Holanda

Apoiar é preciso

Uma frase do poeta gaúcho Mário Quintana diz: “Por que será que a gente vive chorando os amigos mortos e não agüenta os que continuam vivos?”. Adaptando-a um pouco para o futebol, e especificamente para este período de pré-convocações para a Copa do Mundo, ela poderia ser assim: “Por que será que a gente vive chorando os não-convocados, e não agüenta os que o técnico escolheu?” 

Pois esta é uma frase que cai como uma luva para a pré-lista que Bert van Marwijk divulgou na última terça, com os 30 jogadores que farão parte da preparação para a Copa do Mundo de 2010. A lista é inegavelmente boa. Nem excelente, nem absurda – apenas boa. Entretanto, ouviu-se muito a grita geral pela ausência de Ruud van Nistelrooy.

Em primeiro lugar: sim, Van Nistelrooy faz falta. É o único dos atacantes holandeses que podem ser incluídos entre os melhores da história do país. Pertence àqueles avantes da estirpe com a qual sempre é necessária atenção dentro da área – caso contrário, pelo menos uma bola eles deixam nas redes. Além disso, o nativo de Oss fez uma boa Eurocopa, em 2008. E está na lista dos dez maiores artilheiros da Oranje (é o sexto, com 28 gols – empatado com Cruyff e Abe Lenstra, e à frente de gente como Van Basten e Neeskens).

Entretanto, não se pode esquecer que o atacante vinha de uma lesão no joelho, que tomou boa parte do tempo necessário para que ele pudesse entrar no grupo de Van Marwijk. E, mesmo após ir para o Hamburg – transferência conseguida exatamente para conseguir mais ritmo de jogo na aspiração a uma vaga na pré-lista -, RVN não assumiu o papel de goleador líder que se esperava. Participou de onze jogos na Bundesliga, marcando cinco gols – e ainda houve mais dois, nos sete jogos na Liga Europa. Sete gols em 18 jogos. Média de 0,38. Nada mal, mas poderia ser melhor.

E, sim, Huntelaar não é o mais confiável dos atacantes. Teve uma temporada turbulenta no Milan: não conseguiu adaptar-se bem ao futebol italiano, é fato. De todo modo, consegue render bem com a camisa laranja. Senão, veja-se: desconsiderando os três 0 a 0 seguidos da Holanda, dos últimos nove jogos em que o time marcou gol, “Hunter” marcou em cinco. E ainda há a média: com 33 gols em 64 jogos, Van Nistelrooy tem média de 0,51. Huntelaar tem 15 gols em 30 jogos. 0,5 gol por partida, com perspectivas de passar Van Nistelrooy. Ou seja, não é de se jogar fora o rendimento do jogador milanista pela seleção.

Outro fator esquecido pelos injuriados com a ausência de Van Nistelrooy é que Bert van Marwijk não o convocou por razões estritamente técnicas. Não houve nenhum tipo de “birra” disciplinar – tanto é que, assim que o técnico soube do desejo do atacante em voltar a defender a seleção de que se aposentara em 2008, logo após a Euro, tratou de assistir a vários jogos do Hamburg, bem como os auxiliares Dick Voorn, Frank de Boer e Phillip Cocu. E chegou à conclusão de que o esforço do atacante fora louvável, mas não merecedor de vaga na Oranje. Meio cruel, mas até compreensível.

Enfim, a ausência de Van Nistelrooy é sentida, mas não é motivo para se fazer escarcéu. Até porque ele só se tornou um postulante a uma vaga quando boa parte do grupo já estava formada. Isso, para não falar de Seedorf, que foi pedido, mesmo quando já se sabe que a Oranje é caso encerrado em sua carreira (e isso foi dito pelo próprio). Sendo assim, melhor parar de falar de quem não pode ir à Copa. E analisar o grupo que participará da preparação, no centro de treinamento de Hoenderloo.

Goleiros: Stekelenburg (Ajax), Vorm (Utrecht), Boschker (Twente) – Velthuizen (Vitesse) foi cortado

Mais um setor da Oranje onde a frase “não adianta chorar” tem de virar um mantra. Stekelenburg não conseguiu ainda acabar com a sombra que Van der Sar deixou, e isso até se compreende. Porém, o goleiro do Ajax tem bom nível, e foi um dos melhores de sua posição na Eredivisie recém-encerrada. Uma boa atuação na Copa pode trazer uma transferência para um clube maior da Europa – e “Stekel” tem talento para isso. Não há porque pensar de modo catastrofista.

Nos reservas é que se viu uma boa surpresa. Também dos bons goleiros atuando na Holanda (é sinônimo de segurança no Utrecht, e já jogou pela Oranje, no amistoso contra o Japão, no ano passado), Vorm era presença garantida na lista. O prêmio foi para Boschker: também com boa temporada, o veterano do Twente ganhou a vaga de Velthuizen nos últimos metros, por ter mais experiência. Estar na Copa será merecido, para o arqueiro de 39 anos.

Defensores: Van der Wiel (Ajax), Boulahrouz (Stuttgart-ALE), Heitinga (Everton-ING), Mathijsen (Hamburg-ALE), Ooijer (PSV), Vlaar (Feyenoord), Van Bronckhorst (Feyenoord), Braafheid (Celtic) e Anita (Ajax)

O setor mais problemático da Oranje tem a seu favor, pelo menos, o fato de não terem sido feitas experiências ou surpresas de última hora. Mesmo que inspirem pouca confiança, os jogadores convocados são o que de “melhor” se tem na defesa. Inclusive, o crescimento de Vlaar – um dos melhores zagueiros da última Eredivisie – ajudou Van Marwijk, que tem mais opções para o miolo de zaga. Falando nele, Heitinga e Mathijsen formam uma dupla um pouco mais séria, ainda que lenta.

Pelas laterais, a chamada de Boulahrouz foi providencial: “De Kannibaal” dá mais segurança na marcação do que Van der Wiel, que é promissor, mas precisa ainda melhorar este aspecto. Pela esquerda, a discussão é quem será o reserva do capitão Van Bronckhorst. Mesmo que esteja discreto no Celtic, Braafheid sai na frente de Anita, que recebeu a convocação mais como um prêmio pelas boas atuações no Ajax – e como um modo de ganhar experiência.

Meio-campistas: Van Bommel (Bayern de Munique-ALE), De Jong (Manchester City-ING), Sneijder (Internazionale-ITA), Van der Vaart (Real Madrid-ESP), Afellay (PSV), De Zeeuw (Ajax), Bakkal (PSV), Brama (Twente), Engelaar (PSV), Mendes da Silva (AZ) e Schaars (AZ)

De longe, o melhor setor da Oranje. Quem tinha de estar, está – até por obrigação, já que deixar de convocar gente como Sneijder pareceria insânia. Para começo de conversa, não faltam opções nem no quesito marcação: pode-se optar pela mescla “firmeza-melhor saída de bola” que a dupla titular, Van Bommel e De Jong, tem, ou apelar para a pura marcação da dupla do AZ. Ou até pelo caráter mais clássico de Engelaar e Brama.

Na armação, há um intocável, e este é Sneijder, dos melhores jogadores da Europa atualmente. Mas, se ocorrer qualquer coisa com o camisa 10 da Internazionale, entra Van der Vaart, mesmo que a equipe perca em combatividade (afinal, Sneijder sabe ajudar na marcação, e VDV é menos móvel). Há ainda a opção de De Zeeuw, que sai mais de trás. Ou Afellay e Bakkal, que são mais rápidos. Enfim, opções não faltam. A questão é qual cenário os cortes vão delinear: um meio-campo mais leve ou de maior pegada.

Ataque: Robben (Bayern de Munique-ALE), Van Persie (Arsenal-ING), Kuyt (Liverpool-ING), Huntelaar (Milan-ITA), Elia (Hamburg), Babel (Liverpool-ING) e Lens (AZ)

É aí que se vê o quanto não há razões para lamentar em demasia a ausência de Van Nistelrooy. Como achar deficiente um ataque que conta com Robben e Van Persie? Mesmo que ambos tenham físico pouco confiável, quando estão bem (caso principalmente do jogador do Bayern), são dois azougues, que ainda oferecem a possibilidade usada atualmente: jogarem no meio-campo, deixando somente um finalizador.

Este pode ser tanto Huntelaar como Kuyt – com a vantagem de o jogador do Liverpool também marcar bem a saída de bola do adversário. Caso a opção seja por Elia, haveria um atacante mais técnico e rápido com a bola nos pés. A questão ficaria, então, sobre quem sobraria, entre Babel e Lens. Ainda que tenha feito temporada pouco útil no Liverpool, Babel sai na frente, pela experiência.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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