Holanda

República das bananas. Brasil? Não, Holanda

Sempre que se quer reclamar da péssima mania de ver tudo no Brasil ser empurrado para debaixo do tapete, sem investigações aprofundadas (e não só no futebol), costuma-se dizer que esta é a “república das bananas”. Pois bem, na sexta-feira passada, muitos jornalistas holandeses dedicados ao futebol traduziram a expressão: “bananenrepubliek”.

Tudo como referência ao final surpreendente – pelo menos, por enquanto – da polêmica que levara à recomendação do rebaixamento do Twente à segunda divisão. Como tal parecer viera da comissão de licenças da KNVB, a federação holandesa, tudo levava a crer que o clube de Enschede fracassaria no recurso impetrado à própria federação. Pois aconteceu o contrário: na instância final, a comissão jurídica da mesma entidade decidiu que os Tukkers estavam salvos, e disputarão normalmente o Campeonato Holandês da próxima temporada. Sem perda de pontos.

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Em nota divulgada por meio de seu site, a decisão foi explicada com este início: “Em dezembro de 2015, a comissão de licenças decidiu que o FC Twente só poderia manter a licença caso estivesse completamente quitado com os problemas do passado”. Mas foi a continuação da nota que irritou imprensa e torcidas adversárias: “Nos meses posteriores, seguiram-se mais informações sobre esse passado. A conclusão da comissão jurídica é que, após a decisão de dezembro, o FC Twente já conseguiu limpar completamente seu nome, e que as informações descobertas desde então são uma consequência disso. Por essas razões, a comissão não as incluirá na decisão sobre a manutenção ou não da licença do FC Twente”. Aí, vinha o golpe fatal: “Mesmo assim, a comissão punirá quatro erros cometidos entre dezembro de 2015 e maio de 2016 com uma multa. Dada a gravidade, e o caráter repetido dos erros, a comissão decidiu dar para cada erro a multa mais alta possível, de 45.250 euros, resultando numa multa total de 181 mil euros”. Obviamente, a nota também confirmava o rebaixamento do De Graafschap – que já caíra dentro de campo, derrotado na fase final da repescagem para o Go Ahead Eagles.

Bastou a divulgação da nota, às 14h do horário holandês de sexta passada (9h no horário de Brasília), para a torrente de protestos ter início. Principalmente de jornalistas. Repórter do diário “De Volkskrant”, Willem Vissers foi claro, em reportagem: “O Twente usou dinheiro, e sabia que esse dinheiro provavelmente não lhe pertencia. Agora, não terão propriamente uma punição. Tudo bem, tem a multa de 181 mil euros. Mas não será uma punição propriamente dita. E não acho isso certo”.

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Freek Jansen, da revista “Voetbal International”, foi lacônico em seu perfil no Twitter: “Que teatrinho…”. Em conversa comigo no Twitter, Joost de Jong, correspondente do jornal “Algemeen Dagblad” no Rio de Janeiro, descreveu a razão da irritação: “É dizer: podem fraudar o que quiserem, que a multa será só de 180 mil euros. Não tem como entender”. Repórter e colunista do jornal “Algemeen Dagblad”, Sjoerd Mossou foi irônico no Twitter com os torcedores do Twente, obviamente comemorando a decisão: “De coração, Tukkers; não me encham o saco nunca mais, agora. A quadrilha trapaceou por tanto tempo, e vai escapar assim. Foi a melhor atuação desde o título da Eredivisie em 2010”.

Ao diretor técnico do De Graafschap, Peter Hofstede, só restou a surpresa diante da decisão inesperada pela manutenção do Twente: “Primeiro, há uma decisão da comissão de licenças. E eu entendi que ali havia gente que sabia do assunto e havia se aprofundado na questão. Mais tarde, isso é ressaltado pela justiça comum. Aí, vem a comissão jurídica da federação, onde eu achei que também havia pessoas inteligentes. Muito me surpreende quando dizem que a comissão de licenças fez tudo errado. Ficamos 27 dias reféns [da decisão]. Não havia definição se jogaríamos na Eredivisie ou na Eerste Divisie (segunda divisão). Nós não esperávamos, acho que ninguém esperava”.

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Quando esta coluna comentou a decisão da federação sobre o rebaixamento, há um mês e quatro dias, os comentários apontaram a dificuldade de compreensão de posicionamento do colunista. E a reação unanimemente contrária à decisão da federação me dá subsídio para esclarecer: a KNVB errou duplamente. Primeiro, ao decidir punir o Twente com o campeonato já encerrado, e os play-offs contra o rebaixamento já em disputa. Depois, ao não impor a punição mais dura prevista em regulamento ao Twente (a perda da licença profissional, forçando o clube a recomeçar, na quarta divisão, amadora). Afinal de contas, regra é – ou era – regra. Tentando uma terceira via (manter a licença, mas rebaixar o clube à segunda divisão), a entidade quis evitar as consequências pesadas que viriam, como a alteração do resultado final: com a licença cassada, o Twente teria cancelados os resultados da temporada 2015/16, e isso daria o título ao Ajax.

Só que ao fazer isso, a federação apenas causou mais dores de cabeça. Primeiro, porque o Twente exagerou em sua reclamação: na apelação, alegou-se até que o clube da cidade de Enschede “iria à falência” caso tivesse de disputar a segunda divisão, já que não teria dinheiro para continuar saneando as finanças. Depois, porque agora o De Graafschap é que entrará com recurso contra a federação – mesmo sem direito de fazer isso, rebaixado que foi no campo. E finalmente, pela decisão desastrada de minimizar a punição ao Twente: mesmo que o resultado dentro de campo tenha sido mantido (bem ou mal, a equipe garantiu a permanência em campo), toda a fraude nos balanços será repreendida com uma reles multa de 181 mil euros. Pronto. Coisa leniente demais, para os padrões do futebol europeu.

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Enfim, o diretor esportivo do Twente, Onno Jacobs, pode se aliviar: “Agora, podemos encerrar esse capítulo feio e colocar uma pedra em cima dele”. Esportivamente, porém, o clube sabe que esta será uma temporada de reconstrução, como reconheceu o técnico René Hake na volta aos treinos, nesta semana: “A meta será permanecer na Eredivisie”. Para que se tenha uma ideia, o destaque Hakim Ziyech nem mesmo esteve com o resto do elenco: afinal, sabe-se que sua saída será uma possível salvação da lavoura.

Todavia, a impressão é que só o Twente tem algo a comemorar. Impressão descrita perfeitamente nas palavras do ex-jogador (do próprio clube, aliás) Youri Mulder, hoje comentarista: “É uma novela enorme, e a KNVB pode assumir a culpa”. Mais do que isso, Joost de Jong sintetizou perfeitamente: “Se algo com o Twente acontecesse aqui no Brasil, diríamos que é a república das bananas. Escapar com uma dívida desse tamanho é absurdo”.

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