A escola de Alex Ferguson

O anúncio da contratação de Paul Ince pelo Blackburn, nesta semana, foi muito comentado na Inglaterra. O motivo principal é racial: Ince será o primeiro negro inglês a dirigir um time da Premier League. No lado técnico, porém, outra coisa chama a atenção. Ele é o quarto treinador atual da primeira divisão inglesa a ter sido treinado por Alex Ferguson.
Hoje, dirigem equipes da primeira divisão Steve Bruce (Wigan), Roy Keane (Sunderland), Mark Hughes (Manchester City) e Paul Ince (Blackburn). Somando o próprio Ferguson, um quarto dos ‘managers’ da Premier League estava no Manchester United em 1994. Sim, o mais curioso é que os quatro ex-jogadores mencionados chegaram a atuar simultaneamente nos Red Devils: Hughes, Bruce e Ince estiveram juntos por seis anos, entre 1989 e 1995. Keane é mais recente, tendo jogado no United a partir de 1993 (até 2005).
A esse grupo, pode-se juntar ainda mais um nome: Bryan Robson, cujo último trabalho na Premier League foi à frente do West Brom, em 2006. Robson está longe de ser um bom técnico, mas os outros ‘discípulos’ de Ferguson têm retrospecto razoavelmente bom. Mark Hughes é um dos treinadores mais bem cotados do momento: foi muito bem no País de Gales e no Blackburn, e agora chega ao endinheirado Manchester City. Steve Bruce não chegou a alcançar feitos muito notáveis, mas em geral fez campanhas sólidas na metade de cima da segunda divisão e na metade de baixo da primeira. Roy Keane e Paul Ince têm carreiras muito curtas, mas só acumulam sucessos até o momento.
Assim, fica evidente a importância de Ferguson para o futebol inglês. Além de ser um ícone do Manchester United, ele ainda vem sendo o mais importante nome na formação de técnicos e jogadores britânicos nas últimas duas décadas.
O desafio de Ince
Falando especificamente da contratação de Ince pelo Blackburn, vale a pena discutir o que se pode esperar do mais novo técnico da Premier League. Primeiro, porém, um comentário sobre a questão racial. Embora a contratação de Ince tenha inegável valor simbólico, a importância dela enquanto marco histórico é bem reduzida. Afinal, a Premier League já teve dois técnicos negros: Ruud Gullit (Chelsea e Newcastle) e Jean Tigana (Fulham). Além disso, também já houve britânicos negros dirigindo times de primeira divisão, na Escócia: é o caso de John Barnes, no Celtic. O que nunca havia acontecido era um negro inglês na primeira divisão inglesa.
Não podemos deixar que o marco da raça reduza o mérito de Paul Ince. Em sua carreira curta de treinador (não chega nem a duas temporadas completas), o ex-meia só colheu sucessos. Em seu primeiro trabalho, pegou um patético Macclesfield, que se encontrava na lanterna da quarta divisão, a sete pontos do penúltimo colocado, e salvou a equipe do rebaixamento. No segundo, levou o Milton Keynes Dons (ex-Wimbledon) ao título da League Two, ganhando também o Johnstone’s Paint Trophy (torneio do qual participam times da terceira e da quarta divisão).
Embora sua experiência seja curta – e toda construída na quarta divisão –, o carisma e o retrospecto vitorioso (como técnico e como jogador) de Ince justificam sua contratação por um time de médio porte como o Blackburn. E justificam o fato de ele ter superado candidatos como Steve McClaren, Sam Allardyce, Michael Laudrup e Henk Ten Cate.
Ince, porém, terá um desafio enorme pela frente, já que seu antecessor, Mark Hughes, conseguiu excelentes resultados à frente da equipe. Além disso, dois dos principais jogadores do time, David Bentley e Roque Santa Cruz, já expressaram seu desejo de deixar os Rovers. Se demorar para se acertar, Ince começará a ser contestado e corre o risco de ser demitido sem ter a oportunidade de demonstrar todo seu valor.
É hora de rever a temporada (parte 3)
Seguimos com o nosso balanço time a time da temporada 2007/8 na Inglaterra. Nesta semana, comentamos o ano de Liverpool, Manchester City e Manchester United.
Liverpool
Destaque: Fernando Torres
Classificação final: 4º lugar (76 pontos – classificado para a Liga dos Campeões)
Resultados na Europa: eliminado nas semifinais da Liga dos Campeões pelo Chelsea
FA Cup: eliminado nas oitavas-de-final pelo Barnsley (2ª divisão)
League Cup: eliminado nas quartas-de-final pelo Chelsea
A temporada 2007/8 trouxe mais do mesmo para o Liverpool: bons resultados na Liga dos Campeões e decepção no Campeonato Inglês. Só que, desta vez, as coisas foram um pouco diferentes. O time saiu-se um pouco melhor na Premier League e um pouco pior na LC.
Na verdade, é inegável que a temporada foi decepcionante. No comecinho, os Reds até ameaçaram brigar pelo título do Inglês. Mas lá pela 10ª rodada já estava claro que, mais uma vez, a equipe não conseguiria peitar Manchester United e companhia. No final, o Liverpool conseguiu fazer oito pontos a mais que na temporada passada, mas mesmo assim acabou só no quarto lugar. Sem o campeonato, sobrou a Liga dos Campeões, onde os Reds chegaram até a semifinal. Nessa etapa, não repetiram o feito de anos anteriores e perderam para o Chelsea, em um dos confrontos mais interessantes da temporada.
Vale lembrar, também, que a temporada do Liverpool foi bastante atrapalhada pela briga do técnico Rafa Benítez com os donos da equipe – e, depois, pela briga entre os dois donos. Apesar disso, a equipe até que mostrou um bom futebol, mais seguro e atrativo do que o de temporadas anteriores. Ou seja, houve sinais de evolução. Mas, de concreto, nada. Além disso, fica uma incógnita para o futuro, já que a posição de Benítez está longe de ser segura.
Nota da temporada: 5
Manchester City
Destaque: Richard Dunne
Classificação final: 9º lugar (55 pontos – classificado para a Copa Uefa pelo Fair Play)
FA Cup: eliminado na quarta fase pelo Sheffield United (2ª divisão)
League Cup: eliminado nas quartas-de-final pelo Tottenham
A temporada do Manchester City foi a mais surpreendente dentre todos os times da Premier League – tanto para o bem quanto para o mal. A surpresa começou com a contratação do respeitadíssimo Sven Goran Eriksson e se manteve até a demissão do mesmo Eriksson, após o final da temporada.
A maior surpresa do campeonato, sem dúvida, foi o fato de o Manchester City ter chegado à liderança na terceira rodada, com 100% de aproveitamento. Até quase a metade da competição, a equipe se mantinha perto dos líderes e tinha motivos para sonhar com uma vaga na Liga dos Campeões. No caminho, ganhou bem do Manchester United – conseguiu até fazer uma dobradinha sobre o arqui-rival, coisa que não acontecia há 38 anos.
Acontece que, na segunda metade da temporada, a vaca foi para o brejo. Se, no primeiro turno, o time fez 35 pontos (nível de uma equipe que briga pela Liga dos Campeões), no segundo fez apenas 20 (nível de uma equipe que briga para não cair). Jogadores que arrebentaram no começo da temporada, como Elano, simplesmente desapareceram, e o City só conseguiu a vaga na Copa Uefa – que, até meados do campeonato, parecia mais que certa – graças ao obscuro ranking do Fair Play. No último jogo, a equipe ainda sofreu a humilhação de ser goleada por 8 a 1 pelo Middlesbrough.
A queda de rendimento foi considerada inaceitável pelo impaciente dono Thaksin Shinawatra. Algumas rodadas antes do fim do campeonato, já estava claro que Eriksson seria demitido – o que, de fato, acabou acontecendo. Para todos, ficou uma forte sensação de injustiça. Afinal, é melhor ter voado alto e caído, como fez o City, do que ficar na mediocridade do meião da tabela que inicialmente se esperava da equipe.
Nota da temporada: 7
Manchester United
Destaque: Cristiano Ronaldo
Classificação final: campeão (87 pontos – classificado para a Liga dos Campeões)
Resultados na Europa: campeão da Liga dos Campeões
FA Cup: eliminado nas quartas-de-final pelo Portsmouth
League Cup: eliminado na terceira fase pelo Coventry (2ª divisão)
Planejamento irretocável, execução irretocável, resultado final irretocável. A temporada do Manchester United foi um sucesso absoluto. Faltou só a conquista da FA Cup – torneio para o qual os Red Devils não deram a menor importância – para o time de Alex Ferguson repetir a Tríplice Coroa de 1999.
O engraçado é que o time não começou a temporada muito bem. O United fez só dois pontos nos três primeiros jogos, e os mais afobados já começaram a querer falar em ‘crise’. Mas, depois, vieram oito vitórias seguidas, que colocaram a equipe na briga pela liderança – que só foi alcançada pela primeira vez na 19ª rodada.
Na Liga dos Campeões, o Manchester não foi brilhante, mas passou com facilidade pela primeira fase e depois eliminou com autoridade Lyon, Roma e Barcelona no mata-mata. A decisão, contra o Chelsea, foi dramática, mas acabou com vitória do melhor time, nos pênaltis.
Sem dúvida, o nome da temporada foi Cristiano Ronaldo. Embora o português tenha sido meia-boca nos momentos-chave, ele foi simplesmente inacreditável durante a maior parte do ano. No entanto, o sucesso do United não se deve somente a ele, mas sim à consistência do elenco, forte em todas as posições e com excelentes reservas em quase todas elas. Mérito de Alex Ferguson, que mais uma vez monta um time vencedor. E os adversários podem se preocupar, já que a maioria das estrelas do United ainda é bem jovem.
Nota da temporada: 10



