Holanda

A magia acabou

É melhor dar a opinião logo: não há desculpas para o vexame que a seleção da Holanda fez na Euro 2012. Não há. Os dados que revelam o tamanho da decepção se avolumam: nunca uma equipe vice-campeã mundial na época de uma Euro fez campanha tão ruim. A última vez em que a Oranje perdera três partidas consecutivas fora em 1990 (Alemanha – derrota nas oitavas de final da Copa do Mundo -, Itália – amistoso – e Portugal – eliminatórias da Euro 1992). Nunca, em uma fase de grupos de um torneio, a equipe perdera seus três jogos.

Outro modo de se medir a dimensão do desastre holandês é ver as manchetes da imprensa do país. O “De Telegraaf” escrachou: “A piada da Eurocopa”; o “Algemeen Dagblad” alertou: “A base da derrocada veio em Lausanne e Hoenderloo, e cresceu até dar em um torneio completamente amargo e frustrante”; e o “De Volkskrant” pediu: “Van Marwijk viu o número de derrotas sob seu comando subir para oito, em 52 partidas. É um retrospecto admirável, mas esconde o fato de que, dos últimos doze duelos, a Holanda perdeu seis. O tempo dele foi belíssimo, mas passou.”

Ou, então, pode se ver as declarações dos jogadores. Bert van Marwijk não fugiu da raia. Falando à NOS, emissora de tevê, assumiu: “Perdemos três vezes, e caímos. Também me sinto responsável. O que acontecerá, agora, é a última coisa em que penso.” Sneijder discordou da ideia de demissão: “Por que Van Marwijk não pode seguir? Há dois anos, ele nos levou à final da Copa do Mundo.” Falando no vice-campeonato, Robben disse muito, sem dizer: “Houve coisas dentro do elenco, mas devemos manter isso entre nós.”

Enfim, repita-se: foi um vexame. “Coroado” pela performance afobada contra Portugal. Até deve-se amenizá-la. Afinal de contas, o time precisava vencer por dois gols de diferença, e ainda dependia da Alemanha contra a Dinamarca. Era tudo ou nada. E Van Marwijk, então, escalou um time completamente ofensivo: Van der Vaart substituindo Van Bommel, Van Persie recuado para o meio-campo, Huntelaar no ataque…

No começo, até deu certo, com o belo gol de Van der Vaart. O fato da Alemanha abrir o placar contra a Dinamarca, porém, teve o efeito inverso: ao invés de correr em busca do segundo gol, a Oranje pareceu achar que já fizera sua obrigação. E, aí, foi o que se viu: as claras limitações da defesa foram aumentadas em várias vezes, pela ofensividade quase suicida da escalação.

Aos poucos, Portugal foi se aproveitando da maior calma com que entrou em campo – e do fato de ter um Cristiano Ronaldo bom como quase nunca se viu quando ele enverga a 7 da seleção das Quinas. Logo veio o empate. E voltou o desespero holandês, que colocou o time de Van Marwijk numa sinuca de bico: nem o ataque conseguia produzir nada, nem a defesa transmitia tranquilidade. Muito ao contrário: Mathijsen e Vlaar ficavam completamente vendidos. E Jetro Willems, outra vez, tinha atuação sofrível, dando razão aos temores que sua escalação trazia.

Somente Stekelenburg evitava uma vitória portuguesa. Não pôde evitá-la, com o segundo gol de Cristiano Ronaldo. Pior: enquanto pedia para o time ajudar na defesa, Van Marwijk escutou Robben, curto e grosso: “Cala a boca!” Uma frase digna de um time que se mostrou totalmente indigno. E que exibiu, na hora errada, uma queda brusca de desempenho. Mostrou-se um time cansado, cada vez mais frágil defensivamente, com alguns furos de desunião a permitirem que o barco afundasse.

É preciso, novamente, amenizar: a derrota para a Dinamarca desmilinguiu o ânimo da equipe. Ninguém esperava. Mas isso não justifica a equipe nervosa vista contra Alemanha e Portugal. Nervosismo já visto na Copa de 2010. Só que, após a vitória contra o Brasil, nas quartas de final (tão imprevista quanto merecida), a Oranje se fortaleceu. Ficou maior do que realmente é, como se uma mágica houvesse tocado aquele elenco. A eliminação na Euro trouxe de volta a realidade dura: uma equipe que não é ruim, mas que perdeu seu lugar entre as três melhores seleções do mundo.

Mas nada está perdido. A coluna falará sobre isso na próxima sexta.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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