Holanda

Zwolle e Groningen: objetivos diferentes na final da Copa da Holanda

O Campeonato Holandês já está praticamente definido no que interessa: o PSV já é o campeão, o Ajax já garantiu o vice-campeonato, o Dordrecht já está condenado à lanterna e ao rebaixamento direto… logo, por mais que ainda haja algumas coisas a serem decididas nas duas rodadas finais, a pausa da Eredivisie, neste fim de semana, não causa ansiedade.

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E não causa ansiedade, entre outras coisas, porque a final da Copa da Holanda promete ter a emoção que o encerramento de temporada regular não proverá. Desde 2008/09, quando Twente e Heerenveen decidiram o torneio, a final realizada anualmente no De Kuip, em Roterdã, não tinha apenas equipes médias/pequenas do futebol holandês. É o que acontecerá no próximo domingo, entre Zwolle e Groningen.

O elemento mais importante é a diferença de objetivos entre os dois finalistas da KNVB Beker. De volta ao lugar em que viveu o ponto alto de seus quase 105 anos de história, o Zwolle tentará com todas as forças o bicampeonato. Não só para provar que o ocorrido em 2013/14 não foi algo que ocorre uma vez na vida e outra na morte, mas também para dar o que provavelmente será um fecho honroso neste que é, provavelmente, o melhor momento da história do clube.

Afinal de contas, quando os Dedos Azuis conquistaram o título da segunda divisão, em 2011/12, esperava-se que cumprissem o papel regular de clube pequeno na Eredivisie: brigar para não cair ou, no máximo, aspirar a um lugar no meio de tabela. Conseguir uma vaga em play-offs para a Liga Europa, então, já seria algo a ser comemorado com pompa e circunstância.

De certa forma, foi exatamente o que aconteceu nas duas temporadas completas até agora. Na Eredivisie, os Zwollenaren conseguiram por duas vezes o 11 º lugar – abaixo do meio da tabela, mas longe da zona de rebaixamento. A coisa começou a mudar a partir de 2013, quando Art Langeler, o técnico do acesso, deixou o clube rumo à coordenadoria das categorias de base do PSV.

O substituto foi Ron Jans, técnico experimentadíssimo em equipes médias da primeira divisão. E foi justamente ele que conseguiu montar uma equipe bastante ajeitada taticamente. Fugindo do 4-3-3 velho de guerra, Jans protegeu a defesa, por meio do 4-2-3-1. O que potencializou o crescimento de jogadores rápidos, que soubessem atacar e voltar rápido para a marcação, como o volante Kamohelo Mokotjo e o ponta esquerda Mustafa Saymak.

Serviu para que a defesa ganhasse solidez, por meio das atuações sérias dos zagueiros e dos laterais, francamente defensivos. Serviu para que a equipe garantisse a permanência na Eredivisie. E serviu, acima de tudo, para chegar à final da Copa da Holanda, que não era alcançada pelo clube desde a temporada 1976/77. Se fosse só isso, já seria um sonho (e a coluna até abordou isso). Ganhar do Ajax era inimaginável para os habitantes de Zwolle.

Pois o inesperado fez a surpresa – ou melhor, fez O CRIME. A final de 19 de abril de 2014 foi confusa, é verdade, incluindo turbulências da torcida do Ajax, sinalizadores jogados no gramado etc. Mas nada apaga as atuações estupendas de Guyon Fernandez e Ryan Thomas, que aproveitaram a lentidão da zaga Ajacied naquela final para fazerem 5 a 1 e ganharem o título ansiado na Copa da Holanda, enlouquecendo a torcida e impressionando o mundo – a Trivela incluída nisso.

Já teria sido ótimo para a torcida se o Zwolle parasse por aí. Mas não parou. A temporada atual consegue ser ainda melhor para os Dedos Azuis. Começou com a Supercopa da Holanda, ganha novamente sobre o Ajax, em plena Amsterdam Arena. Continuou com uma temporada honrosa na Eredivisie: a equipe chegou a ocupar a terceira posição, ganhou do PSV no primeiro turno, empatou com o Ajax duas vezes…

Paralelamente, foi caminhando na Copa da Holanda. Na semifinal, contra o Twente, fora de casa, chegou a abrir o placar, no final do segundo tempo… para tomar o empate. 120 minutos terminados, a decisão se deu nos pênaltis. E os Zwollenaren não se acovardaram: superaram os anfitriões nas cobranças (4 a 2) e avançaram à segunda final consecutiva na KNVB Beker. De quebra, mesmo com leve queda no Campeonato Holandês (ocupam a sétima posição), já se garantiram acima do 11º lugar. Simplesmente a melhor posição do clube em sua história na liga.

Isso aconteceu não só porque grande parte do elenco da temporada passada foi mantida, mas também pelas contratações precisas. Não havia mais Mokotjo, vendido ao Twente? Vieram Thomas Lam, do AZ, e Ben Rienstra, do Heracles Almelo: dois volantes jovens, bastante esforçados na marcação. O que só ajuda os pontas rápidos, Jody Lukoki e Saymak – este, remanescente de 2014 -, a ajudarem o atacante isolado na frente. Por sinal, este atacante é outro grande reforço: o tcheco Tomas Necid, primeiramente emprestado junto ao CSKA Moscou, depois comprado em definitivo.

E os bons reforços continuaram. Não havia mais o goleiro Diederik Boer, nascido e criado futebolisticamente no Zwolle? Chegou Warner Hahn, goleiro cedido pelo Feyenoord por uma temporada, que cresceu bastante neste fim de temporada. Também houve Trent Sainsbury, volante australiano que chegou anônimo ao Zwolle e virou titular. No clube e nos Socceroos, que tiveram nele figura destacada no título da Copa da Ásia, neste ano – Sainsbury, inclusive, foi eleito o melhor jogador da final.

Claro, tudo tem seu preço. No caso dos Dedos Azuis, literalmente: o clube já sofre com as dívidas, e o time que tanto alcançou nas últimas duas temporadas deverá ser desmontado. Hahn voltará ao Feyenoord; Sainsbury, Necid e o meio-campista Ryan Thomas deverão ser vendidos; o zagueiro Maikel van der Werff já está acertado com o Vitesse. A reconstrução caberá a Ron Jans. Por sinal, figura fundamental nos últimos tempos da história do… Groningen.

Porque Jans é um símbolo da solidez que também anda no clube alviverde do norte holandês. O técnico lá ficou por oito anos, entre 2002 e 2010, levando uma equipe pequena a tornar-se média e ter uma sequência de boas participações, incluindo atuações em Copa Uefa. Depois, a equipe sofreu um pouco. Sob Pieter Huistra, não fez lá muita coisa; sob Robert Maaskant, quase caiu, na temporada 2011/12. Foi hora de apostar em Erwin van de Looi, treinador da equipe de aspirantes.

Eis que o treinador também foi beneficiado por um elemento sempre presente na história do Groningen: a procura por novos talentos. Basta lembrar que os irmãos Koeman (Erwin e Ronald) e Robben surgiram no clube. Que Luis Suárez teve no “Orgulho do Norte” a sua primeira parada europeia, antes do Ajax. E que Daley Blind passou uma temporada ali, emprestado pelo mesmo Ajax, ganhando experiência.

E a busca por novatos ou anônimos teve bons resultados, de novo. Vieram o goleiro Sergio Padt, surgido na base do Ajax, que teve algumas ótimas atuações durante a temporada; o volante dinamarquês Simon Tibbling; e os rápidos pontas Jarchinio Antonia e Mimoun Mahi, que tiveram destaque em momentos diferentes da temporada.

Com tais reforços, os Groningers obtiveram uma equipe tão sólida quanto a do Zwolle – e bem mais ágil no ataque, com muitas jogadas pelas pontas e atacantes de área que se alternam bem com os pontas-de-lança (caso de Tjaronn Chery e Michael de Leeuw, os destaques da equipe na temporada). Na defesa, além de Padt, há o zagueiro brasileiro Eric Botteghin, dos melhores defensores da Eredivisie.

Assim, o Groningen reafirmou-se como um “clube médio”. Não passa nem perto de aspirar ao título holandês ou coisa assim, mas também sofre pouquíssimo com o risco de rebaixamento, sendo frequente na parte de cima da tabela, participando várias vezes dos play-offs por vaga na Liga Europa. E agora, tem na Copa da Holanda a chance de voltar a conquistar um título – com direito a apoio ostensivo de Arjen Robben aos jogadores, a partir de vídeos motivacionais (como o exibido na semifinal, contra o Excelsior) e de fotos nas quais o jogador do Bayern Munique aparece com a camisa do clube.

De um lado, o Zwolle querendo se despedir do melhor momento de sua história com um bicampeonato impensado e impressionante. Do outro, o Groningen tendo uma porta aberta para voltar a conquistar um título e estar novamente numa competição europeia. Motivação para ambos, não falta.

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