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PSV x Ajax: enfim, chegou a esperada decisão da Eredivisie

Não chega a ser um domínio tão acachapante quanto o do mais “novo” (tetra)campeão francês, o Paris Saint-Germain, 25 pontos à frente do Monaco na Ligue 1. Mas está claro, desde o começo de 2016, que PSV e Ajax monopolizam a disputa do título do Campeonato Holandês desta temporada. Nas últimas rodadas, ambos encarregaram-se de erigir uma distância considerável para os outros 16 participantes da Eredivisie. O PSV segue na primeira posição, com 65 pontos; o Ajax segue acossando os Boeren, com 64; e o Feyenoord, na terceira posição, vem com… 43. A 22 pontos.

Se antes, era comum falar em “trio de ferro” no futebol holandês, há pelo menos 15 anos é mais apropriado falar em “duo de ferro”. Sim, houve o solavanco no domínio do trio, com os títulos de AZ e Twente no fim da década passada. Mas a reação do Ajax, que o levou ao tetracampeonato, restabeleceu o domínio quase monopolista da dupla. E a temporada atual confirma isso à perfeição. Nada mais lógico, portanto, que a espera ansiosa pelo clássico entre líder e vice-líder do Holandês, neste domingo, no Philips Stadion, às 12h45 (horário de Brasília), pela 27ª rodada do campeonato. Aqui cabe o clichê: é “a decisão do campeonato”.

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Aliás, a rodada passada até se encarregou de prover mais expectativa para o jogo. Primeiro, o PSV repetiu contra o Heerenveen uma dificuldade já vista nas duas rodadas anteriores: enfrentando equipes bem postadas defensivamente (ADO Den Haag, na 24ª rodada; Groningen, na 25ª), demorara para superá-las definitivamente, só confirmando as vitórias contra ambos – 2 a 0 no ADO Den Haag, 3 a 0 no Groningen  – no segundo tempo. Contra o Fean, a equipe de Eindhoven não conseguiu a mesma coisa: parou na compactação dos visitantes no primeiro tempo, e saiu atrás no início do segundo. Depois empatou, mas não saiu desse 1 a 1, que poderia lhe ter tirado a liderança.

Para isso, bastava o Ajax ter vencido o NEC, no domingo passado. Obviamente, os Ajacieden jogaram no ataque. Mas a velha fragilidade defensiva da equipe não conseguiu conter a técnica razoável da equipe de Nijmegen. Que puniu os mandantes na Amsterdam Arena com requintes de crueldade: vencendo por 2 a 1, e com o jogo nas mãos, o Ajax permitiu um contra-ataque aos 37 minutos do segundo tempo. Bastou: o lateral direito Todd Kane saiu veloz, e cruzou para o venezuelano Christian Santos cabecear firme, decretando o 2 a 2 que frustrou os Amsterdammers.

Ainda assim, a vantagem do PSV na liderança diminuíra para um ponto com os resultados. E não custa lembrar: na temporada passada, mesmo com os Eindhovenaren já havia muito tempo na rota do título, o Ajax superou-os em Eindhoven mesmo, fazendo 3 a 1. E o desenvolvimento das duas campanhas na temporada deixa claro: o que se verá não é somente a disputa da primeira posição do campeonato nacional. É a disputa de dois estilos táticos diferentes, que podem muito bem simbolizar a encruzilhada em que vive o futebol holandês em seu momento atual.

No PSV, Phillip Cocu mostra ter aprendido muito bem as lições que a Oranje deixou (forçada pelas circunstâncias, é verdade) na Copa do Mundo passada. Mesmo que sua equipe siga no 4-3-3 velho de guerra, a postura dela é francamente defensiva, de espera pelo adversário. Se havia alguma dúvida sobre isso, ela foi dissipada no jogo de volta contra o Atlético de Madrid, pelas oitavas de final da Liga dos Campeões: Cocu não teve dúvidas em escalar os Boeren num 5-3-2 jamais visto na equipe, nesta temporada.

O resultado foi (quase) o melhor possível. O Atleti teve a bola, criou mais chances, mas não as aproveitou. Principalmente porque a defesa dos visitantes foi perfeita em Madri. Jeffrey Bruma, Héctor Moreno e Nicolas Isimat-Mirin não erraram um bote, uma intervenção, pelo alto ou por baixo. O entrosamento no miolo de zaga dos PSV’ers impressiona – para este que vos escreve, impressiona ainda mais a evolução técnica de Bruma, antes um zagueiro com mais pose do que nível técnico. E mesmo se o trio falhasse, havia o goleiro Jeroen Zoet, numa das melhores atuações de sua carreira, deixando para trás a irregularidade vista nesta temporada. Bem disse o ex-arqueiro Stanley Menzo: “Zoet não é melhor do que Cillessen, mas está chegando perto”.

Enfim: chamando os Colchoneros para o ataque, o PSV os segurou, deu grande temor à torcida da casa no Vicente Calderón, só caiu na disputa de chutes da marca dos pênaltis… teve a mais honrosa das eliminações (embora a história de “sair de cabeça erguida”, seja história repetida e enjoativa no futebol holandês). Contudo, também ficou clara a dificuldade para criar jogadas. Andrés Guardado foi bem, é fato. Mas nem Davy Pröpper, nem Marco van Ginkel conseguiram êxito na aceleração – inviabilizando, pois, maior aparição de Luuk de Jong (que nem nível técnico tem para criar jogadas vindo de trás). Essa lentidão ofensiva, caso faltem os espaços para contra-atacar, pode ser perigosa para o PSV.

E pode ser perigosa principalmente pela clara melhora do Ajax na temporada. Na parte ofensiva, é claro o crescimento de produção de alguns jogadores. Se Amin Younes segura demais a bola na esquerda, também é verdade que passou a ser mais perigoso fazendo isso. No meio da área, Arkadiusz “Arek” Milik talvez viva seu melhor momento no Ajax: basta dizer que desde Luis Suárez e Marko Pantelic (2009/10), nenhum jogador do clube passara dos 13 gols na temporada, e o polonês já tem 15. Vindo do meio-campo, Davy Klaassen também brilha: comanda a armação, chega à área para finalizar, lidera a equipe… enfim, talvez o capitão Ajacied tenha alcançado o ponto de maturidade necessário para pensar em jogar num centro maior da Europa.

Outro nesse estágio é Riechedly Bazoer: nem parece ter 19 anos, tal a calma com que desarma e a habilidade na saída de bola, no meio-campo. E até a defesa do Ajax, baqueada pelas perdas dos lesionados Kenny Tete e Jaïro Riedewald, se remontou com relativo sucesso, já que Joël Veltman e Mike van der Hoorn não estão mal – sem contar o crescimento de Mitchell Dijks e a segurança conhecida de Jasper Cillessen. Porém, mesmo que tenha adotado mais cuidados ofensivos após o vexame na Liga dos Campeões e a queda não muito melhor na Liga Europa, o Ajax é uma equipe ofensiva acima de tudo. Contra a eficiência do PSV nos contragolpes, pode ser prejudicial.

Seja como for, o fato é que PSV e Ajax não só monopolizam o domínio no futebol holandês (como sempre…), mas também trazem uma nova geração que deverá servir de base para a nova fase do trabalho de Danny Blind na seleção. Prova disso são os jogadores dos dois times pré-convocados para os amistosos da Oranje contra França e Inglaterra, na próxima semana [nesta sexta sai a relação definitiva]: Cillessen, Zoet, Bruma, Veltman, Dijks, Willems, Bazoer, Klaassen, Pröpper, Locadia, Narsingh e Luuk de Jong. Cabe a essas equipes provarem seu domínio com um bom jogo, neste domingo. E também tentando melhor papel em competições continentais, na temporada 2016/17, porque o futebol holandês precisa desesperadamente disso. A Bélgica já ultrapassou-o, no índice de coeficientes da Uefa. Turquia, Suíça e República Tcheca estão à espreita.

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