Holanda

A volta do polêmico

A opinião é unânime na imprensa holandesa: o AZ está “com cara de campeão”. Os Alkmaarders nem tiveram atuações tão brilhantes, nas últimas duas partidas. Mas o esforço foi suficiente para bater Sparta Rotterdam (2 a 0) e Roda JC (1 a 0). Tais vitórias, auxiliadas pela má sequência do Ajax – derrota para Heerenveen e empate com Heracles, ambos em casa -, fizeram com que a vantagem do time em relação aos de Amsterdã subisse para doze pontos. E mesmo o novo vice-líder, o Twente, está a nove pontos de distância. Ou seja: realmente, o troféu está próximo. E poucos o merecerão mais do que Louis van Gaal, que coroaria uma bonita reação na carreira. Não que Louis deva tomar o lugar de Bert van Marwijk na Oranje, mas seu ego precisava ser massageado após uma longa derrocada.

Derrocada iniciada justamente em sua passagem pela Seleção Holandesa, substituindo Frank Rijkaard, logo após a Euro-2000. É certo que o treinador de 57 anos encontrou um time emocionalmente abalado, após a incrível e célebre derrota para a Itália, nas semifinais do Europeu de seleções. Mas nem isso o exime de suas responsabilidades na também malograda campanha holandesa nas Eliminatórias europeias para a Copa de 2002. Seus principais erros foram dois. O primeiro – e mais grave – foi o de não saber que treinar um time e treinar uma seleção são coisas muito diferentes.

Louis sempre se caracterizou por ser um técnico inflexível e obsessivo quanto à formação tática de um time. Além disso, sua relação com os atletas era como a de um “pai severo”, tratando os jogadores quase como crianças. Algo apropriado a times formados por jovens jogadores – como sua obra-prima, o Ajax que assombrou o mundo no triênio 1994/95/96. Jamais numa seleção, formada por atletas mais experientes. Com Van Gaal mantendo seu estilo inalterado, os problemas foram inevitáveis.

O segundo foi cometido em apenas um jogo. Contra Portugal, pelas Eliminatórias para 2002, a Holanda vencia por 2 a 0 em pleno Estádio das Antas. Achando que a vitória estivesse garantida, o técnico sacou Zenden e colocou Bosvelt, meia mais defensivo. Chamou os Tugas para o campo de defesa e o resultado foi óbvio e cruel: nos últimos seis minutos de partida, a equipe de Antônio Oliveira empatou o jogo. O resultado foi fundamental para diminuir as chances de vaga no Mundial. Depois, veio o trágico 1º de novembro de 2001, quando, fora de casa, com um jogador a mais, a apática Holanda não segurou a motivada Irlanda. O 1 a 0 irlandês colocou a Laranja, pela primeira vez desde 1986, fora de uma Copa. Obviamente, Van Gaal foi demitido e saiu como um pária da Holanda.

Os acontecimentos posteriores faziam crer perigosamente que a principal qualidade do treinador nativo de Amsterdã (pegar jogadores jovens e formar um time coeso e solidário, sem deixar o estilo francamente ofensivo de lado) estava se transformando numa paranóia, que exigia dos atletas o ajuste máximo ao esquema tático, tolhendo suas características naturais. Não foi por outra razão que, tão logo reassumiu o Barcelona, em 2002, brigou longamente com Rivaldo, por exigir que ele assumisse funções de marcação no meio-campo, o que nunca foi o forte do pernambucano. Não foi por outra razão que Rivaldo se mandou de mala e cuia rumo ao Milan e que, já em 2003, Van Gaal tenha sido trocado por Radomir Antic.

A má fase prosseguiu com a volta ao Ajax, para ser diretor técnico, em 2004. Vivendo às turras com o então treinador Ronald Koeman, também não deu muito certo. E aí, Van Gaal chegou ao AZ, um ano depois, para substituir Co Adriaanse. Mesmo que o time de então fosse formado basicamente por jogadores já experientes, como Timmer, Opdam, Buskermolen, Van Galen e Perez, o técnico pôs em prática novamente seu famoso faro para jovens talentos que estejam surgindo em clubes menores, de modo a iniciar a formação de um elenco para o futuro. Tanto que 2005 foi o ano em que chegaram ao DSB Stadion Steinsson (Young Boys), Schaars (Vitesse), Demy de Zeeuw (Go Ahead Eagles) e Molhoek (RKC), além da base prover ao time Jeremain Lens e Kees Luijckx. O vice-campeonato holandês conseguido na temporada 2005/06 foi o sinal de que o caminho estava certo.

A temporada seguinte marcou o aprofundamento definitivo do projeto de Van Gaal. Do time de 2006/07, os únicos titulares acima de 25 anos eram Tim de Cler, Jaliens, Koevermans e Arveladze. De resto, mais promessas iam chegando, como Cziommer (Roda JC), David Mendes da Silva e Jenner (NAC Breda), Dembélé (Willem II), Waterman (Heerenveen) e Donk (RKC). Porém, a perda do título holandês, muito próximo, na rodada final, quase pôs tudo a perder. O período 2007/08 foi opaco a ponto de, no início do ano passado, o treinador nativo de Amsterdã quase ter deixado o clube. Só permaneceu por um pedido do próprio elenco. Aí, foi o momento de moldar em definitivo uma equipe jovem, mas segura o suficiente para não cair em momentos decisivos. Nisso, mais atletas chegaram, como El Hamdaoui, Romero e Pellè. E vieram as saídas de quem não agradou (Jenner, Cziommer, Molhoek) ou recebeu boas propostas de mercados maiores (Donk, Steinsson). 

O resultado de tamanho esmero está aí: um time que nem precisa se esforçar muito para sobrar na Eredivisie. O artilheiro do torneio, El Hamdaoui. Um meio-campo de encher os olhos, cujos integrantes não só começam a frequentar assiduamente as convocações de Bert van Marwijk, mas também já recebem olhares de centros maiores da Europa. Um elenco com várias opções satisfatórias, para substituirem jogadores lesionados. Um goleiro próximo de quebrar recordes (mais nas curtas). E, mais do que tudo, um técnico que voltou a provar seu talento, que mostra mais uma vez ser, em matéria de montar um time e formá-lo à sua imagem e semelhança, só comparável, guardadas as devidas proporções, a Guus Hiddink e Rinus Michels. A Holanda voltou a reconhecer o valor que tem o tal de Alloysius Paulus Maria van Gaal.

Diables Rouges ou Diables Rouches?

O trocadilho é infame, mas tem justificativa. Afinal, o Standard é o clube belga com mais jogadores presentes (três) na relação final de 25 atletas anunciada por René Vandereycken para o amistoso contra a Eslovênia, no dia 11, em Genk. Além disso, caso queira, Vandereycken pode escalar um meio-campo formado somente por gente que está em Sclessin – ou que passou por lá, caso de Fellaini.

Porque a seleção belga tem, além de Witsel e Defour, Igor de Camargo. O paulista de Porto Feliz recebeu na convocação um prêmio pelas ótimas atuações em 2008, principalmente no final do ano. Se bem que ela nem demorou tanto, já que seu processo de naturalização foi concluído em junho. Além disso, seu estilo possibilita tanto que Vandereycken o escale na armação (concretizando o meio-de-campo monopolizado pelos Rouches, numa linha Fellaini-Defour-Witsel-Igor – algo plausível pela má fase de Vertonghen) como que inicie a partida no ataque, junto a Dembélé ou Mirallas, mais afeitos à finalização (hipótese até provável, uma vez que Sonck está voltando de contusão).

Sem contar que ainda há os que poderão jogar “em casa”, como atletas do Racing Genk (De Mul e Huysegems), os “holandeses”, que vêm de boas atuações – principalmente os do AZ: Swerts, Martens e Dembélé -, a “novíssima geração” que aparece com Eden Hazard… resta a Vandereycken quebrar a cabeça.

Convocação – Bélgica

Goleiros: Proto (Germinal Beerschot), Stijnen (Club Brugge) e Vandenbussche (Heerenveen-HOL)

Zagueiros: Daems (Borussia Mönchengladbach-ALE), Kompany (Manchester City-ING), Simons (PSV-HOL), Swerts (AZ-HOL), Van Buyten (Bayern de Munique-ALE), Vanden Borre (Genoa-ITA), Vermaelen (Ajax-HOL)

Meias: Gillet (Anderlecht), Witsel e Defour (Standard), Haroun (Germinal Beerschot), Fellaini (Everton-ING), Martens (AZ-HOL), Vertonghen (Ajax-HOL)

Atacantes: Igor (Standard), Dembélé (AZ-HOL), Hazard (Lille-FRA), De Mul e Huysegems (Genk), De Sutter (Anderlecht), Sonck (Club Brugge), Mirallas (Saint-Etienne/FRA)

Velho problema. Nova solução?

O talento presente na maioria dos jogadores de meio-campo e ataque da Holanda é notório (claro, com várias exceções). Como é notória a falta de confiança dos holandeses na retaguarda de sua seleção. Tanto que Bert van Marwijk assumiu: seu objetivo, na formação do elenco que quase certamente estará na África do Sul, ano que vem, é fazer com que zagueiros e volantes tenham mais “pegada”, sem prejudicar os da frente.

A convocação para o amistoso contra a Tunísia, em Rades, no dia 11, representa mais uma etapa na procura de zagueiros confiáveis o suficiente para ganharem a titularidade indiscutível. Já pré-selecionados, o zagueiro Edson Braafheid e o lateral-direito Gregory Van der Wiel permaneceram na relação final, com 20 atletas. O beque do Twente pode até ser mais duro, mas tem talento (com a saída de Wielaert e a contusão de Douglas, assumiu papel central na organização da defesa na equipe de Steve McClaren). Além disso, pode jogar na lateral-esquerda, onde vem jogando frequentemente nos Enschedese.

Já Van der Wiel mostra certo talento no apoio, mas suas deficiências na marcação representam um dos pontos fracos do Ajax na temporada. Sendo assim, o quarto-zagueiro que for escalado contra os tunisianos – provavelmente Mathijsen – deverá ficar de olho no setor, para não possibilitar a formação de uma “avenida” por ali.

Logicamente, uma derrota no amistoso não seria tão dramática. Mas Van Marwijk precisava fazer as experiências. Até porque 2010 “é logo ali”.

Convocação – Holanda

Goleiros: Stekelenburg (Ajax), Timmer (Feyenoord).

Zagueiros: Braafheid (Twente), Heitinga (Atlético de Madrid-ESP), Marcellis (PSV), Mathijsen (Hamburgo-ALE), Ooijer (Blackburn Rovers-ING).

Meias: Afellay (PSV), Van Bommel (Bayern de Munique-ALE), De Jong (Manchester City-ING), Mendes da Silva (AZ), Schaars (AZ), Sneijder e Van der Vaart (Real Madrid-ESP), De Zeeuw (AZ).

Atacantes: Babel (Liverpool-ING), Huntelaar (Real Madrid-ESP), Kuyt (Liverpool-ING), Van Persie (Arsenal-ING), Robben (Real Madrid-ESP)

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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