Holanda

A perigo

Meses atrás – precisamente na edição de 20 de março -, esta coluna via com bons olhos o final de temporada do Ajax. Mesmo que, já então, o AZ estivesse na rota do título holandês que conquistaria, e os Godenzonen tivessem sofrido a eliminação na Copa Uefa para o Olympique de Marselha exatamente dois dias antes da publicação daquela coluna, o clima era de que havia futuro. Havia uma equipe com jogadores promissores, a diretoria confiava no técnico e a participação nos torneios continentais já fora bem mais elogiável nesta temporada. Parecia que a decantada “reformulação” iniciada pelos lados da Amsterdam Arena, a partir de 2008, começava a chegar a algum lugar, mesmo com algumas tormentas – como a fracassada contratação de Johan Cruyff.

Tudo isso caiu no último domingo, com a realização da penúltima rodada da Eredivisie. Já sem o título na alça de mira, o plano era gastar as últimas rodadas tentando aproveitar pontos que o vice-líder Twente fosse deixando pelo caminho, de modo a, na partida contra o AZ e no confronto direto contra os Tukkers, dar o salto definitivo que colocaria o time na segunda posição – logo, dando direito a uma vaga na fase preliminar da Liga dos Campeões. O empate em um gol contra os Alkmaarders já fora meio desapontador. Mas nada, absolutamente nada se compara ao desalento que tomou conta de Strandsvliet após o desempenho na partida contra o Sparta Rotterdam.

A atuação da equipe no Het Kasteel foi próxima do vergonhoso. A derrota de 4 a 0 não tirou apenas a chance de conseguir um lugar na LC 2009/10 – já que, com a vitória por 3 a 0 sobre o AZ, o Twente abriu quatro pontos de vantagem na segunda colocação, com apenas mais três pontos a serem disputados. A submissão da equipe ao 13º colocado da Eredivisie foi tão humilhante que não houve ânimo nem mesmo para tentar um gol de honra. Nem mesmo para reclamar, ainda que sem razão, da expulsão justa de Oleguer. Vendo a partida, a impressão era de que a equipe reformulada parecia padecer da mesma decadência mostrada na temporada passada, quando o mesmo Twente conseguira segurar heroicamente o 0 a 0 em uma incrédula Arena, nos play-offs para a vaga na Liga.

Depois da partida, o abatimento de Marco van Basten era absolutamente penalizador. Uma frase sua diz tudo: “Como pudemos perder para o Sparta?” Ainda que o técnico Ajacied tentasse manter alguma esperança para o agora inútil confronto direto contra o Twente (“Temos de encerrar a temporada da melhor maneira possível”), suas palavras finais não deixavam de ter um quê de premonição sobre o que poderia acontecer (“Não quero sair, mas o Comitê Executivo pode pensar diferente. Não fomos bem e a culpa é minha. Devo me questionar”).

Pois Van Basten se questionou. E, mesmo que a direção do Ajax não tivesse dado o menor indício de não confiar mais no ex-técnico da seleção (ao contrário: o diretor geral Rik van den Boog tinha em “San Marco” o homem ideal para comandar a reformulação em campo), as respostas fizeram-no despejar a bomba definitiva, na última quarta. O Ajax juntar-se-ia a PSV e Feyenoord como um integrante do Trio de Ferro que terminaria a temporada com um interino como técnico. Menos de um ano depois, o ex-jogador se demitia do cargo, deixando a última partida para ser comandada pelo auxiliar John van't Schip.

Atitude surpreendente? Não e sim. Não porque, ora bolas, uma derrota por 4 a 0 para um adversário mais fraco é sempre motivo para graves turbulências. Além disso, é notável que o nativo de Utrecht ainda sofre para conduzir alguns atritos com os atletas. E sim, porque Van Basten foi a única parte a ser absolutamente imperdoável com seu próprio trabalho. Sua tristeza na entrevista coletiva em que anunciou a demissão era tamanha que a comoção foi inevitável.

Não houve como não se compadecer quando Van Basten, agora já com certa experiência em treinar times, foi cortante em sua fala: “Eu me perguntei: Será que sou bom o bastante para o Ajax? Será que tenho influéncia sobre os jogadores? Será que sou capaz de melhorar o time? Quando vi que não podia encontrar respostas afirmativas para essas questões, decidi sair.” Talvez fosse dureza. Mas talvez fosse apenas uma sinceridade em admitir fraquezas até pessoais, algo admirável no meio do futebol.

As reações foram unanimemente de lamentações: do capitão Thomas Vermaelen, que afirmou que o elenco estava “triste”, a Johan Cruyff, que voltou a criticar duramente o organograma do clube. Mesmo assim, deve-se temer pelo futuro de Van Basten como treinador. O caso não deveria ser para tanta depressão. Talvez San Marco precise passar pelo que Frank Rijkaard experimentou após deixar a Oranje, com a histórica eliminação na Euro 2000.

Abalado, Frank teve de recomeçar o caminho das pedras, indo para o Sparta Rotterdam (olha ele aí de novo!), em 2001. Mais “cascudo”, ganhou cancha para chegar ao Barcelona, onde finalmente ganharia títulos e certa respeitabilidade. Que, aliás, pode ser posta à prova caso Rijkaard seja o contratado para treinar os alvirrubros – outro citado é Steve McClaren, respaldado pela boa campanha no Twente. 

E agora, que será da reformulação no Ajax?

Impressionante

O Tubize já não tem mais com o que se preocupar na Jupiler League belga. Tinha, mas não teve meios de evitar o rebaixamento, que chegou na 32ª rodada. Porém, a equipe treinada por Herman van Holsbeeck tratou de manter o suspense que deixa irrespirável (no melhor dos sentidos que a palavra tem) a briga entre Standard Liège e Anderlecht, para ver quem será o campeão.

Os Mauves haviam ganho, no último sábado, a formação do cenário ideal para abrirem quatro pontos de vantagem em relação aos Liègeoises. Laszlo Bölöni sabia perfeitamente que um tropeço contra o Zulte-Waregem seria pouquíssimo recomendado na batalha. E os Rouches entraram em campo com uma postura cautelosa. Tão cautelosa que o time não sofreu gols, mas tampouco demonstrou competência para fazê-los. O 0 a 0 era tudo o que o Anderlecht queria. Era só vencer o Tubize.

Só? A responsabilidade criada, inegavelmente, pesou sobre os ombros dos comandados de Ariël Jacobs, que não só não chegaram à meta de Ardouin, como deixaram os anfitriões criarem duas excelentes chances de abrir o placar, ainda no primeiro tempo. Pior: no segundo, aos 18 minutos, Jan Polak recebeu o segundo cartão amarelo e foi expulso. E, para “coroar”, a sete minutos do fim, Gregory Dufer abriu o placar para o Tubize. Seria a perda da liderança.

Não foi porque a equipe teve raça para, no abafa, conseguir o empate nos acréscimos, com Wasilewski. Mas o empate em pontos com o Standard prossegue (71 a 71). E a dúvida sobre quem será o campeão persistirá até a última rodada. O Standard tem o clássico contra o Club Brugge; o Anderlecht pega um rival mais fácil, o Roeselare, antepenúltimo colocado. Fácil? Fácil mesmo tem sido se empolgar com o final da Liga Belga.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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