Holanda

Os bons perdedores

Na casta de clubes “médios com aspirações maiores” que começa a se criar no futebol holandês, aproveitando a organização interna que vão atingindo e os tropeços dos clubes grandes, o time que conseguiu despontar primeiro foi o AZ (que conseguiu seu objetivo principal, ainda que a duras penas, como se lerá logo mais). No embalo do novo campeão nacional, outras equipes também começam a querer dar o salto que os fará mais respeitadas domesticamente.

No entanto, além de o domínio do AZ na Eredivisie desta temporada não ter dado espaço a mais ninguém, a irregularidade e alguns maus resultados em sequência foram minando a chance de alguns clubes conseguirem mais do que provavelmente terão ao final do campeonato, isto é, a participação no play-off para decidir uma vaga na preliminar da Liga Europa – caso de, provavelmente, Groningen, NAC Breda, NEC e Utrecht.

Dois clubes, no entanto, podem se considerar bem sucedidos na tarefa de exercer maiores dores de cabeça em relação ao Trio de Ferro. Mesmo que não tenham conseguido desempenho respeitável o suficiente para, efetivamente, sonharem com o título nacional, Twente e Heerenveen chegam ao fim da temporada com relativa segurança na zona dos quatro primeiros colocados, que têm vaga direta nos torneios europeus.

Mais do que isso: ambos chegam à final da KNVB Beker, a Copa da Holanda, prometendo uma boa partida no De Kuip, em 17 de maio. Jogando de modo francamente superior aos adversários das semifinais (o Twente eliminou o NAC Breda por 3 a 1, enquanto o Heerenveen passou pelo Volendam por 2 a 0), pode-se dizer que a taça ficará em boas mãos, qualquer que seja o vencedor. Além disso, o troféu seria um bálsamo para minorar a ligeira frustração de, mesmo com um desempenho regular no Holandês, ainda não ter sido desta vez que ambos conseguiram dar o salto dado pelo AZ.

Mesmo com a frustração de ver encerrada uma série invicta tão respeitável quanto a do AZ na última rodada – a derrota para o Feyenoord, fora de casa, pôs fim a 18 jogos sem derrota -, o Twente continua merecendo o segundo lugar que atualmente ocupa. E não apenas pelo fato do Ajax permanecer com assustadora irregularidade. A coluna já abordou profundamente as razões da equipe de Steve McClaren mostrar bom desempenho: o time equilibrado, o esquema inalterado, a técnica de jogadores importantes na equipe… enfim, o troféu da KNVB Beker apenas faria uma justiça que tarda há um bom tempo.

O Heerenveen, por sua vez, parece ter seu principal ponto forte em um estilo de jogo mais ancorado na força física. Jogadores como o volante Grindheim e os zagueiros Bak Nielsen e Breuer conseguem uma imposição natural aos adversários, minorando o impacto de problemas como a inconstância na posição de goleiro – mais por contusões do que por deficiência técnica, Trond Sollied já teve de colocar sob as três traves Vandenbussche, Kenny Steppe e o atual, o veteraníssimo Hans Vonk. Além disso, os “fortões” também não deixam a peteca cair no aspecto técnico, o que ajuda ainda mais na formação de outro bom meio-campo, que tem, para contrabalançar, a leveza hábil de Michal Svec, bom cabeça-de-área.

A mescla força-técnica do meio-campo alviazul serve até para ajudar o ataque, que conta com vários jogadores mais afeitos à finalização, como Elm, Ingelsten e Paulo Henrique. A única exceção – e, até por isso, o destaque do time – é Danijel Pranjic. O croata não decepciona nem um pouco nas conclusões (não por acaso, é o artilheiro do time na Eredivisie, com 16 gols), mas também se sai satisfatoriamente quando volta para buscar a bola, ou mesmo para armar o jogo, possibilitando que Sollied mude o esquema tático do usual 4-3-3 para o 4-4-2.

Como se não bastasse, a prova do valor que os dois finalistas da Copa da Holanda têm está no fato de que, mesmo ganhando o torneio, ambos podem ter as vagas em copas europeias bem encaminhadas. O Twente teria, como segundo colocado, uma vaga na preliminar da Liga dos Campeões; o Heerenveen garantiria a vaga de outro holandês, o PSV, na Liga Europa (afinal, poderia jogar os play-offs com uma vaga garantida). Enfim, na casta dos “médios grandes”, ambos podem estar abaixo do AZ, mas estão superiores aos outros.

Deu para temer

Nunca esta coluna se aliviou tanto pelo primeiro parágrafo de uma edição. Para quem não leu: a coluna da semana passada começava dizendo que “a lógica do futebol está, exatamente, no caráter, muitas vezes, ilógico de seus resultados.” Está certo que, logo depois, já se previa que a lógica seria uma vitória do AZ sobre o Vitesse, para confirmar o título dos Alkmaarders. Mas a ressalva estava lá.

E ela se confirmou, surpreendentemente. Embora os Gele-en-Zwart tenham melhorado e espantado a ameaça de rebaixamento sob o comando de Theo Bos, pouquíssimos esperavam que fosse ser a equipe de Arnhem aquela que poria fim a 28 jogos de invencibilidade do AZ nesta Eredivisie. Mais incrível: o 2 a 1 foi justo. Os comandados de Louis van Gaal pareceram, inegavelmente, sentir o peso da responsabilidade de corresponder às expectativas da cidade de Alkmaar, que já tinha os festejos preparados.

O gol de El Hamdaoui, seu 22º no campeonato, deu esperanças de que a festa iria se confirmar. Mas o empate de Ricky van Wolfswinkel – que, enquanto esteve em campo, foi sempre perigoso – fez com que a pressão aumentasse. E o gol de Büttner, obtido num lance de sorte (seu chute desviou em Swerts e encobriu Didulica), a seis minutos do fim do jogo, fez com que toda a torcida presente ao DSB Stadion se lembrasse do trágico 29 de abril de 2007 – e a derrota para o Excelsior Rotterdam.

Os festejos ficaram em suspenso, e Alkmaar acordou cedo no domingo, para assistir, como se fosse uma partida da Oranje numa Copa, a PSV x Ajax, que poderia ser o jogo do título – com a derrota para o Feyenoord, o Twente não poderia mais alcançar o AZ. E os 6 a 2 dos Boeren finalmente fizeram com que a festa pudesse vir, irrefreável. Agora, os vários copos de cerveja, os festejos febris dos torcedores, a ida dos jogadores à sacada da sala da presidência para exibir a taça – tudo é história. Do 19 de abril de 2009, dia em que o AZ garantiu seu segundo título holandês.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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