Enquanto adversários ganham esperança, PSV sofre com a crise
A 15ª rodada do Campeonato Holandês mostrou resultados esperados. Superando com facilidade o Cambuur (3 a 0), o Vitesse manteve a liderança. Motivadíssimo, o Ajax bateu o ADO Den Haag também sem problemas (4 a 0), mantendo a vice-liderança. O Twente já precisou suar mais para virar o jogo contra o Roda JC (2 a 1), ficando em terceiro lugar. O Feyenoord até surpreendeu-se com o gol sofrido no primeiro tempo, mas teve o maior volume de jogo e a maior empolgação premiadas com a virada para 3 a 1 sobre o PSV. E o PSV… fica em crise.
Pois é: a temporada que se iniciava cheia de esperança para o time de Eindhoven, como símbolo de uma reformulação, está ameaçada de ser altamente frustrante. A três rodadas da pausa de inverno, os Boeren patinam na 10ª posição da Eredivisie. Pior: há sete rodadas não sabem o que é vencer. Pior ainda: somando-se Copa da Holanda e Liga Europa, o clube venceu apenas uma partida desde o final de outubro (2 a 0 sobre o Dinamo Zagreb, pela quarta rodada da fase de grupos do torneio europeu). Quer mais? Na Liga Europa, a classificação para a segunda fase ainda está ameaçada. Tudo dependerá do confronto direto contra o Chernomorets Odessa, da Ucrânia, na última rodada da fase de grupos, semana que vem.
Entretanto, é na liga doméstica que está o maior símbolo da difícil temporada que os Eindhovenaren estão vivendo. O time parece não obter entrosamento, e essa falta de “liga” torna a equipe de Phillip Cocu desmotivada em campo. A prova desse entrosamento falho está no meio-campo. Vejamos: a média de passes entre os jogadores do PSV (380) é baixa em relação às de outros times, como Vitesse (410) e Ajax (530). Por outro lado, o número de passes errados por jogo (média de 86) é mais prejudicial ao jogo do que as de Ajax (88), Twente (90) e Vitesse (94).
Então, aprofundemos esses dados sobre passes para o meio-campo. Dois dos titulares do setor, Schaars e Maher, estão entre os três jogadores que mais erram passes, em média. O pior é que ambos seriam figuras fundamentais para o time. Schaars foi contratado para fazer o que Strootman vinha fazendo bem: não só ser o principal homem de desarme do meio, mas também iniciar as jogadas de ataque. E Maher seria o armador, o cidadão a criar jogadas para o trio de atacantes. Mas aquele erra 11,9 passes por jogo, em média; este, 9,2 passes.
Aí, o problema se duplica. Primeiramente, no ataque. Sem muita gente que volte para buscar jogo (apenas Jozefzoon o faz), os jogadores ofensivos ficam muito inativos. Bakkali até tenta criar jogadas pelas pontas, mas é mais um atacante de receber bolas do que propriamente um ponta-de-lança. Memphis Depay e Matavz, seu reserva imediato, são mais finalizadores; logo, os que mais sofrem com o problema. Somente a escalação mais frequente de Luciano Narsingh, recuperado da cirurgia no joelho direito que o tirou de combate por boa parte do ano, poderia ajudar a resolver o problema.
O pior é que outros jogadores que poderiam ajudar mais na resolução dos problemas do meio-campo também andam às voltas com os problemas próprios. Goleador do PSV no Holandês (marcou quatro vezes), Georginio Wijnaldum sofre com problemas lombares desde meados de setembro, e só volta a jogar no início de 2014. E Ola Toivonen ficou prejudicado pela longa história do sai-não-sai do clube: pretendido pelo Norwich City, que chegou a acertar com o PSV, o meia/atacante sueco descartou a transferência para os Canaries, que ficaram com o compatriota Johan Elmander.
Depois, recusou a proposta de renovação de contrato – o compromisso atual acaba no final da temporada, e o PSV quis a renovação para não perder Toivonen de graça. A contraproposta sugerida pelo agente de Toivonen, Mino Raiola, foi recusada pelo clube, que descartou ultrapassar o teto salarial anual imposto internamente aos jogadores (900 mil euros). Depois de passar um tempo jogando no time de aspirantes, o sueco retornou, mas já sabe: vive seus últimos momentos em Eindhoven, devendo sair na janela de transferências de janeiro.
No caso da defesa, o sofrimento se espalha por todos os jogadores. No gol, nem Jeroen Zoet nem Przemyslaw Tyton trouxeram confiança à torcida, além de sofrerem com lesões (Zoet passou algumas rodadas fora por problemas no tornozelo; Tyton teve a concussão cerebral sofrida contra o Roda JC, mas se recuperou em poucos dias). No miolo de zaga, Karim Rekik também teve de ficar um tempo no estaleiro, e Phillip Cocu teve de alternar Joshua Brenet e Jorrit Hendrix no setor. E na lateral esquerda, Jetro Willems segue exagerando na ofensividade.
De certa forma, todos esses problemas “estouraram” durante o jogo contra o Feyenoord. Antes mesmo da partida, a torcida foi protestar em De Herdgang, o centro de treinamentos. Durante o jogo, a defesa, nervosa, cometeu dois pênaltis. Pior: ao ser expulso pelo árbitro Danny Makkelie, tomando o segundo amarelo após a penalidade em cima de Graziano Pellè, Jeffrey Bruma mandou uma banana para a torcida do Feyenoord, ao deixar o gramado do De Kuip. Bastou para que a federação holandesa lhe desse uma advertência pública, e o PSV lhe multasse. “Coroando” o fim de semana, a torcida interceptou o ônibus da delegação, e Schaars teve de ir até os adeptos para pedir-lhes calma.
Claro, deve-se compreender que esta é a primeira temporada numa fase de reformulação que o PSV vive. Entretanto, não se esperava uma campanha tão ruim. E olhando para o Ajax, grande exemplo seguido e admitido pelo clube de Eindhoven, lembra-se que os Ajacieden viviam a turbulência em 2010/11, engataram uma sequência de vitórias no final da temporada e sagraram-se campeões, encerrando sete anos de jejum. Mas isso só ocorreu porque ainda havia condições para tanto.
Pior: a má fase seguiu neste final de semana. Jogando em casa, o PSV até imprimiu um ritmo mais forte contra o Vitesse no início. Chegou a empatar, após sofrer gol de Lucas Piazon no primeiro tempo. Mas, na etapa final, Mike Havenaar cometeu falta em Schaars. Os Eindhovenaren reclamaram por um cartão vermelho. Não só Havenaar não o levou, como recolocou o Vitesse na frente. E dois gols de Kelvin Leerdam encarregaram-se de derrubar o ânimo do PSV, rumo à derrota por 6 a 2 – a quarta maior derrota do clube em casa, na sua história dentro do campeonato nacional.
Não é algo inédito: em 2011, o Twente fez 6 a 2 no Philips Stadion. Mas é quase certo que, ao seguir mal das pernas neste importante momento do campeonato, o PSV lamentará mais um ano de jejum. E o que é pior, com perspectivas nebulosas para os próximos anos.