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Avram Grant: “O Chelsea não tem uma identidade no seu estilo de jogo”

O Chelsea de Roman Abramovich tem uma peculiaridade interessante: nas duas vezes em que chegou à final da Champions League, o treinador era um interino. Roberto Di Matteo foi quem venceu, mas o pioneiro foi Avram Grant, que assumiu ao fim do primeiro reinado de José Mourinho, em Stamford Bridge, e foi em frente até ser derrotado pelo Manchester United, nos pênaltis, em Moscow. Os rumos da vida levaram o israelense de 61 anos ao comando da seleção de Gana, que disputa, neste domingo, as quartas de final da Copa Africana de Nações contra a República Democrática do Congo.

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Mesmo vice-campeão europeu, Grant não continuou no Chelsea. Deu lugar a Luiz Felipe Scolari. É um dos 11 técnicos que treinaram a equipe desde que ela foi comprada por Abramovich. A constante dança das cadeiras no oeste de Londres tem um custo, segundo o técnico de Gana. “Eu acho que o problema é que o Chelsea não tem uma identidade no seu estilo de jogo”, disse, em entrevista ao The Guardian. “O Arsenal tem, Pep Guardiola tem, eles não. Eles querem comprar jogador e vencer títulos, mas não podem ter uma identidade porque trocam de treinador a cada um ou dois anos. Por outro lado, eles têm um diretor de futebol (Michael Emenalo) fazendo um bom trabalho, comprando bons jovens jogadores, então o time é fantástico, o mais equilibrado da Inglaterra”.

Grant dá os parabéns para Antonio Conte não apenas pelo grande trabalho que o italiano vem realizando na Premier League, mas também por ele ter mudado o seu estilo de jogo na hora certa. “Eu acho que ele começou (tentando) agradar os torcedores”, disse. “Jogou no 4-4-2, como ele nunca tinha feito em sua vida. Eu acompanhei toda sua carreira. Jogou com três na defesa na Juventus e teve ótimos resultados na Itália. Veio para o Chelsea e mudou: não mude sua personalidade”. Para Grant, alguns treinadores têm um estilo tão bem definido que não conseguem mudá-los. “Conte, Wenger, seu estilo de jogo não vai mudar e não é bom para eles que mude porque talvez eles não conheçam outro sistema. Eu acho que a melhor coisa que aconteceu para o Chelsea foi ter perdido por 3 a 0 para o Arsenal. Ele voltou para suas origens e começou a jogar em um sistema que também é bom para os jogadores”, afirmou.

O israelense conta que seu estilo de jogo foi muito influenciado pelo Liverpool dos anos setenta e oitenta, treinado por Bob Paisley e tricampeão europeu. Era um futebol de passes e posse de bola que havia sido introduzido pelo sucessor de Paisley, Bill Shankly, que revolucionou os métodos de treinamento no clube: muito trabalho de passe – sempre para a frente -, mini-jogos de cinco contra cinco e uma “caixa de suor”, onde os jogadores passavam até três minutos chutando a bola na parede para melhorar o domínio e a reação instintiva.

“A maneira como eles jogavam era inacreditável”, afirmou. “Eu acho que as pessoas não lembram, mas ele (Paisley) realmente mudou o futebol na Inglaterra. Ninguém jogava assim antes. Eles jogavam com a bola no chão, sem bolas longas, e venceram três Copas da Europa. Quando eu estive lá, assisti a todas as partidas e era incrível: tap, tap, tap, tap. Quando você fala em ‘tiki taka’, começou com eles. Quando eu trouxe Henk ten Cate para o Chelsea (como assistente), por que eu o levei? Ele passou pelo Barcelona e pelo Ajax. Eu disse: ‘Você toca o treinamento’. O método não era mais lançar bolas longas para Drogba”.

A primeira Copa Africana de Nações de Avram Grant, que passou por Portsmouth, West Ham e Partizan antes de assumir Gana, foi quase um sucesso: vice-campeão em 2015, com derrota para Costa do Marfim, nos pênaltis. Mais um segundo lugar na carreira do treinador – vice da Champions League, da Premier League e da Copa da Liga pelo Chelsea, e da FA Cup pelo Portsmouth -, que tenta colocar um pouco de mentalidade vencedora na cabeça dos seus jogadores.

“Você consegue mudar a mentalidade. Você vê isso várias vezes no passado. Jogadores que eram perdedores tornam-se vencedores. Você coloca ideias na cabeça deles. Em todos os lugares, executivos e outros. Por exemplo, quando cheguei aqui, dei vários exemplos sobre o Michael Jordan, Muhammad Ali. Como eles treinavam, o que comiam, como mudaram as coisas para chegarem ao topo. E isso ajudou muito. Os jogadores até me mandam mensagens com frases deles. E eu lhes disse que até Michael Jordan, até ter 25 anos, todos diziam que era um perdedor. Então o que aconteceu? Phil Jackson apareceu e o que ele fez? Ele não o ensinou basquete. Apenas colocou os macacos de sua cabeça no lugar certo. Eu disse uma vez a Drogba: ‘Na sua cabeça, você tem quatro macacos e três cadeiras. Vamos encontrar uma quarta cadeira”, encerrou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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