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A história de Lee Johnson, o ex-morador de rua que teve sua vida salva pelo Everton

São poucos os clubes que têm uma relação estreita com a comunidade como o Everton. Em 1988, os azuis de Liverpool, já conhecidos por desempenharem nobres projetos sociais na região de Merseyside, resolveram criar um departamento dentro do clube chamado Everton in the Community. A proposta e a prática desde então têm sido as de fornecer amparo a pessoas com necessidades especiais, que tenham condições financeiras extremamente vulneráveis entre outros problemas através do esporte e de outras atividades. E um dos grandes símbolos do sucesso que é esse programa de compromisso com a sociedade é Lee Johnson, um homem que teve sua vida salva graças aos Toffees, como ele mesmo diz.

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Johnson é um ex-morador de rua. Viveu quase 20 anos vagando pela cidade de Liverpool, dormindo em locais sujos, enfrentando temperaturas baixíssimas e, infelizmente, não podendo pertencer a lugar algum. Isso sem mencionar a parte mais triste dessas quase duas décadas em que passou sem teto: as drogas, que foi o desencadeador de tudo. Sua história, no geral, é bastante melancólica. E isso vem lá de trás, com Lee tendo uma infância difícil por ter que presenciar seus irmãos sofrendo com problemas de saúde. Ele, no entanto, como muitas pessoas, encontrava no futebol a sua paz. O seu refúgio da realidade em que estava inserido.

Torcedor do Everton desde pequeno, Lee costumava ir aos jogos no Goodison Park acompanhado de seu pai quando era apenas um garoto. “Eu sentava nos assentos mais altos do estádio e pensava: ‘é isso que eu quero fazer. Eu adoraria trabalhar com futebol um dia’. Eram momentos muito felizes para mim. O futebol era uma grande parte da minha vida”, ele contou em artigo publicado no site oficial do Everton ano retrasado. Aos 12 anos, porém, sua ingenuidade e seus sonhos de menino foram tomados. Foi nessa idade em que Johnson foi apresentado às drogas e ao álcool, e a partir de então veio o vício. Com 16 anos, ele já havia experimentado de tudo, mas foi a heroína quem mais o derrotou e o afastou de amigos, familiares e do mundo como um todo.

“Eu fui um sem teto por 18 anos. Dormi em albergues, em galpões, em pontos de ônibus, em portas de estabelecimentos. Essa era minha vida”, recordou Lee, antes de relembrar que encontrou uma oportunidade de recomeçar há sete anos. Em 2010, ele conheceu o Whitechapel Centre, a principal ONG focada em caridade a pessoas que vivem em situação de rua de Liverpool, e, posteriormente, foi apresentado ao Everton in the Community, já que era um apaixonado por futebol e, sobretudo, pelos Toffees. Johnson começou a participar das sessões de instrução do programa do clube azul de Merseyside, das atividades voltadas para suas necessidades, e foi recebido de braças abertos pelo Everton, que passou a ampará-lo financeiramente ao ceder moradia ao rapaz.

Nos últimos anos, a dedicação de Lee, sua vontade e a força que ele mostrou que tinha para tentar dar a volta por cima o transformaram na maior representação do que é Everton in the Community. Hoje, com a vida transformada, mas ainda em uma batalha diária, já que sua saúde mental foi afetada pelo uso frequente e prolongado das drogas, ele é voluntário no departamento do clube que visa ajudar a comunidade. Seu papel desde então tem sido prestar auxílio emocional a pessoas com demência e em situações parecidas com a que viveu por tantos anos. Ele também restabeleceu seu relacionamento com sua família e de vez em quando faz visitas Whitechapel Centre, onde seu caminho para a redenção começou, para bater uma bolinha com outros ex-moradores de rua.

“Olhando para a maneira como as coisas aconteceram, a realidade é que o clube que eu sempre torci ajudou a salvar minha vida”, admitiu Lee em uma reportagem publicada esta semana sobre sua história. “As pessoas do Everton me ajudaram a ficar de pé novamente. Não tenho certeza se alguém teria sido capaz de fazer o que fizeram por mim. Não há muitas coisas que eu amo, mas eu amo o Everton e isso faz toda a diferença”, declarou em uma de suas falas publicadas no Joe.co.uk.

A história de Johnson é a marca registrada desse lado caridoso e preocupado com a comunidade que tem os Toffees, mas está longe de ser a única que tem um impacto gigantesco na vida de pessoas que passam por problemas, sendo elas torcedoras do clube ou não. É sempre muito legal ver quando uma agremiação entende que seu papel pode e deve se não se resumir às suas funções relacionadas ao esporte. Afinal, o futebol, que é o ponto forte do clube nove vezes campeão inglês, pode ser o catalisador de grandes mudanças na sociedade e na vida de quem busca visibilidade e procura por um recomeço.

Foto de Nathalia Perez

Nathalia Perez

Jornalista em formação trabalhando a favor de um meio esportivo mais humano. Meus heróis sempre foram jogadores de futebol, mas hoje em dia são muito mais heroínas.

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