O Ajax nunca esteve tão perto de dar seu próximo passo
Pouca gente deve se lembrar do amistoso entre Brasil e África do Sul, no feriado da Independência de 2012, no Morumbi. Bem, na verdade, até lembram-se, mas mais pelas vaias incontidas da torcida ao que quer que fosse, com ou sem motivo, do que pela partida (ruim) vencida pelo time brasileiro, por 1 a 0, com gol de Hulk. Então, o time sul-africano impressionou não só pela pobreza técnica, mas também por certa violência do meio-campo. E um dos mais violentos foi o volante Thulani Serero, do Ajax.
Não tem muito a ver com a vitória dos Ajacieden sobre o Barcelona, por 2 a 1, na última quarta-feira, que devolveu ao clube de Amsterdã o direito de sonhar em “sobreviver ao inverno”, como se diz na Holanda, e passar às oitavas de final da Liga dos Campeões, algo que não ocorre desde 2005/06. Mas o que tem a ver, é diretamente relacionado a Serero. O volante foi o símbolo de uma postura que há algum tempo os Godenzonen não tinham em torneios continentais.
O sul-africano vindo do Ajax Cape Town, satélite do Ajax na Cidade do Cabo, foi um azougue no campo. Não parou de correr, de se esforçar, de se doar. Tanto na perseguição ao primoroso meio de campo barcelonista, como na chegada rápida ao ataque, como elemento surpresa a ajudar o trio de atacantes – onde, por sinal, estava Danny Hoesen, outro constante perigo à defesa culé, fragilizada na Amsterdam Arena.
Na verdade, chega até a ser estranho restringir a velocidade do Ajax a Serero e Hoesen, os autores dos dois gols. Porque todos os jogadores da equipe de Frank de Boer, principalmente os meio-campistas e atacantes, construíram a atuação mais marcante do clube em alguns anos lembrando uma das mais importantes lições deixadas por Johan Cruyff, Rinus Michels e seus “red-and-white caps”, nos anos 1970: se é para colocar o adversário em risco mesmo tendo uma defesa mais frágil, que se parta para o ataque. Basta saber organizar-se taticamente para que um companheiro ocupe a posição defensiva que se abre.
Não foi por outra razão que Daley Blind, enfim, teve uma atuação convincente como volante: foi o porto seguro no meio-campo, sempre segurando as pontas atrás enquanto Lasse Schöne e Serero partiam para o ataque – sem contar que o sul-africano tinha fôlego para voltar e ajudar Blind a morder os calcanhares de Xavi, Iniesta e companhia. Na defesa, Joël Veltman tratou de ir para a esquerda, enquanto Nicolai Boilesen avançava loucamente, criando um 3-4-3 e sendo um tormento para Piqué enquanto esteve em campo. Bastou toda essa velocidade para fazer 2 a 0 e impressionar o Barcelona. Mas aí vieram os erros.
Na verdade, um erro da defesa. Primeiro, de Van Rhijn, que decidiu recuar a bola a Veltman. E depois, deste, que não percebeu a chegada de Neymar, teve de fazer o pênalti e ser expulso. Com o gol blaugrana feito por Xavi e um homem a menos, o Ajax precisou se segurar para não sofrer um empate que seria decepcionante. Conseguiu. Não foi heróico (o Barça criou, teve chances, mas não chegou a ser um bombardeio ao gol de Cillessen), mas deu uma grande massageada no ego de um time e de uma torcida que andavam precisando disso. Há muito tempo.
Mas o erro que deu o pênalti – logo, deu o gol – ao Barcelona não passou em branco para Frank de Boer. O técnico puxou as orelhas de Veltman e Van Rhijn, principalmente do camisa 12 Ajacied: “[O erro] começou com o recuo hesitante de Van Rhijn, mas Veltman precisava confiar no goleiro dele. Quando eu era jogador, Van Gaal sempre nos dizia ‘atenção, ainda temos Van der Sar’. É uma dura lição para Veltman, pois ele não estará em Milão. Foi a única mancha da partida para nós”.
E o puxão de orelhas foi justo, porque a defesa é o calcanhar de Aquiles que pode acabar com o sonho das oitavas que o Ajax levará ao San Siro. Nem tanto a defesa, mas a incrível inocência de seus jogadores. Algo já visto (e até apontado aqui) no 1 a 1 contra o Milan, quando Van der Hoorn jogou fora uma vitória quase certa ao entrar na armadilha de Balotelli e cometer pênalti. E repetido no triunfo da última quarta.
Obviamente, não é o caso de se contratar um zagueiro que seja desleal e fique dizendo palavras pouco elogiosas sobre a genitora do atacante (bem, essa última parte é perdoável). Mas é, sim, o caso de se inspirar nos grandes times que o Ajax já teve. E buscar um zagueiro veterano, que saiba se adaptar rapidamente ao estilo de jogo que o Ajax tanto preza e, principalmente, que acalme, aponte os caminhos, ensine os atalhos aos mais jovens. Foi o que Velibor Vasovic fez na primeira fase do time dos anos 1970. Foi o que Frank Rijkaard fez no time campeão da Liga dos Campeões 1994/95.
De todo modo, o Ajax deu um grande passo para avançar em seu projeto: deixar de ser um time “simpático” e voltar a mostrar a toda a Europa que ainda tem algum valor. Não para ser campeão de torneios (isso requer um “borogodó” que o clube ainda não tem, pelo menos não hoje), mas para fazer boas campanhas, para ser olhado com menos “simpatia” e mais respeito.
E é exatamente para tentar isso que a equipe entrará em campo no próximo 11 de dezembro. Não é favorita: em que pese a fase irregular que vive, o Milan tem gente como Kaká e Balotelli, ainda capazes de definir um jogo. E é uma equipe mais “cascuda”. Pior: não terá Boilesen, com uma lesão muscular que o tirará de campo até o início de 2014. No entanto, o Barcelona também é assim (mesmo com os desfalques de certo peso que teve na quarta) – e o Ajax não teve medo de partir para cima. Não poderá ter esse medo também contra os Rossoneri, porque de destemor também se faz uma equipe que impõe respeito. E, claro, de uma defesa mais “maliciosa”.
Enfim, é do ânimo que apresentou contra o Barcelona (e que ainda não revelou no Holandês, apesar de estar na vice-liderança) que o Ajax precisa, agora. Porque o próximo passo na direção da recuperação do respeito no continente nunca esteve tão próximo. Como disse Johan Cruyff, espectador do jogo da quarta, ao jornal “De Telegraaf”: “Estamos no bom caminho, mas ainda não chegamos lá”.



