Futebol holandês

Ensaio sobre o artilheiro da Oranje

Claro que é chato perder uma longa invencibilidade, como a seleção holandesa perdeu na última terça, ao ser derrotada pela Suécia. No entanto, é preciso reconhecer que perdeu quando podia perder. De mais a mais, a equipe de Bert van Marwijk conseguiu um feito: manteve o pragmatismo e a capacidade assombrosa de vencer, mas também conseguiu exibir um estilo de jogo ofensivo, principal queixa que havia após a Copa.

Mas isso é outra história, para outra coluna. O assunto desta é aquele que, talvez, tenha sido o grande jogador da Oranje nas eliminatórias. Artilheiro geral delas, com 12 gols – apenas um atrás do recorde em qualificações para a Euro, pertencente ao norte-irlandês David Healy, rumo à Euro 2008. No Campeonato Alemão, o nativo de Drempt também está inspirado: fez sete gols em oito jogos, disputando firmemente o posto de principal goleador da Bundesliga.

Mas é olhando para seus números na Holanda que se vê como o atacante está vivendo, talvez, sua melhor fase na carreira. Com a dúzia de gols nas eliminatórias da Euro, Huntelaar igualou o recorde de Johan Cruyff: foi o holandês que mais marcou pela Oranje na qualificação. Mais: avançou para o sétimo lugar na lista dos goleadores da história da seleção. Tem 30 gols, três atrás de Cruyff – e dez atrás de Kluivert, o principal artilheiro da história da equipe. Com 27 anos, e carreira regular, as chances de bater tal recorde são grandes.

E, no entanto, Huntelaar continua sendo visto com reservas. O apelido de “Ruintelaar”, popular no Brasil, persiste. Bem como a sombra de Van Nistelrooy, com seus 35 anos. Algo que era pouco previsível, tendo em vista o início fulgurante desde que “Hunter” foi-se para o Heerenveen, em 2004. E que teve o primeiro ápice em 2006, quando ele foi o artilheiro do Europeu sub-21, no que foi o primeiro título da Jong Oranje em tal categoria – destacando-se com dois gols na final, contra a Ucrânia.

Com tal início, não era de se impressionar que Huntelaar tenha ficado já como um dos sete jogadores da “lista de espera” da convocação de Marco van Basten para a Copa do Mundo. Se não teve a chance de ir à Alemanha, vestir a camisa da seleção era questão de tempo. E isso se concretizou logo no primeiro amistoso após o Mundial, contra a Irlanda, em Dublin. Que a Oranje ganhou, em goleada por 4 a 0. Dois gols de Huntelaar.

Junto de sua entrada nas listas de convocação da seleção, Huntelaar evoluía no Ajax. Em 2006/07, ainda teve desempenho discreto: 21 gols, longe de Afonso Alves, artilheiro da Eredivisie naquela temporada. Ainda assim, foi o Ajacied que mais marcou gols no torneio – à frente até de um certo Wesley Sneijder. Mas, em 2007/08, nada impediria que ele brilhasse: 33 gols em 34 jogos. Goleador incontestável do campeonato. De quebra, embora não fosse titular na Holanda, foi à Euro 2008 e marcou um gol, no 2 a 0 contra a Romênia. Na volta para a temporada 2008/09, mais seis gols em dez jogos pelo Ajax.

Daí, não houve jeito. Já em janeiro, o Real Madrid chegou e tirou o atacante da Amsterdam ArenA. Parecia a chance certa para o jogador provar que era o próximo grande surgido da Holanda. Chance desperdiçada: os Merengues até estavam em situação turbulenta, mesmo com o bicampeonato espanhol, mas isso não foi álibi para o péssimo rendimento do jogador em Chamartín: oito gols em 20 jogos, e um atacante medroso, aparentemente intimidado por jogar no Real Madrid.

Terminada a temporada 2008/09, o Milan ainda quis Huntelaar. Novamente, não deu em nada. O atacante que chegara dando esperanças de virar a referência rossonera de área parecia não ter sangue nas veias: apático, novamente medroso, intimidado, aceitou o banco. Houve até quem dissesse que o cidadão dos dentes de rato e cara de David Bowie na época “Ziggy Stardust” parecia um adolescente mal saído da puberdade. Huntelaar perdia espaço na Oranje e perigava virar um “foguete molhado”.

Então, veio a mudança para o Schalke 04. Num ambiente mais sossegado (e num campeonato mais fácil, é verdade), as atuações de Huntelaar voltaram a satisfazer. Assim como em 2010/11, o começo do jogador na Bundesliga tem sido fulgurante. Fora o desempenho assombroso nas últimas partidas pela Oranje. Porém, ele ainda não venceu as desconfianças. Apesar de estar bem tanto pelo clube quanto por sua nação, as lembranças do atacante acabrunhado visto em duas das maiores ligas europeias permanecem fortes. Sem contar que, mesmo com capacidade de finalização elogiável, ele ainda não venceu as lembranças de seus predecessores, Van Nistelrooy e Kluivert. Caberá a Huntelaar continuar se esforçando. Para, quem sabe, deixar lembranças marcantes, enfim, em sua carreira.

“Valeu, valeu/A gente sabe que não deu”

Esse ingênuo grito de guerra é visto, vez por outra, naquelas olimpíadas escolares interclasses, de modo a receber calorosamente colegas de classe derrotados. E, de certa forma, foi esse o espírito tido em relação à seleção da Bélgica, ao final das eliminatórias da Euro. O time fez o possível: goleou o Azerbaijão, e até começou bem contra a Alemanha. Só que a qualidade inegável do Nationalelf acabou com o sonho da repescagem.

E o próprio técnico reconheceu isso: “Há times no topo, logo abaixo, e times bons. Nós temos um bom time. Os alemães têm um time no topo”, foi o que disse Georges Leekens. Que tratou de levantar o espírito rumo às eliminatórias para 2014: “As eliminatórias para a Euro acabaram, mas a história não termina aqui. Temos um ano até o início das eliminatórias da Copa. Nele, podemos nos preparar bem. A experiência que os jogadores conseguiram não tem preço, e podemos usá-la bem para nos classificarmos.”

A torcida parece concordar – tanto que foi em bom número a Dusseldorf. O time mostra mais serenidade, após os tempos turbulentos sob Franky Vercauteren e Dick Advocaat. E a geração é boa, já se disse. Ou seja: embora novamente o sonho tenha acabado, a esperança continua. Rumo a 2014.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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