Holanda chegou à Copa sofrendo sem precisar. Mas tudo bem
Parecia que Louis van Gaal estava adivinhando. Nas declarações que fecharam a entrevista coletiva dada antes da partida contra a Estônia, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2014, ele lembrou dos encontros entre as duas seleções, na qualificação para 2002, e alertou: “Nós perdíamos por 2 a 1 até os 38 minutos do segundo tempo, e vencemos por 4 a 2 [contra a Estônia, fora de casa]. Mas o gramado está ótimo, bem melhor do que há 12 anos. Não temos desculpas”. Assim terminava a coluna da semana passada. Pois bem: foi justamente o susto imprevisto passado na A. Le Coq Arena que esmaeceu um pouco o brilho da campanha da Laranja nas eliminatórias.
Mas o retrospecto anterior, francamente favorável, fazia com que o impacto do empate em 2 a 2 fosse minorado. E por fim, a vitória por 2 a 0 contra Andorra confirmou o que era previsto: a Holanda baterá ponto pela 10ª vez numa Copa do Mundo. E entre mortos e feridos, a seleção até ganhou esperanças para o futuro, embora o desempenho decepcionante nas duas partidas tenha merecido críticas pesadas de torcida e imprensa, no país. Críticas justas, diga-se de passagem.
Afinal de contas, se tem seu talento e exibe um pouco mais de inspiração e capacidade técnica do que mostrava em 2010, a equipe holandesa não precisava ter dado as mostras de fragilidade que deu, contra adversários do terceiro escalão europeu. Tome-se por exemplo a partida contra a Estônia: com o rápido gol de Arjen Robben, a Holanda prometia nadar de braçada em Tallinn. Bastou a ótima jogada de Vassiljev, dando o drible da vaca em De Vrij e chutando de longe para empatar o jogo, para que a equipe sentisse duramente o golpe.
Não que a Holanda tenha caído de produção depois disso, pois continuou procurando o gol. Ainda assim, pareceu insegura. Não impressiona que tenha aberto flancos para que os estonianos continuassem no contra-ataque, até fazerem 2 a 1, com Vassiljev, o destaque do jogo (e papai recente – até comemorou o primeiro gol no jogo à la Bebeto na Copa de 1994). Van Persie acabou salvando no final, mas é inegável que o empate foi a grande surpresa negativa da rodada de sexta passada nas eliminatórias europeias.
E ainda mais negativa foi a atuação da equipe durante o primeiro tempo contra os andorranos. Apática, anódina, medíocre, a Laranja parecia jogar como quem tivesse o poder de definir o jogo à hora que quisesse. Até poderia fazer isso mesmo, tão baixo é o nível de Andorra. De mais a mais, a Turquia “ajudava”, ao vencer a Romênia e criar todas as condições para a Holanda classificar-se para a Copa na terça. Só ela não estava se ajudando.
Por isso, a Holanda mereceu as críticas. Mas apenas críticas leves, nada próximo do tom ácido e destrutivo de (quem mais?) Johan Cruyff, que não poupou palavras: “Devemos ficar felizes caso passemos da fase de grupos. Eu vi o Brasil jogando na Copa das Confederações. Eles nos massacrarão. Só teremos alguma chance caso tenhamos o mais alto nível”, afirmou o grande nome da história do futebol do país ao programa de entrevistas RTL Late Night. Claro, a Holanda corre por fora na Copa. Talvez deva ser menos badalada até do que a vizinha Bélgica, das grandes coqueluches europeias. Mas cumpriu bem o papel nas eliminatórias, e merece ser uma das 32 classificadas.
Prova disso é o estilo muito mais técnico exibido pelo meio-campo, no 4-3-3 que geralmente vai a campo sob Van Gaal. Se antes Nigel de Jong e Van Bommel não aliviavam, no 4-2-3-1 dos tempos de Van Marwijk (até pela fragilidade da defesa), agora Kevin Strootman é cada vez mais absoluto, exibindo grande capacidade na saída de bola. Só falta ao camisa 6 da Roma um parceiro com quem possa criar entrosamento – escolha entre De Guzman e Schaars.
Wesley Sneijder não trouxe tanta rapidez ao meio-campo, mas ainda precisa de mais chances, já que é daqueles jogadores que são indispensáveis, quando no melhor da forma. No ataque é que vieram as maiores esperanças. Com Arjen Robben, bastante interessado e ativo nos jogos, e principalmente com Robin van Persie.
O atacante assumiu o papel de capitão em sua plenitude: chamou o jogo, deu segurança à equipe, apareceu para definir nas horas difíceis. Como no pênalti que decretou o 2 a 2 contra a Estônia, evitando o vexame. Como no início do segundo tempo contra Andorra, ao marcar os dois gols que deram números finais ao placar e ratificaram que a Holanda estará no Brasil em 2014. Sem dúvida, Van Persie merece estar à beira de quebrar o recorde de 40 gols de Patrick Kluivert, hoje auxiliar de Van Gaal, para tornar-se o grande goleador da seleção laranja.
A defesa, se não é perfeita, dá uma sensação de ser mais segura do que era em 2010. De Vrij e Martins Indi (além de Bruma e Vlaar) têm uma agilidade maior do que Heitinga e Mathijsen, que baseavam-se principalmente no esforço. Além disso, parecem exibir segurança maior em campo – em que pesem as críticas sobre De Vrij, por sua atuação amedrontada contra a Estônia. Na lateral direita, Janmaat parece cada vez mais seguro. Falta ainda a lateral esquerda e a grande dúvida: o goleiro.
Classificação assegurada, a Holanda pode se preparar para fazer um papel digno em 2014. Provavelmente, não haverá chance de repetir o vice-campeonato de 2010. Mas a Holanda tem um time com gente e talento suficiente para olhar com otimismo rumo a futuras Copas. Basta que haja a autoconfiança que não houve contra a Estônia.



