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Além da linha vermelha

Brendan Rodgers é a aposta do Liverpool para dar uma nova (e mais vencedora) cara ao time

Mudanças de hábitos requerem força de vontade, perseverança e, principalmente, desprendimento. Mas atenção: as bem sucedidas costumam vir acompanhadas também de um plano. Em sua estreia pela Premier League 2012-13, o Liverpool já sentiu na pele que a boa sacada de contratar Brendan Rodgers, responsável pela modesta equipe do Swansea ter causado alguma sensação no campeonato passado, pode demorar algum tempo até começar a dar resultado. Há de se considerar também, é claro, que o fracasso seja o destino desta união. Não que ela tenha nascido como um equívoco. Quantos casamentos você conhece que soavam muito promissores e acabaram em choro, gritos e ranger de dentes?

Ainda assim, a derrota contundente para o West Brom por 3 a 0 não serve como sintoma. É só o amargor da primeira colherada do remédio. Para quem conquistou a Europa em 2005, as últimas temporadas não devem ter sido apenas frustrantes, mas bem irritantes. Até porque a concorrência abriu vantagem. O Manchester United continua sempre brigando na ponta e o envelhecimento do elenco do Chelsea foi punido com… O sonhado título da Champions League, com direito a participações essenciais de alguns dos “senadores”. O Arsenal anda decadente, é verdade, mas tem se mantido nas primeiras colocações a duras penas, enquanto o Tottenham, ainda que oscilante, parece ter tomado jeito na vida. Para completar a desgraça, o Manchester City assaltou um banco. Ou quase isso.

Movido por uma séries de decisões erradas, o Liverpool desceu alguns degraus. Se o Everton não tivesse desenvolvido a sina de iniciar tão mal as temporadas, nem a certeza de terminar à frente do principal rival seria dada de antemão ao Liverpool. E quando um time acostumado a grandes conquistas começa a pensar demais no campeonato particular disputado com um coadjuvante, é porque a coisa desandou mesmo. Os americanos que compraram o clube até que abriram seus cofres na primeira temporada. Mas investiram errado em jogadores limitados como Henderson e Downing. O segundo que, sejamos justos, vinha de grande (e provavelmente enganosa) temporada pelo Aston Villa.

Ainda não dá para afirmar que os yankees só entendem de beisebol. Quem tira o Boston Red Sox de um jejum de 86 anos não está nessa vida a passeio. O plano B é bem pragmático e, por consequência, tipicamente americano: apostar em um estilo que vem dando certo e que foge um pouco da loucura do mercado de transferências. Não à toa, a Roma, também controlada por um fundo de investimentos dos Estados Unidos, ameaçou trilhar os mesmos passos. Luis Enrique, contratado junto ao Barcelona B, não conseguiu colocar sua revolução em prática na equipe italiana. Teve alguns bons momentos, mas seu time demonstrou fragilidade. Merecia uma segunda chance, até porque não é como se ele tivesse redimensionado a Roma. Ela já passeava por aquele limbo entre o topo e os medianos.

Imediatista, a Roma abortou a tentativa. Felizmente, não se voltou para um treinador metódico e retranqueiro. Optou, no entanto, por um porto seguro: Zdenek Zeman, que Braitner Moreira, o colunista do futebol italiano aqui na Trivela, definiu de forma sagaz como “o Dom Sebastião romanista”. Mas se era para apostar num treinador ousado e até meio irresponsável, por que ser tão conservador em jogar fora um bom projeto antes que ele se provasse realmente ruim? A resposta é simples: a familiariedade com o técnico tcheco traz um certo conforto. O estilo importado da Catalunha, não. No Liverpool, a tendência é de que o estranhamento se repita. Mas é aconselhável uma maior insistência na “barcelonização da equipe”. Até porque o porto seguro por lá seria Kenny Dalglish, uma cartada que acaba de ser queimada.

Primeiros passos
Brendan Rodgers e a frase clássica do Liverpool: desafio é casar tradição do clube com o estilo do técnico

Ver o Swansea estreando com uma goleada de 5 a 0 sobre o QPR acentua a dor da porrada tomada na estreia, mas deveria ser encarado como um bom sinal. Os galeses começaram mal a temporada passada e só aos poucos foram ganhando a fama de “Swansealona”. Qualquer troca de estilos demanda um tempo de adaptação. E se o modelo é o Barcelona, lembremos que a escola do tiki taka foi desenvolvida através das décadas, numa mistura de princípios catalães com influência holandesa. O problema é que é mais fácil colocar a estratégia em prática em um clube pequeno, sem estrelas, de quem não se esperava nada. Os figurantes da Premier League têm essa característica. Ou se destacam no bolo, ou passam batidos. Um exemplo foi o kamikaze Blackpool, que já se foi, mas deixou lembranças.

Para tirar o “Liverpoolona” do papel, muita coisa há de ser feita. Contra o WBA, a equipe mostrou um ótimo percentual de acerto de passes, o que já é um bom começo. Só que um futebol baseado na posse de bola não necessita apenas de que se saiba o que fazer quando ela está em seu domínio, mas também de tomá-la do adversário. O índice de desarmes apresentado esteve bastante aquém do razoável. A contratação de Joe Allen e Borini, atletas acostumados à linha de pensamento de Rodgers, ajuda. Mas não resolve. Como você vai convencer um Gerrard de que o recém-chegado galês deve servir de modelo para ele? E cabe o alerta: Borini tem alguma qualidade, mas pode virar um novo Bojan se for depositada nele uma confiança exagerada.

Por fim, o que deveria ser o começo de tudo: Luis Suárez, que na Copa de 2010 despontou como promessa de craque, precisa continuar sendo perigoso, mas passar a aliar isso com mais efetividade. Ou seja, deve continuar atazanando os defensores adversários, mas precisa marcar mais gols. Quando Torres foi vendido ao Chelsea, a aposta era na substituição do espanhol por uma dupla. Mas como Carroll ainda não disse a que veio e pouco se encaixa na nova filosofia da equipe, o atacante uruguaio vai ter de se acostumar com a ideia de resolver sozinho. Um diferencial técnico pode apagar incêndios, como provou Van Persie no Arsenal de 2011-12. E no caso específico dos Reds, pode servir de escudo para os tempos complicados que virão.

Ninguém vira Barcelona da noite pro dia. Ninguém vira sequer um Swansealona na calada da noite. O sabor das próximas colheradas do remédio escolhido pode até incomodar menos, mas tirará o apetite de muitos torcedores. E, se brincar, de alguns jogadores também, já que a caminhada até os títulos pode ser longa demais para quem tem uma carreira relativamente curta. A aposta feita pelo Liverpool é interessante, mas deixar o tratamento pela metade implica em aceitar que a bactéria que atacava o clube se crie novamente. Mais forte do que já foi um dia, desenvolvendo uma incômoda resistência a mudanças, mesmo àquelas que venham bem a calhar.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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