Que começo!
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As partidas contra a Turquia (próximo sábado, no Rei Balduíno, em Bruxelas) e Estônia (próxima quarta, em Tallinn) não têm a menor utilidade para a seleção da Bélgica, no aspecto competitivo. Afinal, os Diabos Vermelhos já não têm chance de se classificar para a Copa de 2010. Entretanto, o que se viu nos treinamentos para os dois jogos, válidos pelas Eliminatórias, apontou para um futuro, no mínimo, interessante.
A razão é que Dick Advocaat começou o seu trabalho impondo respeito. Ainda que indiretamente, o “Pequeno General” mostrou que não deixou o Zenit apenas para fazer um trabalho burocrático. De certo modo, o começo de seu trabalho indica que a geração de jogadores que esteve na Copa de 2002 pode ver seu fim, de modo até forçado. Mais ou menos como Marco van Basten fez na vizinha Holanda, após a Euro 2004 – curiosamente, torneio em que Advocaat foi o comandante da Oranje, e dando a última chance a gente como Kluivert, Seedorf e os irmãos de Boer.
Também não deixa de ser contraditório o fato de Advocaat ter convencido Marc Wilmots a ser seu auxiliar na comissão técnica. Além de ser um dos principais nomes da equipe que esteve no Japão, em 2002 (é, só no Japão: a Bélgica não jogou nenhuma vez na Coreia do Sul, naquele Mundial), o ex-atacante criticara abertamente a federação belga – e era um dos grandes concorrentes do holandês na disputa pelo comando da seleção.
Entretanto, o convite aceito por Wilmots nem é um ponto tão nevrálgico na mudança de paradigma que se apresenta, mostrando até uma qualidade de Advocaat, ao reconhecer que os opositores podem ajudá-lo: o técnico assumiu que chamou Wilmots, por precisar de alguém que tivesse histórico respeitável na seleção, além de saber falar francês, idioma no qual Advocaat não é fluente.
Duas ausências importantes
O fato que mostrou a crescente possibilidade do fim de uma era na Bélgica veio logo na convocação para os jogos contra turcos e estonianos: Advocaat deixou Timmy Simons de fora de sua relação. Simplesmente o capitão da seleção. O fato de ignorar um jogador com 74 partidas ostentando a camisa vermelha foi traumático a ponto do técnico ter admitido: “Não tenho o hábito de telefonar para jogadores que não foram convocados, mas falei com Simons, por respeito a ele. Desejei mais sucesso em seu clube, mas é lógico que ele não gostou.”
Analisando a questão de modo racional, a ausência é justificada. Simons não é mais titular indiscutível, no PSV, e Vermaelen, seu substituto no posto, merece a braçadeira, tanto pelo espírito de liderança, perceptível desde os tempos de Ajax, quanto pelo ótimo começo no Arsenal. Porém, pelo modo como imprensa e torcida reagiram, o espanto foi grande. Mais do que isso: é lícito imaginar que a saída de Simons tenha significado um sinal concreto de que “as coisas mudaram”.
Como mudaram também entre os goleiros. Mesmo presente entre os três jogadores chamados para a posição, Stijn Stijnen começou a ver que não seria mais o número 1 indiscutível, após Advocaat declarar: “Não acho que ele é o titular absoluto da seleção. Há três goleiros, e todos eles estão perto da vaga. Um pode ser bom em um aspecto, e outro pode ser bom em outro. Ainda não posso dizer quem é o melhor.”
Perdendo esporadicamente a titularidade no Club Brugge para o veterano Geert de Vlieger, sendo criticado por algumas atuações, visto como um jogador temperamental e ameaçado pelos outros dois convocados, Logan Bailly e Jean-François Gillet, Stijnen tomou uma decisão controversa: alegando a velha razão de privilegiar os jogos pelo clube, e até alfinetando a nova comissão técnica, o goleiro aposentou-se da seleção belga.
Em meio à confusão, sobrou até para o treinador de goleiros, Franky Vandendriessche: por ter revelado que Stijnen não era mais o titular, em entrevista ao diário “Het Laatste Nieuws”, Vandendriessche foi dispensado da comissão técnica, por suposta quebra de confiança. E saiu alegando não compreender a razão de sua demissão: “Não sabia que goleiros Advocaat chamaria. Ele nem me ligou para comunicar, só disse que eu não precisava mais aparecer.”
Depois da(s) tempestade(s), espera-se a bonança
Resolvidas as questões envolvendo Simons e Stijnen, a Bélgica chegou para os treinos, em Diegem. E enfrentou mais problemas: os cortes de Igor de Camargo e Wesley Sonck, por contusão, e a recusa da convocação por Mehdi Carcela-Gonzalez, que havia sido chamado pela primeira vez, mas disse ainda não estar definido se seguirá carreira profissional na seleção belga ou na de Marrocos.
Outra questão, menor, foi a primeira “saia-justa” causada pelo código de conduta imposto por Advocaat para os jogadores da seleção. Todos teriam de se apresentar com meias pretas. E Marouane Fellaini, justamente o jogador mais conhecido desta “nova geração” que deve tomar as rédeas em definitivo na Bélgica, chegou com meias brancas. Claro, foi mandado de volta ao vestiário, para vestir-se como os outros.
Enfim, entre marchas e contramarchas, Advocaat iniciou seu trabalho com tudo, tentando mostrar que não será mais um técnico a passar sem sucesso pela Bélgica, como foram Aimé Anthuenis e René Vandereycken. Sejam quais forem os resultados nestas últimas partidas das Eliminatórias, o sentimento foi expresso perfeitamente na frase que Jan Vertonghen disse ter ouvido do novo comandante, em preleção: “Tudo começa do zero, novamente.” A Bélgica espera pela Euro 2012.