Holanda

Podia piorar, e piorou

“O futebol belga viveu dias difíceis esta semana.” Assim iniciava-se esta coluna, em 9 de maio do ano passado, quando, ainda escrita por Leonardo Bertozzi, falava de um período em que a Bélgica viu suspeitas de corrupção envolvendo apostas no resultado do jogo entre Sint-Truiden e Anderlecht e a morte de François Sterchele, atacante do Club Brugge, vítima de um acidente de carro.

Pois bem, Sterchele virou apenas a lembrança de um atacante promissor, e não se foi atrás da suspeita. Mas o clima no futebol belga voltou a ficar péssimo, nesta semana. A repercussão da lesão de Marcin Wasilewski, no clássico entre Standard Liège e Anderlecht, mantinha o país numa onda de desânimo, como se a entrada infeliz de Axel Witsel houvesse atingido a todos os jogadores. E o desalento foi ampliado com as atuações pífias dos Diabos Vermelhos nos jogos pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, que praticamente sepultaram as chances de ida à Copa.

Evidentemente, vencer a Espanha, em La Coruña, era uma hipótese otimista demais. Mas esperava-se um desempenho digno, pelo menos, para que ficasse provado a Dick Advocaat, o novo técnico, que o time mantinha o espírito de reagir nas eliminatórias para a Euro 2012, plano da federação. O que se viu no gramado do estádio Riazor foi exatamente o contrário: um time para o qual “apático” seria um adjetivo ainda leve, sem a menor condição de repelir os poderosos ataques espanhóis (ainda mais em dia abençoado da dupla do Valencia, Villa e Silva) e esquálido no ataque.

Estreante na seleção, o goleiro Jean-François Gillet, do Bari, teve performance digna, incluindo um pênalti defendido, em cobrança de Villa. Mas não conseguiu fazer milagre, e a cena que marca o desastre que foram os 5 a 0 impostos pela Furia fica no terceiro gol: aos cinco minutos do segundo tempo, apenas um após Silva fazer 2 a 0, rápido contra-ataque colocou Gerard Piqué na cara do gol. Três zagueiros, incluído aí o capitão Timmy Simons, tentaram dar o combate em Piqué. Que já mandara a bola para as redes de Gillet. 3 a 0 – e a trinca no chão, desorganizada, derrotada.

Restava ainda a Armênia, em Yerevan. Mesmo fora de casa, era um rival que oferecia mais chances de ser superado do que a poderosa campeã europeia. E os Diabos Vermelhos até começaram dando essa impressão. Porém, não demorou muito para o ritmo diminuir, ainda no primeiro tempo, e os donos da casa crescerem de produção. O que culminou com o gol de Goharyan, que abriu o placar, aos 23 minutos.

No segundo tempo, o marasmo belga continuou. Aturdida, a defesa novamente protagonizou o símbolo do revés, ao deixar que Sargis Hovsepyan iniciasse jogada individual, passando por cinco jogadores, chegando à área e tocando na saída de Gillet para fazer 2 a 0, no início do segundo tempo – cinco minutos, como no gol de Piqué supracitado. Van Buyten, pelo menos, diminuiu para 2 a 1, no fim. Mas a derrota já era inevitável. Também desalentado, Franky Vercauteren abriu caminho para a antecipação do início do trabalho de Advocaat, anunciando sua saída do cargo de treinador logo após a derrota para os armênios. Pior: o holandês ainda não deu respostas sobre eventual aceitação, ainda que seja a intenção da federação.

Vercauteren tentou, mas não conseguiu entregar a seleção belga em boas condições para o “Pequeno General”. Empatou um jogo e perdeu quatro. E, na volta para casa, os belgas veem uma Jupiler League que prossegue assombrada. A ponto de Ariël Jacobs, técnico do Anderlecht, ter antecipado que será sua última temporada como treinador, tal o trauma causado pelas lesões de Wasilewski e Jan Polak: “Pela segunda vez em minha carreira, fiquei sem dormir na noite de domingo para segunda. A primeira fora quando meus filhos estiveram seriamente doentes. O fato de todos terem falado de Wasilewski, e esquecerem a lesão de Polak, me entristece ainda mais.”

É nessa situação que está o futebol belga. Fica o desafio de tentar juntar os cacos, salvar uma geração que, apesar dos pesares, vê talento em seus atletas, ainda, e tentar evitar que a decadência notável do esporte no país seja irreversível, fazendo com que só reste lembrar as eras de Ceulemans, Scifo, Van der Elst, Gerets, Pfaff, Preud'homme…

Nascem algumas estrelas

O ambiente do Hampden Park era temível. A Holanda teria um desafio considerável, caso quisesse encerrar sua participação nas Eliminatórias com cem por cento de aproveitamento. Mesmo pegando uma Escócia enfraquecida e desfalcada, o time de Bert van Marwijk teria importante teste, num ambiente adverso, em que a animada torcida do Tartan Army mantém empolgação ininterrupta.

E o jogo manteve-se truncado, sem muitas chances, até os 36 minutos do segundo tempo. Foi quando um atacante, que entrou no lugar de Robben, aproveitou corte errado de David Weir para chutar às redes de David Marschall (que substituía o titular Craig Gordon), salvando a campanha irretocável da Oranje nas Eliminatórias e confirmando, pelo menos por enquanto, o status de revelação que ganhou. A coqueluche do futebol batavo, atualmente, é Eljero Elia.

Mas não é só. Inegavelmente, Elia consegue manter as atuações satisfatórias do Twente, em um bom começo no Hamburg. Mas, junto a ele, surgem novos nomes capazes até de entrarem na lista dos 23 que irão à África do Sul. Necessário contra a Escócia, já que Stekelenburg lesionou um dedo, Michel Vorm satisfez no gol. Quase cometeu uma falha no segundo tempo, mas já protagonizara ótima defesa em chute de Kenny Miller, na etapa inicial. Com sua escalação também no amistoso contra o Japão, o goleiro do Utrecht consolida seu nome como um dos prováveis três goleiros da Oranje na Copa. Com a volta de Van der Sar (quando seria o terceiro arqueiro) ou sem a volta (quando seria reserva imediato de Stekelenburg).

E, mesmo que Ooijer também tenha sido razoável contra os escoceses, o número de jogadores no setor de defesa volta a dar uma variedade bem-vinda a um setor tão carente de segurança. Titular no amistoso contra o Japão, Glenn Loovens foi seguro. Não deve entrar na equipe por muitas vezes, mas virou um nome a ser considerado. No Feyenoord, impulsionado pelas grandes atuações da defesa, com somente um gol sofrido no início da Eredivisie, Ron Vlaar parece reencontrar o nível que quase o levou a Copa já em 2006.

Trabalho principal feito, Van Marwijk tem salvo-conduto para fazer todas essas experimentações sem colocar uma classificação em risco. O futuro do futebol holandês agradece.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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