A cara do time

O símbolo histórico do Arsenal pré-Wenger é Tony Adams, como sabe quem leu “Fever Pitch”. Um zagueirão voluntarioso, porradeiro, forte, enfim, um zagueirão inglês. Que faria a zaga inteira dos Gunners de hoje corar de vergonha se o assunto fosse “presença”.
A zaga do Arsenal no final de semana contra o Chelsea foi Sagna, Clichy, Koscielny e Squillaci. Chama a atenção o comentário feito por um deles durante a semana dando conta de que, quando o goleiro não está envolvido na conversa, os defensores conversam em francês. Fico imaginando Tony Adams pedindo sivuplê para o Clichy marcar direito.
Além da questão linguística e cultural geral – mais da metade do time que entrou em campo no sábado foi de francófonos –, há uma questão de cultura futebolística. A totalidade dos jogadores do Arsenal tem a habilidade como característica. Squillaci e Koscileny podem no futuro formar uma zaga excelente, ainda que sem a virilidade de Adams. Fica claro, porém, que o Arsenal de 2010 não é o de 1990. São times diferentes.
Imaginemos agora que Wenger pedisse o boné e voltasse para a França. Poderiam os Gunners substituí-lo, por exemplo, por Adams, que hoje é técnico? Poderiam, mas o time perderia tempo voltando a ser o que sempre foi, certo? Pois é o que acontece com o Liverpool nesse momento.
Rafael Benítez chegou a Anfield em 2004/5. Substituiu o francês Gerrard Houllier. A equipe que encontrou, entretanto, embora tivesse tentativas de “wengerização” (no caso, jogadores habilidosos e leves, e não jovens), era basicamente um time do Liverpool.
O espanhol demorou pouco para mandar todo mundo embora e forrar o elenco de jogasdores “à la Benitez”. Só não mandou Gerrard embora porque o meia não quis. E logo ganhou, nada menos que a Liga dos Campeões. Com um time que, pode-se dizer, não era ainda moldado ao que queria. Mas ganhou.
Foi tudo, porém. O Liverpool depois disso gastou muito, contratou mal, e nunca chegou de fato perto de se estabelecer como postulante ao título. Com a crise, o espanhol foi despachado, mas sua herança permanece. E não é exatamente uma herança wengeriana.
Não se trata das dezenas de espanhóis meia-boca que os Reds tiveram, estes quase todos despachados de lá. Mas da mudança de uma cuktura futebolística profunda para outra, ou melhor, para a ausência de uma. Benítez nunca soube o que queria que seu Liverpool fosse, e foi isso que determinou seu fracasso. Com o qual Roy Hodgson agora tem que lidar.
Hodgson fez um Fulham excelente, e inglês em suas tradições. Um time tabalhador, disciplinado, coeso, sem estrelas. Como eram os grandes liverpools e arsenals do passado, com a adição de um ou dois foras-de-série. Só que os fora-de-série eram sempre britânicos.
Ninguém duvida que a mudança cultural do Arsenal veio para o bem, ainda que o time não ganhe nada há tempos. Os Gunners são hoje referência de futebol bonito por causa da revolução promovida por Wenger. Quando o francês sair, a equipe poderá optar por contratar alguém que tenha a mesma linha, e seguir o trabalho; ou voltar ao velho estilo, sabendo que isto causará uma ruptura.
O Liverpool não teve essa alternativa. Não há ninguém que tenha o “rstilo Benítez” justamente porque é um estilo que não existe. Hodgson certamente sabia disso antes de chegar, e não é por outro motivo que, discretamente, reformulou a base do elenco.
O problema é que além de faltar padrão falta dinheiro. O clube está quebrado, à venda, e Benítez só comprou um jogador que tem bom valor de revenda, Torres, que passa 90% da temporada no estaleiro.
Dias difíceis para o Liverpool. É, porém, muito provável que a segunda metade da temporada seja bastante diferente da primeira. Em todos os aspectos.



