Holanda

De volta para o futuro

Na metade de 1984, o Feyenoord vivia um ótimo momento. Conquistara tanto o Campeonato Holandês quanto a Copa da Holanda, na temporada 1983/84, então recém-encerrada. No time vencedor, o meio-campo tinha Ruud Gullit e Johan Cruyff – este, em sua última temporada como jogador. Peter Houtman (pouco falado no resto do mundo, mas venerado em Roterdã) era o homem-gol do Stadionclub, ao passo que o zagueiro Ben Wijnstekers, outro nome respeitado internamente, representava um dos pilares da defesa, junto do goleiro Joop Hiele.

Naquela metade de ano, o Feyenoord ganhou um novo patrocinador: deixou o Gouden Gids (o “guia amarelo”, apelido popular das listas telefônicas na Holanda) e passou a estampar o nome da fabricante automobilística alemã Opel na camisa. E a Opel patrocinou o clube alvirrubro até 1989.  O Feyenoord não ganhou mais títulos naquela década, mas continuou sendo um clube respeitado, participando de uma Copa dos Campeões (1984/85) e das três Copas Uefa posteriores – alcançando a melhor participação em 1987/88, quando chegou às oitavas de final.

Toda esta introdução para dizer que, nesta semana, o Feyenoord viveu um clima de nostalgia positiva. Nostalgia pelo anúncio feito na segunda-feira passada: após 24 anos, a Opel voltará a estampar seu logotipo na camisa dividida em branco e vermelho, a partir do meio do ano. A entrevista coletiva só confirmou isso. É só conferir as declarações do diretor comercial do clube, Mark Koevermans: “A longa história que a Opel e o Feyenoord têm em comum apontou que estes são dois mercados muito fortes, que trabalhariam bem juntos. Acreditamos que a Opel é a melhor parceira imaginável para os próximos anos”.

Do lado da Opel, o diretor Karl Hofkins comemorou: “O que nos move é o espírito do ‘de volta para o futuro’. Nossas empresas têm uma história de amizade e trabalho em conjunto há quase 30 anos. Ambos os mercados estão unidos em seus planos ambiciosos para seguirem até um futuro de sucesso”. Natural que a montadora tenha grandes projetos. Com inegável tradição no futebol (basta lembrar os áureos tempos em que patrocinava o Milan e era uma das parceiras da Uefa na Liga dos Campeões), a Opel anda a fim de recuperar o terreno perdido nos últimos tempos.

Para arrematar, a apresentação da camisa que o Feyenoord vestirá uniu Jordy Clasie, símbolo do time ascendente da atualidade, a Ben Wijnstekers. E o defensor campeão da Eredivisie 1983/84, vestido com o uniforme da época, fez questão de comparar a situação de agora à da primeira vez em que a Opel estampou sua marca na camisa: “Naquele tempo, nós tínhamos muitos jogadores nascidos em Roterdã na equipe, enquanto o time atual tem muita gente surgida das categorias de base. É uma boa base para o sucesso”.

Porém, se ficasse somente na nostalgia, seria algo cruel ver um patrocinador antigo voltar, para lembrar dos “bons tempos” e esquecer da dura realidade. Além do mais, o que realmente importa, para o torcedor, é o que se vê no campo. Aí entra o lado positivo na nostalgia. Na última rodada do Campeonato Holandês, o time atuou de modo seguro, mesmo fora de casa. E não teve a menor dificuldade para aplicar 3 a 0 no NEC, mantendo a terceira posição no campeonato – três pontos atrás do líder PSV e um atrás do Ajax.

Mais do que isso: o Feyenoord aparenta estar bastante entrosado, “redondo”. Não é o time aguerrido que chegou ao vice-campeonato na Eredivisie passada, que destacava mais pela raça apresentada a cada partida. É uma equipe que alia melhor o talento à gana que a Legioen (apelido dado à torcida do clube) exige dos jogadores. Basta olhar o ataque, onde Graziano Pellè já fez 20 gols na temporada – 19 pela Eredivisie, um pela Copa da Holanda. A mesma quantidade que John Guidetti, o símbolo do sucesso em 2011/12, fez em toda a temporada passada.

Ou então, veja-se o meio de campo, onde Clasie continua organizando as ações. Mais do que isso: onde Tonny Trindade de Vilhena já virou dono do setor esquerdo. Transformado em titular numa emergência, após Kelvin Leerdam anunciar o desejo de uma transferência e ser imediatamente barrado, o jovem de 18 anos, de ascendência angolana, imprimiu bastante rapidez e qualidade no passe ao jogo do Feyenoord. Assim como Jean-Paul Boëtius, atacante de quase 19 anos (os completará no dia 22), escalado como titular a partir de um clássico contra o Ajax – no qual já marcou, só para constar -, também tomou a posição de Ruben Schaken sem a menor cerimônia.

Claro, jovens que são, ainda têm alguma irresponsabilidade tática. O que irrita Ronald Koeman: após a vitória contra o NEC, ele chegou a dizer que sentiu vontade de “puxar as orelhas” de Boëtius, por não ajudar na marcação da saída de bola. Todavia, o próprio treineiro Feyenoorder também disse, após o jogo: “Dá para sentir que os jogadores estão pensando nas chances de título”. E foi além: “Vamos lutar pelo máximo. Não queremos parar”. Postura adequada para quem quer voltar a falar grosso no seu terreiro.

O Feyenoord olha para o futuro – sem esquecer do passado, como se viu com o patrocinador.

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