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O médico e o monstro
A Liga Europa tem sido um bom termômetro para conferir como os clubes holandeses evoluem, nas últimas temporadas – já que, claro, pensar em Liga dos Campeões é areia demais para o caminhão batavo. E o Twente era um dos clubes com o desempenho mais alvissareiro: nas últimas duas temporadas, por uma vez a equipe de Enschede atingiu as oitavas de final, e, na outra, chegou às quartas de final. Pois bem, essa época parece ter acabado.
Na atual fase de grupos da competição, os Tukkers parecem uma equipe cansada. Se antes já impunham respeito desde o começo, ainda não venceram seus adversários na Liga Europa desta temporada: com duas derrotas e dois empates, a eliminação é quase certa. Para um clube que participava da Liga dos Campeões, há duas temporadas, é uma decepção. E que pode resultar em mais pressão. O que talvez tenha consequências imprevisíveis, dentro de um clube acostumado ao “crescimento sustentável”.
Mas as consequências estão controladas, por enquanto. Porque o Mr. Hyde também tem o seu lado Dr. Jekyll. No Campeonato Holandês, o Twente vê Vitesse e PSV crescendo, cada vez mais credenciados a assumir a liderança. Ainda assim, permanece na primeira posição, e consegue manter um retrospecto elogiável: em onze jogos, nove vitórias. Não é perfeito (o time já tem uma derrota, para o Ajax), mas é uma mostra de que a equipe não está definitivamente desgastada, como parece na Liga Europa.
O estilo até pode desagradar a torcedores que apreciam um jogo mais técnico, mas nada disso tira Steve McClaren do foco. Se o técnico que comandou a equipe campeã holandesa em 2009/10 chegou exatamente para resolver os problemas defensivos que supostamente existiam no tempo de Co Adriaanse, está fazendo exatamente isso. A prova está num quesito simples: o Twente tem a defesa menos vazada da Eredivisie, com apenas seis gols sofridos.
Eis uma primeira amostra de como o Twente ainda pode render. Porque a defesa ainda está bem entrosada, apesar dos pesares. Douglas, ainda um dos jogadores fundamentais no time, consegue manter a segurança, com Rasmus Bengtsson substituindo bem Wisgerhof, ainda em recuperação de uma lesão. Nas laterais, o equilíbrio é satisfatório: sempre que avança, o venezuelano Rosales é uma opção válida para as jogadas de ataque. E, na esquerda, com algum ritmo de jogo, Edson Braafheid traz mais segurança à marcação – razão para a qual, afinal, foi contratado.
Mas a mostra de como ainda há motivos para se confiar no time de Enschede está no ataque. Se o meio-campo é mais marcador – afinal, Leroy Fer ainda se recupera de cirurgia nos meniscos, e só deverá voltar no início do returno, em 2013 -, Dusan Tadic permanece fazendo o papel de armador com bastante eficiência. Chadli fornece cada vez mais rapidez, no ataque, ao passo que Luc Castaignos vem crescendo como o finalizador da equipe.
Portanto, a vitória de 3 a 0 contra o Feyenoord, na 11ª rodada, serve para mostrar que o Twente ainda pode render. Pelo menos, no cenário doméstico. A partida direta, contra o Vitesse, 3º colocado, terá o poder de mostrar se Mr. Hyde também aparecerá no Campeonato Holandês, ou se Dr. Jekyll conseguirá controlá-lo.
Mora na filosofia
Sejamos honestos: por mais que um time jogue bem, com lances de alta técnica, ele dificilmente será respeitado e tido como favorito caso não tenha resultados. Apenas trará simpatia para si. O que não é nada agradável, num cenário de competição. E é o caso do Ajax, na Liga dos Campeões.
Porque, novamente, a equipe de Frank de Boer conseguiu aliar a manutenção de sua filosofia com um bom nível de competitividade. Os dois gols de Siem de Jong, em Manchester, deram a esperança de que a equipe conseguiria, novamente, impressionar com uma vitória, como fizera com o 3 a 1 em Amsterdã.
No entanto, não foi possível segurar a pressão do Manchester City – que, ainda assim, ficou em situação difícil na Liga dos Campeões, perto de ser eliminado na primeira fase. Os Ajacieden ainda contam com certa chance, mas terão de vencer “somente” Borussia Dortmund e Real Madrid para avançarem às oitavas de final.
É lógico que os dois desempenhos contra o City trouxeram certa simpatia em relação ao time de Frank de Boer. Johan Cruyff, mentor da mudança por que o Ajax passou, só faz dizer “estamos no caminho”. De fato, está certo. E a maior vinculação de ex-jogadores ao time (Dennis Bergkamp é auxiliar de Frank; Marc Overmars é diretor de futebol, e logo poderá ter Edwin van der Sar como braço-direito) só amplia a sensação de que o time procura voltar à filosofia que o fez famoso.
Mas avançar às oitavas de final da Liga dos Campeões traria o respeito que o clube da estação Bijlmer Arena merece e precisa. Uma vaga na Liga Europa seria surpreendentemente agradável, mas nada além disso. A resolução disso mora na filosofia. Pra que rimar futebol bonito e vitórias? Para que o Ajax possa, enfim, sentir que está mais perto de ser visto como um competidor de fato, novamente.



