Há um caminho
Stekelenburg, Van der Wiel, Heitinga, Mathijsen e Van Bronckhorst; Van Bommel e De Jong; Kuyt, Sneijder e Robben; Van Persie. Eis o time que disputou a final da Copa de 2010 – e que, por muito tempo, era recitado de cor e salteado pelos que acompanham a seleção da Holanda. Pois o início das eliminatórias para o Mundial de 2014 revelou que a escalação está destinada a sumir na poeira do tempo.
Duas mudanças que Louis van Gaal impôs entre os titulares fazem crer nisso. A primeira delas: dar mais oportunidades a jogadores que atuam no Campeonato Holandês. Contra a Turquia, na estreia, cinco dos onze titulares atuavam na Eredivisie. E o número ampliou nos 4 a 1 contra a Hungria: sete atletas na liga batava.
A segunda: mexer em lugares antes inquestionáveis na Oranje. Claro, isso causou certas dificuldades – principalmente no jogo contra a Turquia. Ainda assim, as duas vitórias (e o desempenho visto em ambas) fazem crer que alguns elementos serão muito úteis para a continuação da campanha na qualificação rumo ao Brasil. O primeiro deles já começa na posição inicial de um time.
Stekelenburg era pouco questionado, apesar de ter vivido uma temporada irregular na Roma. Só que Van Gaal mudou isso. Tendo escalado Tim Krul contra a Turquia, foi perguntado sobre a razão de preferir o goleiro do Newcastle. E foi curto e grosso: “Ele não foi bem na Euro. Sua temporada na Roma também não foi das melhores, bem como seu desempenho no amistoso contra a Bélgica. Simples assim”. Tal “sutileza” poderia fazer crer que Krul era o titular definitivo do gol holandês.
Mas não se saberá sobre isso por enquanto, já que o arqueiro dos Magpies lesionou o cotovelo – ficará fora dos campos por algumas semanas – e foi cortado antes mesmo do jogo contra a Hungria. Oportunidade para a volta de Stekelenburg, que não teve maiores problemas contra os magiares. Mas que, ainda assim, deixou a rodada das eliminatórias carregando insatisfação natural e bem medida: “Naturalmente, discordei da decisão do técnico. Mas é coisa da profissão. A única coisa que posso fazer é esperar por uma chance”.
Outra posição em que as coisas mudaram foi o meio-campo. Ao contrário do que a coluna apostou na semana passada, Jordy Clasie foi o escolhido para ser o parceiro de Kevin Strootman na parte de marcação, no meio. E o jogador do Feyenoord apresentou certa irregularidade, nas duas partidas. Contra a Turquia, decepcionou: nem diminuiu o trabalho que a defesa teve, nem auxiliou Sneijder na armação, como sempre faz no Feyenoord.
Só que Clasie cresceu na partida seguinte. Titular até por força das circunstâncias (Leroy Fer foi cortado, por problemas no joelho – aliás, até passará por cirurgia nos meniscos), o jogador apareceu bem mais contra os húngaros, armando jogadas e fazendo bons passes. Se continuar assim, e der sequência às boas atuações pelo Feyenoord, Clasie pode ter ganho a vaga de titular no time de Van Gaal.
Na defesa, a juventude mudou da água para o vinho, entre uma partida e outra. No jogo de Amsterdã, é possível dizer que o time só não sofreu gols por sorte: Janmaat não mostrou a segurança na defesa que tinha no Heerenveen (e que o levou ao Feyenoord), Martins Indi foi temerário (quase gol contra marcou, por falta de comunicação com Krul), e Willems não sabia se ficava no miolo de zaga ou na lateral esquerda, sem conseguir marcar bem em ambos os lugares. E Heitinga não segurava a barra.
Tudo isso mudou contra a Hungria. É bem certo que a seleção treinada por Sándor Egervári não demonstra muitas qualidades, mas Martins Indi já foi mais seguro tendo a seu lado Ron Vlaar, parceiro de Feyenoord até o meio do ano. E o gol que marcou, quem sabe, lhe dê mais confiança. Willems também não teve muito com que se preocupar. E, na lateral direita, Van Rhijn apresentou maior segurança defensiva do que se esperava. Sem dúvida, passou à frente no posto de reserva imediato de Van der Wiel.
No ataque, Narsingh apareceu satisfatoriamente, e até marcou gol contra a Turquia. Mais e mais, o ponta-esquerda do PSV credencia-se como titular no 4-3-3 que deverá ir a campo. Jeremain Lens, por sua vez, foi uma surpresa positiva: entrando às pressas, no lugar do lesionado Robben, marcou dois gols nos húngaros e foi o protagonista do jogo, mostrando na Oranje a evolução que exibe no PSV, nesta temporada.
Finalmente, no ataque, novamente ao contrário do que a coluna pensava, Van Persie recebeu a titularidade no lugar de Huntelaar. E tão mal o camisa 20 do Manchester United não foi: abriu o placar na estreia, e fez bem o papel de homem de referência. No entanto, teve de sair, por lesão, dando lugar a Huntelaar. E o atacante nativo de Drempt também não pestanejou, fechando o placar contra a Hungria. Mais um ponto de interrogação.
Todavia, se Van Gaal ainda não pode tirar conclusões sobre como será o caminho da Laranja nas eliminatórias para a Copa de 2014, é lícito supor que alguns jogadores já aproveitaram as chances que lhe foram dadas. E deram, logo, algumas luzes que podem iluminar o caminho para o Brasil, mais adiante.



