividida igualmente, cada equipe recebeu cerca de 7,9 milhões de libras.

A expectativa é de que os pagamentos referentes à temporada 2025/26, que devem ser divulgados em setembro, levem a receita comercial total para aproximadamente 200 milhões de libras. Para a Premier League, porém, o potencial seria muito maior caso ela pudesse vender um inventário mais amplo em nome dos 20 clubes.

É justamente nesse ponto que aparece a resistência do Big 6. Uma expansão da venda coletiva exigiria também uma discussão sobre a distribuição do dinheiro. Os clubes que possuem maior audiência, alcance internacional e capacidade de negociação dificilmente aceitariam receber exatamente a mesma quantia que equipes menores.

Nenhum acordo foi alcançado até o momento, segundo o jornal. O assunto foi discutido pelos clubes em fevereiro e novamente em junho, antes da Assembleia Geral Anual da Premier League, e deve voltar à pauta na próxima reunião de acionistas, marcada para 24 de setembro.

Disputa comercial se soma a briga por regras financeiras na Premier League

O Manchester United é um dos clubes que mais resistem à ampliação da comercialização coletiva. A preocupação é que qualquer mecanismo que transfira maior poder para a liga represente uma limitação à capacidade de aumentar receitas e, consequentemente, investir mais no futebol.

Em novembro, United, City e outros integrantes da competição se opuseram ao princípio de anchoring, que pretendia estabelecer um limite para os gastos dos clubes mais ricos com base no valor recebido pelo último colocado da liga. Pela proposta, o teto seria equivalente a 4,5 vezes o pagamento destinado ao 20º colocado.

154 jogadores da Premier League disputarão a Copa do Mundo 2026
Bandeira da Premier League (Foto: Mike Egerton / PA Images / Imago)

O mecanismo acabou rejeitado, reforçando a resistência dos clubes de maior faturamento a iniciativas que estabeleçam limites à diferença de poder financeiro dentro da Premier League.

Meses antes, seis dos 20 clubes também votaram contra o novo sistema de controle financeiro baseado no squad cost ratio (“proporção pelo custo do elenco”, em tradução literal). A regra, aprovada com 14 votos favoráveis, limita os gastos relacionados ao departamento de futebol a 85% das receitas dentro dos parâmetros estabelecidos pela Uefa.

A discussão sobre os direitos comerciais, portanto, é mais um capítulo de uma disputa maior sobre o futuro econômico da Premier League. De um lado, a liga busca explorar sua força como produto único para aumentar a receita coletiva. Do outro, os clubes mais ricos querem preservar a liberdade para transformar sua própria marca, torcida e alcance global em receitas adicionais.

A Premier League afirma que está trabalhando com os clubes para encontrar uma solução. A próxima reunião de acionistas, em 24 de setembro, pode ser mais um passo para definir até onde os interesses individuais dos gigantes ingleses podem ser conciliados com a tentativa de tornar ainda mais lucrativo o negócio coletivo da liga.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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