Eliminatórias da CopaHolanda

Holanda está perto da Copa, e no seu estilo. Mas falta algum talento

O Futebol Total era representado por jogadores que trocam várias vezes de posição, ofensividade quase suicida etc… por tudo isso, ganhou a torcida de muita gente mundo afora. Mas nos últimos anos, cansada de jogar bonito e nunca vencer nada, a Holanda decidiu mudar. A bem da verdade, isso vinha desde a segunda passagem de Dick Advocaat pela Oranje, de 2002 a 2004. Mas o estilo mais pragmático foi escancarado na passagem de Bert van Marwijk como treinador.

Quase deu certo, como se viu em 2010. Mas não se pode dizer que isso foi aceito sem contestações na Holanda. Por exemplo: após a atuação na final da Copa do Mundo, a revista “Hard Gras”, que traz textos mais literários e opinativos sobre futebol, lamentou na edição após o Mundial, até com exagero: “Quase 40 anos de tradição foram destruídos em duas horas”. Aqui, cabe um testemunho pessoal: quando estava em Amsterdã, na Museumplein, como uma das 180 mil pessoas que lá estavam para assistir a Holanda x Espanha, vi e ouvi o lendário golpe de kung fu de Nigel de Jong em Xabi Alonso ser recebido não com aplausos, mas com um “oh” de espanto e reprovação.

E Louis van Gaal assumiu a equipe holandesa deixando claro: o trabalho do antecessor fora bom, mas sua função seria trazer a “velha Holanda” de volta. Está conseguindo, a julgar pelo desempenho nas eliminatórias da Copa do Mundo. Porque o fato principal não é somente a Holanda estar muito próxima de garantir a viagem ao Brasil, com seis vitórias em seis jogos (por sinal, em qualificação para Copas do Mundo, já são 28 partidas sem derrota, desde 2001). O importante é ver que a seleção laranja começa a apresentar traços semelhantes ao estilo que a fez famosa.

O mais visível deles é esbanjar posse de bola. Tome-se como exemplo a última rodada das eliminatórias. Na vitória por 3 a 0 contra a Estônia, foram 79% de tempo de jogo com a bola nos pés; nos 4 a 0 contra a Romênia, obscenos 85%. Sim, são adversários de nível mediano. Mas, de todo modo, observando o que a Holanda obteve no quesito, nos últimos tempos, é uma mostra de como isso melhorou. Sob Van Marwijk, era raríssimo ver a equipe obter mais de 60% de posse de bola – isso, quando chegava a 60%.

Não é que a Laranja não tivesse a esférica nos pés; tinha, e normalmente mais do que o adversário. Mas tinha menos do que se acostumou a ter. Por exemplo: na última Copa, a equipe teve menos posse de bola contra Camarões (51% dos Leões Indomáveis) e Espanha (57% dos que seriam campeões mundiais). E, mesmo quando foi superior ao adversário, não esbanjou o controle (contra a Eslováquia, nas oitavas de final, foram 52% dos holandeses). Mas o impressionante era nas eliminatórias: para a Euro 2012, mesmo jogando contra San Marino, a pior equipe europeia, a Holanda teve 50% a 50%, nos 5 a 0 em Serravalle, ainda em 2010.

Enfim, se posse de bola fosse tudo em um jogo de futebol, a Holanda estava muito bem. Mas não é. E aí entram os problemas. Porque a equipe toca, toca, toca, toca… e toca. “Ah, até aí, o Barcelona também faz isso.” Mas, na hora necessária, o time catalão tem gente que acelera a jogada, para levá-la ao ataque, e dele para o gol. A Laranja ainda não tem esses jogadores.

Poderia ter em Sneijder – afinal de contas, ele só teve 35 minutos para mostrar se melhorou com o maior tempo de jogo no Galatasaray, antes que uma lesão na virilha o tirasse de campo contra a Estônia. Sem o titular, houve Van der Vaart, que até jogou bem, mas não é um jogador que tem na velocidade seu ponto forte. Robben se mostrou mais produtivo e colaborador na sua marca registrada, o corre-corta-para-a-esquerda-e-chuta, mas ainda é pouco. Quem sabe ele ainda possa ser isso.

Van Persie até trouxe mais esperanças, como finalizador. Fez três gols (um contra a Estônia, dois contra a Romênia – o que o levou a 34 gols pela seleção, igualando Huntelaar na quinta posição da lista histórica de goleadores), e apareceu mais no jogo, contrariando seu hábito de desaparecer com a camisa laranja. Mas também não é o sujeito que acelera o jogo. Talvez, se melhor preparado, Lens, elogiável nas duas partidas, possa se transformar nisso.

Mas houve surpresas agradáveis. Na tentativa de readaptar a Holanda ao seu velho estilo, Van Gaal lembra que a Oranje pode, sim, fazer todo o trabalho tático que o Barcelona faz. A começar pelo goleiro: como Valdés, Vermeer não traz segurança total debaixo das traves, mas sabe jogar com os pés. Não só tem feito isso com competência, mas também faz o obrigatório com as mãos. Não levou nenhum gol, nas três partidas que fez pela seleção. Aumentou seu cacife na disputa com Stekelenburg, Krul e Vorm pela titularidade.

Na defesa, enfim Daryl Janmaat justificou que Van Gaal o prefira a Ricardo Van Rhijn. Atacou e defendeu nas horas certas. E quando atacou, foi útil, como no gol de Van der Vaart que abriu o placar contra a Estônia, ao fazer bela jogada, com velocidade. No meio, Strootman é cada vez mais absoluto, ao sair jogando com categoria, enquanto Jonathan de Guzman mostrou capacidade de fazer o trabalho sujo. E o reserva Ruben Schaken cava discretamente seu lugar no elenco: entrando pela ponta direita, não só oferece constante opção de ataques, embora seja mais fixo, como faz gols, como o terceiro dos 3 a 0 contra os estonianos.

Se a tarefa de Van Gaal era deixar a Holanda menos pragmática e mais espetaculosa, ela está sendo cumprida. O que, talvez, signifique uma campanha honrosa no Brasil (sem favoritismo a título, claro). Mas ainda falta algo: falta quem acelere o jogo rumo ao gol, para que o estilo não seja um “tikkie-takkie” tão chato quanto infrutífero. E, claro, falta provar essa renovação contra times de capacidade técnica igual ou maior.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo