Holanda

O homem que faltava

O vice-campeonato holandês na última temporada foi recebido com sentimentos mistos no Feyenoord. O mais predominante, claro, foi o orgulho. Sofrer uma goleada de 10 a 0 na temporada 2010/11, atingindo um ponto baixo na história centenária, para logo depois alcançar um vice-campeonato que não vinha havia sete anos é de massagear gostosamente o ego de qualquer equipe – ainda mais uma que vinha se acostumando ao sofrimento e às turbulências nos últimos anos, como era o caso do Stadionclub.

No entanto, ficou também uma pergunta no ar: o desempenho de 2011/12 seria mantido? Afinal de contas, o vice-campeonato foi conseguido por três fatores: a base da equipe era formada por jovens relativamente talentosos e entrosados, o time era daqueles para o qual não existia bola perdida (característica bem ao gosto da fanática legião de torcedores)… e havia o talento, nos pés de John Guidetti. Tendo chegado de mansinho, o sueco galvanizou a equipe. Foi o protagonista do Feyenoord na temporada. Foi o centro das atenções. Trouxe o talento que andava escasso.

Só que Guidetti tinha prazo de validade: apenas o ano de empréstimo, e ele iria embora. O Feyenoord até tentou, mas o Manchester City trouxe o atacante de volta. E aí, a equipe ficou apenas com duas partes do tripé que justificou a boa campanha. O time continua sendo daqueles para o qual não existe bola perdida: Ronald Koeman tem o elenco na mão. A espinha dorsal continua sendo formada por jovens bastante entrosados (as perdas de Vlaar e El Ahmadi foram as únicas – e vêm sendo superadas).

E o talento está lá: Erwin Mulder satisfazia no gol, até a fratura no pé da qual se recuperou apenas agora – mas seu substituto, Kostas Lamprou, segurou a peteca; Bruno Martins Indi subiu incrivelmente de produção, sendo o melhor zagueiro holandês da atualidade; Jordy Clasie comanda as ações no meio-campo… mas ainda faltava o personagem. Aquele que sintetizava a manutenção da boa fase no time de Roterdã. Pois apareceu. De mansinho, como Guidetti. Pior, já com a pecha de “refugo” começando a grudar perigosamente na sua cara.

Afinal de contas, quando apareceu, o italiano Graziano Pellè era relativamente promissor, e até foi convocado para o Campeonato Europeu sub-21, em 2007. Ainda assim, não disse a que veio no Lecce – e nem nos empréstimos para Catania, Crotone e Cesena. Cedido ao AZ, até começou bem, mas aos poucos foi sendo eclipsado pelo sucesso da dupla formada por Mounir El Hamdaoui e Moussa Dembélé. Transferiu-se para o Parma, em 2011, e nada. Os Gialloblù cederam-no à Sampdoria: nova decepção.

Ao ser emprestado ao Feyenoord, Pellè começou na reserva de Immers. E parecia que novamente negaria fogo. Tudo mudou em 28 de outubro: clássico contra o Ajax, 47 minutos do segundo tempo, De Kuip lotado, e o Ajax vencia por 2 a 1. Até que Pellè recebeu uma bola na área de Martins Indi, matou-a no peito e virou-se para dar o voleio, sem deixá-la cair no chão. Ela estufou o ângulo de Vermeer. Golaço que pôs o estádio abaixo, evitando a derrota no Klassieker.

Depois, na goleada por 5 a 2 contra o Roda JC, dois gols de Pellè. Na semana seguinte, 3 a 0 contra o Willem II: mais dois na conta do transalpino. Resultado: hoje, com 12 jogos, Pellè tem 11 gols, disputando firmemente o posto de principal goleador com Finnbogason, do Heerenveen, e com o líder Bony, do Vitesse. De todo modo, já ganhou o posto de protagonista que faltava ao Feyenoord. Que dificilmente ganhará o título – é o quinto colocado no Holandês, e, no confronto direto com os quatro à sua frente, só ganhou um ponto, no empate contra o Ajax. Mas que deverá seguir com a boa aura que chegou ao Stadionclub.

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