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O PSV comemora. Com alertas, mas comemora

Quando o árbitro espanhol David Fernández Borbalán apitou o fim do jogo entre PSV e CSKA Moscou, no Philips Stadion, em Eindhoven, terça passada, pela última rodada do grupo B da Liga dos Campeões, a explosão de alegria foi notável, na torcida e entre os jogadores dos Boeren. Na verdade, notável em todo o futebol holandês: comentaristas celebravam, e clubes menores parabenizavam os Eindhovenaren pela classificação às oitavas de final (como NEC e Heerenveen, via Twitter). Afinal, após o vexame da seleção e temporadas invariavelmente decepcionantes nas competições continentais, chegava enfim a massagem no ego.

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A mudança de paradigma por que passou nas últimas duas décadas foi bem exemplificada: o futebol holandês, dono de seis títulos europeus, “apenas” comemorava passar às oitavas de final da Champions. Mas a alegria se justificou. Afinal de contas, desde a temporada 2006/07 não havia holandeses “passando do inverno” na maior e mais tradicional competição europeia. Sem contar os ganhos que isso trouxe no coeficiente da UEFA – que podem retardar uma perda de vaga direta na Champions, algo cada vez mais provável para a Holanda. E ainda houve o lado financeiro: os resultados da fase de grupos e a classificação renderão ao PSV 22,5 milhões de euros, no total.

Tudo bem quando termina bem, certo? Errado. Afinal de contas, como um dos 16 classificados, algum objetivo o PSV precisa mostrar na temporada, agora que falou grosso. E a atuação vista contra o time russo mostrou que, se tem qualidades técnicas inegáveis, a equipe holandesa ainda sofre com certa falta de poder de decisão nas horas mais cruciais. Foi exatamente isso que vitimou os PSV’ers no Philips Stadion, na terça.

Até pelo fato do time moscovita não ter mais o que fazer na Liga dos Campeões, desde o princípio o 4-3-3 velho de guerra de Phillip Cocu criou mais chances em campo. Não só com o trio de atacantes (Gastón Pereiro, Luuk de Jong e Jürgen Locadia), mas também com Davy Pröpper e Jorrit Hendrix: vindos do meio-campo, chegavam com a bola dominada, criavam jogadas… enfim, destacaram-se na partida. Isso se traduziu em maior posse de bola, e mais perigo no ataque.

Mas o avanço excessivo dos laterais – principalmente Héctor Moreno, improvisado na esquerda – possibilitou vários contragolpes perigosos do CSKA. E graças ao ponta-de-lança Ahmed Musa e ao atacante Seydou Doumbia, as finalizações também davam o que trabalhar ao goleiro Jeroen Zoet. O desastre só não aconteceu porque Jeffrey Bruma teve atuação estupenda: seguro no miolo de zaga, foi quem mais desarmou (duas vezes), mais interceptou (oito vezes) e mais carrinhos na bola (seis) deu em campo. Foi quase unanimemente escolhido o melhor em campo.

Só que o segundo tempo ampliou a tensão em campo – e no time anfitrião. O CSKA Moscou até queria ganhar, mas não haveria muito problema em caso de derrota, pois o pior já acontecera; o PSV precisava vencer, se quisesse avançar independentemente do que ocorria em Wolfsburg x Manchester United. E essa necessidade visivelmente enervou os Boeren.

Mostra dessa perda do controle emocional foi vista no pênalti que abriu o placar. Pênalti inexistente, a bem da verdade: Zoran Tosic mal foi alcançado pelo carrinho de Andrés Guardado, mas caiu na área e iludiu o árbitro, que deu o cartão ao mexicano – e também a Luuk de Jong, que reclamou. Sergei Ignashevich bateu, fez 1 a 0 e deu a impressão de que a falta de calma e de eficiência do PSV seriam punidas duramente, por menos que o United merecesse avançar.

Aí, só restava o abafa. E no rebote de uma falta cruzada para a área, Hendrix devolveu a bola para a área, o CSKA formou mal a linha de impedimento, e Luuk de Jong empatou já aos 33 minutos. Esse gol salvou as coisas: afinal, permitiu recuperar rápido o ânimo após o baque de ficar atrás. No entanto, a tranquilidade só veio com o belíssimo gol de Pröpper, completando de primeira o pivô de Locadia para justificar por que foi tirado do Vitesse para a temporada 2015/16: justamente numa de suas qualidades, avançar ao ataque, fez o gol da vitória, aos 41 minutos do segundo tempo. Quase simultaneamente, o gol de Naldo em Wolfsburg definiu a vitória contra o Manchester United. A vaga nas oitavas estava garantida.

A alegria de ter superado um gigante europeu como o clube inglês para conseguir a segunda vaga foi resumida por Hendrix: “Nosso segredo? Não vou revelar por completo, mas dinheiro não é tudo no futebol”. De quebra, ao saber equilibrar bem base (Zoet, Locadia, Hendrix) e compras baratas (Bruma, Moreno, Guardado, Pröpper, Luuk de Jong), o PSV conseguiu em uma temporada o que o Ajax não conseguira nas cinco anteriores: passar da fase de grupos da Liga dos Campeões.

De certa forma, uma lição aos Amsterdammers, ainda excessivamente apegados aos jogadores formados em casa. Sem contar que a vaga nas oitavas aumenta o status de Phillip Cocu: remanescente do time quadrifinalista de 2006/07, o ainda iniciante técnico conseguiu formar uma base consciente das próprias qualidades e consistente, mesmo tendo perdido jogadores como Memphis Depay e Wijnaldum.

Mas a preocupação está aí, ainda que amenizada. Com o cartão amarelo, Luuk de Jong estará suspenso para o primeiro jogo das oitavas de final, em fevereiro (“Eu lamento, devia ter me lembrado antes”, comentou o atacante à imprensa após o jogo). E agir nervosamente em jogos decisivos pode ampliar a já clara desvantagem em relação a rivais mais fortes, por mais que eles até sejam desejados (“Eu espero o Barcelona”, torceu Joshua Brenet). Sem contar a necessidade de ligeira melhora no Holandês.

No entanto, de fato, o mais correto nestes dias é fazer como Cocu pediu. Após o jogo, o ex-meia foi indagado na entrevista coletiva sobre os possíveis adversários nas oitavas. E indagou: “Posso comemorar um pouquinho, antes?”. O PSV tem todo o direito, de fato. Mereceu.

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