A geografia das principais ligas: Inglaterra

O Campeonato Inglês passou por uma verdadeira revolução ao longo dos últimos vinte anos. A temporada 1991/92 encerrou o ciclo da Football League como principal torneio, substituída pela Premier League e suas ideias que visavam modernizar o futebol local. A era do hooliganismo nos estádios chegavam ao fim, abrindo os cofres para as cifras que tornaram a liga na mais lucrativa competição nacional do planeta.
Em 15 de abril de 1989, a morte de 96 pessoas no estádio de Hillsborough, em Sheffield, antes do início da partida entre Liverpool e Nottingham Forest pela FA Cup, cindiria uma época no futebol inglês. A partir do Relatório Taylor, elaborado para melhorar as condições nos estádios após a tragédia, é que a Premier League foi fundamentada. Com ela, os lucros dos clubes foram consideravelmente alimentados a partir da década de 1990, através dos direitos de transmissão do torneio e de patrocínios cada vez mais explorados.
Concomitante à transformação conceitual, a distribuição dos clubes também sofreu alterações significativas. Se os times da região metropolitana de Londres representavam um terço da primeira divisão em 91/92, hoje este papel central é desempenhado pelo entorno de Liverpool e Manchester. Além disso, no início dos anos 1990, as equipes eram mais bem distribuídas na extensão territorial da Inglaterra. Sete das nove divisões regionais contavam com participantes. Já na atual disputa, os clubes se concentram em apenas cinco regiões, mais o País de Gales, que emplacou um time na elite pela primeira vez desde a temporada 1982/83.
A divisão regional na Inglaterra
A principal repartição do território inglês foi oficializada em 1994 e utilizada em um papel administrativo pelo governo local até meados de 2011. São consideradas oito regiões (North East, North West, Yorkshire and the Humber, East Midlands, West Midlands, East, South East e South West), além da Grande Londres.
As diferenças mais significativas, no entanto, estão compreendidas em uma comparação entre Norte e Sul do país. As cidades do sul, exceção feita à Londres, possuem menor concentração populacional. Já o norte, juntamente com as “terras do meio” (as Midlands), conta com sete das dez principais áreas urbanas do país – algo que pode ser explicado principalmente pela industrialização acelerada na região a partir do século XVIII.
O papel dos operários
A concentração urbana no norte do país acabou influenciando a origem dos clubes ainda na segunda metade do século XIX. Apesar de nascido nas universidades, o futebol rapidamente se tornou um esporte operário. A expansão do futebol em cidades industriais é fácil de perceber quando se nota os primeiros participantes da Copa da Inglaterra, no início da década de 1870, majoritariamente times de estudantes baseados nas proximidades de Londres. Cerca de quinze anos depois, a situação já havia mudado de panorama, com o sucesso de clubes firmados no centro-norte do país, impulsionados após a profissionalização do esporte, em 1885.
A fundação do Campeonato Inglês, três anos depois, contou apenas com equipes profissionais das regiões de West Midlands, East Midlands e North West. Birmingham, no coração do país, era a cidade mais ao sul. Já a capital Londres, com poucos clubes profissionais estabelecidos até então, não tinha um participante sequer. A situação demorou nada menos que 16 anos para se reverter. O primeiro clube a quebrar a barreira entre norte e sul, foi o Arsenal, em 1904. Nos cinco anos seguintes, Chelsea e Tottenham também apareceriam na elite, juntamente com o Bristol City, de South West.
Como era em 1991/92
Logicamente, a situação não era a mesma de um século antes, mas a preponderância de muitos times do centro-norte permanecia no Campeonato Inglês. Dos 22 times, nove se distribuíam entre North West, East Midlands e West Midlands, além de outros três virem de Yorkshire and the Humber.
Destas, a mais importante era North West, representada pelos rivais de Liverpool e Manchester, além do Oldham Athletic. West Midlands, região de Birmingham, via seus clubes em decadência e só contava com dois times na elite, Aston Villa e Conventry City. As forças eram complementadas por duas equipes de East Midlands, além de outras três de Yorkshire.
No sul, Londres viveu a expansão do futebol profissional ao longo das primeiras décadas do século XX, sobrepondo a tradição dos times formados estudantes. Como maior metrópole do país, a capital contava com sete representantes. As outras regiões sulistas, porém, permaneciam com pouca representatividade. Norwich City e Luton Town faziam número por East, enquanto Southampton era o símbolo do South East.
Como é em 2011/12
Londres e outras regiões do sul viram seu papel decair após a criação da Premier League e hoje só contam com seis participantes, sendo cinco deles clubes da capital. Na contramão, o centro e o norte ampliaram a sua participação, ainda que Yorkshire e East Midlands não sejam representados. North West e West Midlands viram o ressurgimento de muitos clubes fundadores da Football League. Já o North East também reapareceu, com Newcastle e Sunderland.
Swansea City, um ponto fora da curva
Antes de explicar o atual jogo de forças entre norte e sul, o Swansea merece um capítulo só seu. O fato de um galês disputar o Campeonato Inglês pode causar estranheza, mas é explicado pela criação da liga galesa, surgida apenas em 1992/93, quando muitos clubes locais participavam de diferentes divisões na Inglaterra. Todos foram convidados ao novo torneio e seis deles declinaram: Swansea, Cardiff City, Wrexham, Newport County, Colwyn Bay e Merthyr Town. Dezenove anos depois, enfim, os cisnes demonstram o acerto na decisão.
As metrópoles e o peso da camisa
A região predominante no futebol inglês atual é a de North West, das cidades de Liverpool e Manchester. Dos cinco representantes em 1991/92, o território chegou ao seu mínimo em 1999/00, quando apenas Man Utd, Everton e Liverpool disputavam a elite – a recessão vivida durante os anos 1980 afetou boa parte dos pequenos. O jogo só começou a mudar quando os clubes como Blackburn (ainda em 1991), Bolton e Man City passaram a contar com gestões racionais e, em alguns casos, com o investimento privados. O Wigan, caso à parte, teve ascensão quando foi comprado por Dave Whelan, empresário do ramo de artigos esportivos.
Caso parecido aconteceu em West Midlands, que saltou de dois para quatro participantes em duas décadas. O Aston Villa seguiu firme como bandeira de Birmingham, segunda maior metrópole da Inglaterra. Mas, recentemente, ganhou a companhia de Stoke City, Wolverhampton e West Brom, fundadores da Football League que marcam presença na elite após as crises vividas entre os anos 1980 e 1990.
Mais ao norte, sem nenhum clube em 1991/92, North East contou com a estabilidade de Newcastle, Sunderland e, anteriormente, do Middlesbrough. Por outro lado, as equipes de Yorkshire e East Midlands não tiveram a mesma sorte com suas administrações. O Leeds não controlou gastos e entrou em declínio a partir de 2004. Da mesma forma, as crises financeiras derrubaram times como Nottingham Forest, Derby County, Sheffield United e Sheffield Wednesday.
Na região de Londres, somente os tradicionalíssimos Arsenal e Tottenham, além do renascido e turbinado Chelsea, se sustentaram na elite. De resto, a capital viu a decadência de Wimbledon e Queens Park Rangers (que só agora emerge novamente), bem como o sobe-desce de West Ham e Crystal Palace. Ao menos o Fulham, impulsionado desde que foi comprado pelo milionário Mohamed Al-Fayed em 1997, fez o caminho contrário, tornando-se figura carimbada na Premier League.
Já os outros territórios do sul viveram de sucessos esporádicos. South West só apareceu uma vez desde a criação da EPL, com o Swidon Town, em 1993/94. South East ostentou certa representatividade, mas viu o Southampton se afundar em suas gestões e o Portsmouth falir. Por fim, os clubes vindos da região de East nunca tiveram aporte necessário para permanecer muito tempo na primeira divisão, especialmente depois da queda do Norwich City, maior clube local, em 1996.
E, ainda que muitos times do centro-norte lutem contra o rebaixamento na atual temporada, a tendência é a de que o norte siga o seu domínio nos próximos anos. Mesmo 11 dos 24 clubes na segunda divisão, o sul só conta com quatro times na metade de cima da tabela – entre eles, o líder e o vice-líder, os tradicionais Southampton e West Ham. Em um império edificado pelas indústrias, ao menos no futebol a influência e a tradição das cidades operárias prevalecem.
Clubes em 1991/92
North East – nenhum
North West – Oldham Athletic, Everton, Liverpool, Man City e Man United
Yorkshire and the Humber – Leeds, Sheffield United e Sheffield Wednesday
West Midlands – Aston Villa e Coventry City
East Midlands – Notts County e Nottingham Forest
South West – nenhum
South East – Southampton
East – Norwich City e Luton Town
Londres – QPR, Arsenal, Tottenham, West Ham, Wimbledon, Crystal Palace e Chelsea
País de Gales – nenhum
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Clubes em 2011/12
North East – Newcastle e Sunderland
North West – Bolton, Wigan, Everton, Liverpool, Man City, Blackburn e Man United
Yorkshire and the Humber – nenhum
West Midlands – Wolverhampton, West Brom, Aston Villa e Stoke City
East Midlands – nenhum
South West – nenhum
South East – nenhum
East – Norwich City
Londres – QPR, Arsenal, Tottenham, Chelsea e Fulham
País de Gales – Swansea City



